domingo, 23 de abril de 2017

A especulação teológica - perguntas que não levam a nada...


A) — Você sabe qual é o sexo dos anjos?

B) — Depende.

A) — Como assim? Depende de quê? Do anjo?

B) — Bem... depende de algumas coisas. Esta é uma, entre outras, mas, para responder melhor a sua pergunta, precisamos primeiro considerar... 


Que os meus queridos leitores me perdoem por interromper, subitamente, o diálogo. Não dá para supor que, em um curto artigo como este, eu tivesse a pretensão de “desvendar” o sexo dos anjos. Se o leitor não sabe, lamento mas continuará sem saber. Todavia, gostaria de consolá-lo da seguinte forma: esse conhecimento não é realmente significativo. Não fará crescer um par de asas em suas costas. Não aumentará sua espiritualidade. 
Enfim, não o aproximará mais de Deus. 

O fato é que, desde os concílios medievais, ou até antes, já se discutia o assunto com entusiasmo, mas o consenso nunca foi a conclusão dos debates. A discussão acerca da sexualidade angelical está sendo tomada aqui para aludir à banalização da Teologia vulgar que tem sido cultivada pela mídia evangélica brasileira com a aceitação e participação das redes sociais por muitos cristãos que discutem e debatem temas e questões irrelevantes e inúteis para a vida cristã, evangelização ou edificação. 

Certamente, seria tão imaturo quanto injusto generalizá-la, assim como seria impróprio alistar aquelas que julgo aprovadas neste crivo. Sinceramente, a despeito da ousadia de abordar o assunto, não me posiciono como juiz absoluto da causa, porém posso constatar os fatos como bom observador e participante nestas esferas de comunicação e interação cada dia mais poderosas e ativas na vida das pessoas. Entretanto, sendo honesto, devo ressaltar que sempre há ressalvas que não podem, jamais, ser esquecidas e rendemos graças a Deus por isso, ainda que sejam somente mencionadas brevemente.

Examinando os diversos veículos da mídia que os evangélicos têm empregado para compartilhar sua fé, percebemos o quanto temos sido abençoados e como a Igreja está engajada em sua missão (Mc 16.15). Todavia, o bom emprego dessas oportunidades está condicionado a um elemento não muito refletido em alguns casos: a responsabilidade, sem contar a necessidade de se conhecer o que e do que se propaga. Conhecimento bíblico, mesmo que básico, é fundamental. 
Televisão, rádio, jornais, revistas e sites — todos são instrumentos formadores de opinião, embora seus administradores nem sempre estejam plenamente conscientes disso. São mídias que influenciam na construção da “intelectualidade espiritual” dos fiéis. Funcionam como grandes púlpitos ao ar-livre, cujos pregadores podem fazer ressoar suas vozes em muitas e distantes direções, e infelizmente estas direções tem levado as pessoas para muito longe do caminho correto e bíblico. 

Ora, onde há mídia quase sempre há ibope, audiência, daí o nosso compromisso com aqueles que se alimentam com o que o Senhor tem-nos concedido. E, como servos responsáveis, precisamos, constantemente, questionar e avaliar o grau nutricional da comida que oferecemos, pois, de outra forma, incorreremos no grave risco de reunirmos ao nosso redor crentes anêmicos, fracos e igualmente, irresponsáveis. 

Sabemos que o que dá ibope nem sempre é bom e edificante (1Co 6.12), e essa é a imensa passarela em que desfila a especulação fútil e as discussões inúteis, que geralmente são aplaudidas pela polêmica e não incomum, contenda. E as três, especulação, polêmica e contenda quando unidas, tornam-se imbatíveis na sustentação da “audiência” e das "curtidas" e "likes" nas redes sociais.

Veja o leitor que não censuro qualquer tipo de especulação ou discussão. Falo daquela que qualificamos “fútil” e "inútil". Há assuntos e circunstâncias a serem considerados. Especular nada mais é do que averiguar minuciosamente e não negamos que a Bíblia seja digna de tamanha e zelosa atenção. Contudo, inquieta-me quando essa especulação se atém somente, ou primeiramente, em detalhes que não conduzem os fiéis a lugares sólidos (Mt 7.24-27). A circunstância é pior quando isso se dá de forma desvelada, pública e irresponsável, sem ajuizar os diversos graus de espiritualidade e conhecimento das pessoas que, descuidadamente, acompanham essas mídias, redes, sites, etc. Ficamos pensando o que se passa na cabeça de um novo convertido que se insere nesse mundo de especulações, polêmicas e confusões. 

Atualmente, séculos depois dos concílios medievais, o sexo dos anjos está ultrapassado. Hoje há crentes ocupados em descobrir se as sandálias que o anjo Gabriel usou em suas aparições estavam em harmonia com a moda do costume judaico vigente. Francamente, parece piada, mas uma pesquisa superficial em alguns sites evangélicos confirma tudo isso. Chega a ser hilário o que se discute nestes fóruns, grupos e chats. Como os atenienses, são pessoas que não fazem outra coisa senão ouvir e dizer novidades e sem dúvida, bobagens. É o afamado “disse-que-disse gospel” (At 17.21). 

È bastante estranho que um crente se preocupe tanto com estas coisas e mal consiga gaguejar quando alguém lhe pede explicações sobre os pilares doutrinários de sua fé ou quando alguém lhe pede que defenda sua fé, princípio orientado na epístola de Judas. Há, nisso tudo, uma escancarada inversão de valores. 

É nesse âmbito que surgem os celeiros mais produtivos no desenvolvimento de idéias e conceitos extrabíblicos que chegam, por vezes, a ocultar aquilo que realmente é bíblico e está para sempre registrado (Mt 24.35). Isso sem falar que, quando o extrabíblico é alimentado, usurpa a posição de “doutrina declarada”, evolui e transforma-se em blasfematória heresia. Surge o terreno fértil para a plantação liberal, ecumênica, sincrética e antibíblica.

Portanto, é fundamental a orientação pastoral. Este é o meu apelo: que os pastores orientem as ovelhas de Cristo diante dessa mesa tão farta, mas que já começa a oferecer alimentos com prazos de validade vencidos. Que haja a orientação de que estudar as Escrituras de forma aprofundada, detalhada e responsável, enfatizando que este conhecimento deve ser utilizado para melhor servir a Deus servindo a Igreja e não para ser base para discussões sem sentido em questões que não valem o tempo investido e mesmo em questões em que a própria Escritura não intencionou explicar e revelar. 

De minha parte, suplico ao Senhor para que não nos deixe simpatizar com esse tipo de garçom de "alimento inútil" e que não nos prive de Sua graça. Somente assim compartilharemos aquilo que de fato edifica e nunca perece! Somente assim nos alimentaremos do "Bom Alimento" que nos faz crescer, amadurecer e viver conforme ensinou nosso Mestre e Salvador Jesus.




Artigo adaptado por Professor Magdiel Anselmo. Fonte: ICP 

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