quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Pastores Bivocacionados, uma nova forma de exercer o pastorado ou um equívoco interpretativo?




Desejo aqui tratar deste tema com o objetivo de esclarecimento e aprofundamento, visando a edificação do Corpo de Cristo e sei que para tal missão, posso desagradar alguns. Mas, meu compromisso é com as Escrituras e com o Deus das Escrituras. Espero que o artigo lhe seja útil e lhe sirva de reflexão.
Boa leitura.

Pastores Bivocacionados, uma nova forma de exercer o pastorado, uma nova forma da chamada de Deus ou um equívoco interpretativo?

Para trabalhar esta questão tão discutida atualmente, devemos em primeiro lugar refletir em algumas questões que poderão nos ajudar na descoberta ou exercício da vocação para o ministério sagrado.

1.  A origem da vocação:

O chamado para a vocação é Soberano - Mt 4.18-22; 2Tm 1.3-10. Quem chama é Jesus, Ele é Senhor e cabeça da obra. Chama para uma vocação sagrada, vinda de Deus. O Espírito segundo sua providência, separa e levanta quem lhe apraz para a obra (At 13; Ef 4.11; Rm 12, 1Cor 12). Deus separa pessoas para o exercício do ministério, de acordo com os dons e realizações. Esse chamado não acontece porque Ele previu ou entendeu existir algo bom e útil em nós, mas devido a sua determinação e graça (2Tm 1.1, 9,). Toda glória pertence a Ele, e a convicção desse chamado é motivo para dizermos: “Bendito seja Deus, que não rejeita nossa oração e nem aparta de nós a sua graça” (Sl 66.20). Se a vocação é divina e recebemos o privilégio de ser instrumento de Sua vontade não temos o direito de negociar ou priorizar outras coisas em detrimento do chamado.

2.  A exigência do chamado:

A vocação requer sacrifício. Toda vocação exige um preço na vida, um investimento e uma doação de si mesmo. Em algumas ocasiões vemos que a decisão em seguir Jesus e sua obra, exigiu deixar. Talvez deixar a família e profissão para manter a primazia do Senhor em nossas vidas (Mt 4.18.22). Em muitos casos e circunstâncias se torna evidente que o ministério sagrado nos levará ao sofrimento, segundo a Escritura somos chamados a sofrer pela causa de Cristo (2Tm 2.4).

Além das possíveis perseguições, enfrentamos as demandas, lidar com pessoas duras de coração, ingratas, dúvidas que surgem, falta de dinheiro, etc. Algo muito recorrente no ministério, seja ordenado ou leigo é a injustiça.
Aconselhando um amigo pastor, que estava desiludido, lembrei-me que o ministério mesmo sendo sagrado é administrado por homens, isso é propósito de Deus, nem uma atitude errônea o desqualifica. O próprio Jesus sofreu com os líderes da Igreja. João relata que um líder chamado Diótrefes não os deixava ir à igreja local. Mesmo assim ele permanece firme como Presbítero e amando a Igreja para servi-la e promover a vontade de Deus (3Jo 1.9). 
O amor a Igreja e o desejo de servir na vocação nos fortalece e mantêm no caminho correto. Que Ministro nunca investiu em determinada ovelha de Cristo aos seus cuidados, orou, aconselhou e se colocou na frente de lobos e em determinado momento, a ovelha por alguma questão qualquer simplesmente virou as costas? Qual Ministro não deu sua vida pela Igreja e não viu resultados objetivos? Isso tudo faz parte do ministério e não pode ser motivo de desânimo ou abandono do chamado e nem mesmo para rebaixar a importância que a vocação sagrada tem nos propósitos de Deus. A Escritura afirma: “E Ele designou alguns para...” Ef 4.11, se é assim “... quem é você, ó homem, para questionar a Deus? Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: ‘Por que me fizeste assim?’ Rm 9.20.

O sustento do chamado ao Ministério Sagrado – 1Cor 9.14
Quem cuida dos vocacionados – “O servo de Deus pede a Deus e informa suas atividades à Igreja”. Sou consciente de alguns grupos que defendem “o fazer tendas”, alguns mais radicais aboliram o ministério integral e até mesmo denominações têm determinado que seus Ministros devem exercer alguma atividade profissional. Por isso é necessário um esclarecimento bíblico e uma defesa coerente, ainda que breve daquilo que vem sendo a tradição ministerial com base nas Escrituras da Igreja de Deus.

3. O Pastorado segundo as Escrituras

Em defesa do Ministério Integral – No texto acima há uma ordem ministerial, essa palavra não é no sentido absoluto do termo, senão Paulo estaria desqualificado, porém o contexto nos esclarece que a questão aqui é a primazia. No contexto de pastoreio local, o Novo Testamento prioriza a permanência do Presbítero (Pastor) para que haja ordem e cuidado do rebanho. Mas ao mesmo tempo demonstra que em alguns casos no campo missionário, se torna necessário o trabalho “secular”, isso trará o sustento para o obreiro no processo de plantação de igreja e não acarretará em peso a mesma.

O Apóstolo como plantador de igrejas e vivendo em contexto transcultural, escreve que em alguns casos ele mesmo precisou fazer tendas. Sou consciente de que alguns irmãos usam o “fazer tendas” como desculpa para dividir seu tempo. A revelação bíblica não permite isso, e mesmo que eu reconheça ser honroso essa atitude, devido as necessidades, como evangélico (seguidor do Evangelho), não posso criar uma doutrina tendo por base a experiência e necessidade. Este é um princípio elementar que se aprende em exegese bíblica. Ou seja, a experiência ou necessidade pessoal jamais podem estar acima das Escrituras e criar um padrão ou doutrina para a Igreja, mesmo que esta necessidade e experiência foram na vida de um apóstolo como Paulo. O que vale sempre é o que as Escrituras ensinam e revelam como norma, doutrina para as questões e não estas excepcionalidades.

A Escritura afirma que “...àqueles que pregam o Evangelho, que vivam do Evangelho”, e que “os Presbíteros (Pastores) que se afadigam na Palavra são dignos de duplos honorários” 1Tm 5.17. O justo viverá pela fé, confiando que o Soberano enviará os recursos para que a vocação não seja envergonhada e Seu Nome deixe de receber a Glória que Lhe é devida. Isso tem a ver com confiança na Providência Divina, no suprimento de Deus prometido ao vocacionado.

A regra da Escritura é a primazia do ministério pastoral, porém é possível entender que em alguns casos no contexto missionário se faz necessário o trabalho secular e assim o exercício do ministério bivocacional. Mas para benefício do ministério e bem da Igreja não há fundamento para que a exceção se torne a regra geral ou se “crie” um novo padrão para candidatos ao ministério pastoral ou para aqueles que desejam exercer outras atividades além e juntamente com o pastorado.

Particularmente reconheço também que o Ministro (pastor) em alguns momentos e circunstâncias, seja obrigado, a dividir seu tempo com outras atividades seculares, mas não vejo fundamento para buscar isso, ser uma orientação da denominação e nem mesmo ser uma atitude permanente. Vemos o caso de igrejas novas, pequenas, onde os irmãos não têm como sustentar o obreiro que ali está ou em casos onde a igreja não foi ensinada biblicamente acerca do sustento pastoral e por isso negligencia este sustento. São situações excepcionais onde o Ministro terá que buscar outro meio para seu sustento, mas, repito, é circunstancial e passageiro, não deve ser regra ou situação permanente. Ainda, existem casos onde o Ministro exerce uma atividade que pode e tem total liberdade para cessa-la no momento em que o rebanho precisa de sua presença ou trabalho. São funções e atividades que quem controla é o Ministro, por exemplo, trabalhar em instituições de ensino teológico onde a administração e gestão conhecem e respeitam o trabalho pastoral exercido por professores e entendem que estes podem necessitar se ausentar para atender ao rebanho que apascentam para Cristo, ou ainda, atividades que trabalhe em casa (profissionais liberais, autônomos, etc.) onde os mesmos administram seus horários, bem diferente de funções, atividades ou trabalhos onde o Ministro terá que cumprir horários e obrigações previamente estabelecidas, que o impeçam de atender quando for solicitado e então, o rebanho tem que esperar uma “folga” ou “tempo disponível” para ser atendido pelo seu pastor. Mas, mesmo estas atividades, reafirmo, são circunstanciais e não devem ser entendidas como permanentes.
A verdade é que o propósito de Deus para os Presbíteros (pastores) é: “vivam do Evangelho”, isso se tornará benefício à igreja e crédito da mesma diante do Senhor. Não é peso, mas benção sobre benção à igreja local.

Qual deve ser nossa atitude diante dessas questões?

1. Ter convicção interna e externa da vocação.

a)  O dom que há em ti - 2Tm 2.6. O exercício da vocação não vai ser genuíno e ativo se não houver uma motivação interior. O sentimento de “para onde iremos nós?” precisa inundar o coração e conduzir a vida do vocacionado, também percebe-se que essa motivação se torna parte da vida do Ministro quando o mesmo se dedica nas disciplinas espirituais, não há desejo pela causa sagrada sem a prática da oração e leitura das Escrituras, por esses meios nos relacionamos com Deus e recebemos o alimento necessário para o exercício da vocação no ministério sagrado. A convicção interna é que o levará ao “aí de mim”!

b)  A imposição de mãos - 2Tm 2.6. A vocação não acontece apenas na experiência mística individual, além de toda manifestação da glória de Deus e o ouvir do Espírito, o texto revela a necessidade de convicção externa. A igreja é o agente da realização da obra de Deus, sendo assim os Ministros e toda a congregação possuem participação ativa no chamado de alguém, por isso o Apóstolo diz: “...pela imposição de minhas mãos”. Ele mesmo vivenciou esse padrão, em Atos recebemos o relato dizendo: “Enquanto adoravam ao Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: "Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado". Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram. 13.2-3.

2. Obediência imediata

a) Seguir a vocação é ter atitude radical – Não somos covardes - 2Tm 1.7. Servir ao Senhor é uma atitude espiritual e bem estranha e até loucura para aqueles que não discernem as coisas do Espírito. Talvez alguém que ainda não amadureceu sua fé ou não entendeu a vocação tenha dificuldades, mas aqueles que Deus chamou precisam tomar uma decisão e não fugir para Társis e nem mesmo escolher suas riquezas ou preferir enterrar os pais primeiro.

b) Ouvindo Jesus deixaram no mesmo instante, imediatamente (Mt 4). O chamado dos discípulos revela a importância de todos os pontos acima e nos encoraja a caminhar com o Senhor, com o coração livre, mesmo sendo difícil. Logo após a obediência a glória de Deus e a graça se tornarão suficientes para uma vida em plena comunhão e serviço no reino do Amado. Para os obedientes a contemplação da glória e o viver a glória na edificação e salvação dos perdidos serão a recompensa e a única satisfação.

Considerações Finais

Quando vejo um Ministro (pastor) defender com "unhas e dentes" (e usando a Bíblia equivocadamente), o ministério pastoral parcial ou "o ministério bivocacional ou o pastor bivocacionado" como algo permanente e ainda, aprovado por Deus, fico a pensar que por mais que se faça uma defesa em causa própria, a própria necessidade desta defesa já a torna, no mínimo, questionável.
Quer enganar quem "cara pálida"?
A verdade bíblica, ou seja, o ideal para o pastorado é que ele seja exercido de forma integral. Não adianta “invencionices” ou criação de novas metodologias. A Bíblia já diz tudo acerca disso.
Não adianta, como expus, tentar usar o que ocorreu de forma circunstancial na vida do Apóstolo (Missionário) Paulo (fabricar tendas) e tornar isso como argumento para não se dedicar integralmente ao pastorado. Ora, Paulo fabricou tendas porque foi obrigado pela negligência das igrejas em não o sustentar adequadamente e não porque entendia ser isso o correto. E quando ele renuncia a este direito de sustento é porque aquela igreja não tinha condições de fazê-lo e sustentá-lo dignamente, o que ocorre muitas vezes ainda hoje, com pastores de igrejas novas, pequenas e pobres como mencionei anteriormente.
Não adianta tentar usar o extraordinário como ordinário, ou usar o atípico como sendo típico ou o passageiro e provisório como padrão para o ministério pastoral.
E mais, não adianta tentar comparar o trabalho exercido por um missionário com o trabalho do pastor de igreja local. Uma coisa é muito diferente da outra. Paulo era missionário, Pedro era pastor. Veja, biblicamente, como era o ministério e sustento de cada um deles devido as características de cada ofício e função.
Ora, vamos ser criteriosos e honestos com a interpretação das Escrituras e não atribuir a Ela o que Ela jamais teve a intenção de ensinar.
Sem dúvida, os que defendem este tal ministério bivocacional como permanente e nova forma de Deus chamar e vocacionar irmãos para o pastorado, cometem um grave erro de interpretação que tem como consequência, um grave erro de ordenação e consagração.
Por fim, devo acrescentar que respeito os pastores que são obrigados pelas razões expostas no artigo a exercer outras atividades juntamente com o pastorado, mas entendem isso como provisório, passageiro e circunstancial e que buscam o ideal bíblico do pastorado integral. Desejo, sinceramente, que Deus os conduza até este objetivo.
Esperando que o artigo desperte maior reflexão bíblica, pesquisa, estudo e muito menos paixão (emoção), encerro aqui minha contribuição acerca do tema, não esgotando-o certamente.
Deus nos abençoe.

Pr. Magdiel G Anselmo.




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