sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" terceira parte.




"Experiências pessoais e especiais com o Espírito Santo devem ser 

consideradas como "padrão" para todos os demais cristãos?"

Prosseguindo com a série, nesta terceira parte passarei a escrever sobre a questão das experiências espirituais e por isso, especiais (pois penso que experiências com Deus são, sem dúvida, especiais e não podem ser entendidas como banais) que todos os cristãos vivenciam na sua caminhada cristã. Mas desejo também expor e esclarecer que nem sempre uma experiência espiritual tem origem em Deus, muitas vezes é simplesmente carnal (espírito ou psique humana) e em outras, diabólica mesmo.
Mencionarei de passagem três explicações das quais não deveríamos nos esquecer, mas com as quais não quero me demorar. 

Em primeiro lugar, uma pequena parte destas experiências sem dúvida são demoníacas, uma imitação horrível efetuada por Satanás, das experiências espirituais genuínas. 
Jesus nos advertiu deste tipo de coisas, e a onda alarmante de fascinação com as coisas ocultas nos dias de hoje, deveria pôr-nos em estado de alerta, ilusões satânicas falsas não deveriam enganar os filhos de Deus, por outro lado. O diabo odeia tanto Cristo quanto a santidade, e não iremos ver Cristo honrado ou a santidade promovida onde ele controla a situação.

Em segundo lugar, uma grande parte destas experiências é psicológicaE óbvio que, em certo sentido, todas as nossas experiências são psicológicas. 
No entanto, o que eu quero dizer é que algumas experiências que consideramos espirituais, na verdade são psicológicas, porque se originam em nossa psique humana, e não no Espírito de Deus. Isto certamente vale para parte do chamado "falar em línguas". Não posso precisar o volume delas. Porém, formas de "glossolalia", fala involuntária além do controle da mente consciente, são bem conhecidas em círculos hindus, muçulmanos e mórmons, bem como em algumas condições clínicas, e este fenômeno não parece ser diferente do que muitos cristãos praticam hoje. 
No entanto, isto não deveria nos preocupar demais. Atribuir algo à psique humana não é a mesma coisa que atribuí-lo ao diabo, O que é "psicológico" pode ser moral e espiritualmente neutro. É muito mais importante perguntar se glorifica a Cristo e promove justiça.

Em terceiro lugar, algumas outras experiências do nosso tempo parecem realmente ser experiências de conversão. 
Quando ouvimos falar de cristãos nominais, liberais ou católicos que dizem ter sido "batizados com o Espírito", muitas vezes suspeitamos que eles estão na verdade descrevendo o que costumava ser chamado de "experiência evangélica", isto é, a sua conversão. Neste caso, a sua descrição do que lhes aconteceu é mais bíblica do que muitos possam pensar!
Tendo mencionado estas três explicações, quero agora concentrar-me em experiências que não parecem ser nem demoníacas nem puramente psicológicas, e que também, evidentemente, não são experiências de conversão, porque acontecem com cristãos convertidos já há multo tempo. 
Pelo contrário, são autênticas, experiências mais profundas de Deus. 
Sobre estas, sem dúvida a primeira coisa que precisa ser dita é que o Espírito Santo é Deus, o Senhor. Ele é o Espírito divino, o Espírito poderoso, o Espírito livre e soberano. Não devemos querer limitar sua atuação; na verdade, mesmo se quiséssemos fazê-lo, não conseguiríamos. Devo insistir que, de acordo com o Novo Testamento, a norma de Deus é um "batismo" inicial com o Espírito, seguido por uma apropriação contínua e crescente da sua plenitude, que inclui um crescimento contínuo em santidade e em direção à maturidade cristã; apesar disto deve ser acrescentado que, dentro deste processo de crescimento, podem haver muitas experiências mais profundas, e que, às vezes, o Espírito atua de maneira ainda mais fora do comum. Ao escrever sobre estas experiências subsequentes, quero enfatizar primeiro seu caráter variado, depois sua importância secundária e, por último, o fato de que elas são sempre incompletas.

Primeiro, portanto, sua variedade. 
Sob este título eu incluo que experiências iguais ou semelhantes podem ser repetidas. Se atentarmos cuidadosamente para o ensino do Novo Testamento observaremos que pode ser resumido como "um batismo, muitos enchimentos". Um novo preenchimento pode preceder uma nova responsabilidade, e ser concedido para nos equipar para um trabalho novo e exigente. Ou ele pode seguir um período de desobediência, declínio ou sequidão, quando o pecador arrependido de repente se vê elevado a um novo plano de percepção espiritual e vivência.
Até certo ponto estas experiências irão variar de acordo com o nosso temperamento. O Espírito Santo nos respeita como indivíduos e não suprime com uma nova criação o que já somos por nascimento. Ele trabalha dentro de nós com meios adequados a nós, fazendo-nos livres para sermos nós mesmos, conforme o potencial pleno com que fomos criados. Nosso temperamento básico não muda, e esta é uma das principais razões para a ampla variedade das experiências espirituais. Não iremos e nem podemos esperar que tipos chamados "fleumáticos" ou "coléricos" ou extrovertidos e introvertidos (usando aqui a teoria e tese dos temperamentos), experimentem Cristo da mesma maneira.
Entretanto, todos os cristãos podem esperar experiências novas de Deus. Deus não gosta de coisas antiquadas ou estagnadas. Ele pede que cantemos um cântico novo, porque Ele quer que nosso conhecimento acerca dEle seja novo; ele também promete que Suas misericórdias "renovam-se cada manhã" (Sal. 40:3; 98:1; Lam. 3:23). 
Às vezes, o testemunho interior do Espírito Santo, assegurando-nos que somos realmente filhos de Deus, é confirmado de maneira poderosa e maravilhosa, libertando-nos completamente de escuridão e dúvidas. Às vezes, ele inunda nosso coração como uma onda tão imponente do seu amor que quase lhe pedimos que detenha sua mão para não sermos afogados por ela. Às vezes, nosso coração "arde" quando Cristo nos abre as Escrituras, e nós O vemos nas Escrituras como ainda não o tínhamos visto antes (Luc. 24:27,32). Às vezes, experimentamos uma aceleração do nosso pulso espiritual, um bater do coração, uma intensificação do nosso amor por Deus e pelas pessoas, uma sensação penetrante de paz e bem-estar. Às vezes, na reverência digna do culto público, ou na comunhão espontânea de uma reunião numa casa, ou durante a Ceia do Senhor, ou durante a oração pessoal, de repente uma realidade invisível toma conta de nós. O tempo pára. Entramos em uma nova dimensão da eternidade. Ficamos em silêncio e conhecemos que Deus é Deus. Calmos aos seus pés e o adoramos.
Já quando tentamos descrever o que é indescritível vimos que todos os integrantes da Trindade estão envolvidos. A experiência do cristão é experimentar Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Na verdade não existe uma "experiência do Espírito Santo", da qual Pai e Filho estão excluídos. Seja como for, o Espírito Santo é um Espírito discreto. Ele não chama, intencionalmente, a atenção para Si mesmo. Ele prefere nos levar a orar "Aba, Pai!", dando, assim, testemunho do relacionamento de filhos com Deus (Rom. 8:15,16; Gál. 4.6). 
E, acima de tudo, ele glorifica Cristo. Ele dirige os fachos poderosos dos seus holofotes para o rosto de Jesus Cristo. Não existe momento em que Ele esteja mais contente do que quando o crente se concentra em Jesus Cristo. Foi no contexto da vinda do Espírito que Jesus disse:
"Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele." (João 14:21).
Quem ama Jesus realmente, provando seu amor com obediência, não pode imaginar recompensa maior que esta manifestação prometida do seu Amado pelo Espírito. Isto traz o que Pedro chama de "alegria indizível e cheia de Glória" (1 Ped. 1:8).
Estas experiências das quais eu falei até agora podem ser chamadas de "comuns", porém e ao mesmo tempo, "especiais" (paradoxo proposital), porque se relacionam com a certeza, o amor, a alegria, e a paz que, de acordo com a Escritura, são comuns a todos os crentes, em alguma medida. Eu ficaria surpreso se algum leitor cristão desse artigo não tivesse nenhuma noção delas. 
Todavia, existem outras experiências, às quais preciso chegar agora, de caráter mais "incomum", ou ainda "mais especiais" por não serem parte da experiência normal do cristão que o Novo Testamento apresenta. Pode acontecer que o Espírito Santo conceda ao crente o que concedeu ao apóstolo Paulo, "visões e revelações do Senhor", de uma maneira tal que Paulo diz ter sido "arrebatado até o terceiro céu" e ouviu "palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir" (2 Cor. 12:1-4). Em outras ocasiões, especialmente em tempos de reavivamento, crentes dizem ter tido experiências e visitações de Deus bastante extraordinárias.
Algumas vezes, um evangelista ou pregador cristão recebe acesso maravilhoso ou poder sobrenatural para o ministério especial para o qual Deus o chamou. Provavelmente já lemos destas experiências nas biografias de grandes homens de Deus como John Wesley e George Whitefield, Jonathan Edwards e David Brainerd, D, L. Moody e outros. Com terminologia bíblica, diríamos que estes homens foram "ungidos" com o Espírito Santo (ressalto, "com terminologia bíblica").
Apenas explicando melhor com relação a terminologia, devemos ter cuidado em usar esta palavra, porque, em certo sentido, todos os cristãos foram "ungidos" com o Espírito Santo, ou receberam a "unção" do Espírito (2 Cor. 1:21, 1 João 2:20,27). Mesmo assim, a Escritura também usa estes termos para situações especiais como quando Jesus aplicou a si mesmo as palavras de Isa. 61:1, no início do Seu ministério público, dizendo: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar..." (Luc. 4:18). Talvez também devamos entender neste sentido o que aconteceu a Saulo de Tarso quando Ananias o visitou. Ele deveria ficar "cheio do Espírito Santo" (Atos 9:17), para ser "testemunha" de Cristo a todas as pessoas, acerca do que vira e ouvira (22:15; veja também 26:16-18). Esta foi sua nomeação e unção como apóstolo.
A esta altura precisamos notar a grande variedade de tais experiências. Não tenho a intenção de duvidar ou questionar sua validade. O que preocupa é o estereótipo fixo que algumas pessoas zelosas tentam impor a todos, insistindo em um chamado "batismo do Espírito", subseqüente à conversão, que deve assumir uma certa forma e ser acompanhado por certos sinais. É isto que eu me sinto obrigado a rejeitar como incompatível com a Escritura.
Entretanto, não substituamos um estereótipo por outro! 
Tudo o que podemos dizer é que a vida cristã começa com um novo nascimento, que pode acontecer de muitas maneiras diferentes, mas sempre inclui o "dom" ou "batismo" do Espírito, e que é seguido de crescimento em maturidade, um processo que pode incluir uma grande variedade de experiências mais profundas.

Do caráter variado destas experiências, passo para um comentário da sua importância secundária. 
Elas podem ser profundamente comoventes, até empolgantes. Mas não é possível que qualquer uma delas se compare em importância com a primeira obra da Graça de Deus, quando ele teve misericórdia para conosco e nos reconciliou com ele. Alguns cristãos falam com exagero das suas experiências posteriores, como se antes estivessem aprisionados e agora livres: "antes tudo era aguado, agora a água se transformou em vinho".
A verdade é que eles devem estar confundindo sentimentos subjetivos com realidades objetivas. Quando nos unimos a Cristo pela fé, acontece algo tão tremendo que o Novo Testamento não encontra palavras adequadas para descrevê-lo. É um novo nascimento, sim, mas também é uma nova criação, uma ressurreição, luz no meio das trevas, vida que sai da morte. Éramos escravos, agora somos filhos. Estávamos perdidos, agora voltamos para casa. Estávamos condenados e destinados à ira de Deus, agora fomos justificados e adotados em Sua família. Que experiência posterior é possível comparar com esta em grau de importância? Ao descrevermos experiências posteriores, devemos ter cuidado em não desvalorizar nossa regeneração ou desprezar a primeira, decisiva e criadora obra do amor de Deus.

Minha terceira observação sobre as experiências subsequentes é que elas são incompletas. 
Algumas pessoas falam das suas próprias experiências dando a impressão de que nada lhes tinha acontecido antes, e que nada mais poderia lhes acontecer depois! Elas dão a impressão de que chegaram onde é possível chegar. Foi esta presunção dos coríntios que Paulo descreveu com sarcasmo tão mordaz:
"Vocês já têm tudo o que precisam! Já são ricos! Vocês já se tornaram reis, e nós, não! Que bom se vocês fossem reis de verdade, para que nós pudéssemos reinar junto com vocês!" (1 Cor. 4:8, BLH).
Eles se comportavam como se estivessem gozando seu pequeno milênio particular! Acontece que o mesmo Novo Testamento, que fala em termos tão contundentes do que Deus fez por nós em Cristo, insiste em nos lembrar que apenas estamos começando a entrar na posse da nossa herança. Ainda iremos passar fome e sede durante esta vida, sabendo que somente na próxima não estaremos mais famintos nem sedentos. Por esta razão encontramos no Novo Testamento, lado a lado, expressões de afirmação e de anseio, de satisfação e de insatisfação. Por um lado "alegramo-nos", por outro "gememos" (p. ex., Rom. 8:23, 2 Cor. 5:2). É verdade que a alegria é parte do fruto do Espírito, mas também existe tristeza para o cristão.
Alguns cristãos falam e se apresentam como se estivessem pensando que devessem trazer no rosto um sorriso permanente! Em conteste, lemos sobre o santo do Antigo Testamento, que disse: "Torrentes de água nascem dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei (Sal. 119:136), ou do próprio Senhor Jesus, que chorou porque a cidade de Jerusalém não queria se arrepender (Luc. 19:4l), ou do seu apóstolo Paulo que, em certas ocasiões, pôde escrever somente "chorando" (p. ex., Filip. 3:18). Às vezes, desejo poder ver mais lágrimas de cristãos hoje; desejo que existam mais cristãos sensíveis, profundamente perturbados com a contínua pecaminosidade do mundo, da Igreja e do próprio coração, e chorando por isso. Somente na consumação Deus irá enxugar tocas as lágrimas dos nossos olhos (Apoc. 21:4).

Uma  Exortação
 Para concluir esta terceira parte, tomo a liberdade de pronunciar uma exortação prática e pessoal, primeiro aos que não dizem ter tido manifestações excepcionais do Espírito Santo; depois aos que dizem que as tiveram, e, por último, a todos nós, quaisquer que tenham sido as nossas experiências.
Primeiro, quero dirigir-me àqueles que, apesar de podermos ter tido muitas experiências profundas do tipo mais "comum", talvez não tenham vivido qualquer experiência mais incomum com o Espírito Santo. Para nós seria fácil, por causa de medo, orgulho ou inveja, questionar ou mesmo negar a validade de experiências que outros dizem ter. Porém, seria um erro agir assim, somente porque outros dizem ter tido estas experiências e nós não as tivemos. Sem dúvida devemos "julgar todas as coisas" e, especialmente, "provar os espíritos" (1 Tess. 5:21; 1 João 4:1). Também podemos achar sábio abster-nos de julgar, em alguns casos.
Ao mesmo tempo, desde que na experiência não haja nada contrário à Escritura, e desde que os frutos da experiência pareçam ser benéficos para o crente e edificantes para a Igreja, humildemente devemos estar dispostos a reconhecer a atuação incomum do Espírito Santo em outras pessoas.
Todos nós, nestes dias em que o Espírito Santo parece estar ativo, precisamos ser sensíveis ao que ele pode estar dizendo e fazendo entre nós. Temos de tomar muito cuidado para não blasfemarmos contra o Espírito Santo, atribuindo sua obra ao diabo, e também para não entristecer o Espírito, tentando enquadrá-lo em nossos próprios padrões tradicionais e seguros. Por outro lado, também não devemos apresentar um descontentamento pecaminoso com sua atuação mais comum em nós. Experiências fora do comum não são necessárias para a maturidade cristã. Devemos nos alegrar no que conhecemos do Espírito Santo como mestre e testemunha, e no amor, na alegria, na paz e no poder que ele nos conferiu.
Em segundo lugar, quero dirigir uma palavra aos que receberam uma visitação incomum do Espírito. Sem dúvida, vocês estão agradecendo a Deus pela grandiosa Graça que Ele lhes concedeu. Entretanto, lembrem-se que o Espírito Santo é um Espírito soberano. Ele distribui os diferentes dons espirituais "Como lhe apraz" (1 Cor. 12:11) e, da mesma forma, exerce seu ministério incomum também de acordo com Sua vontade. É compreensível que você queira dar testemunho do que Deus fez por você. Mas peço-lhe que não procure estereotipar a experiência espiritual de todos ou, mesmo, imaginar que o Espírito Santo necessariamente pretende dar aos outros o que deu a você. São as graças espirituais que devem ser comuns a todos os cristãos, não os dons ou as experiências espirituais. Em outras palavras, deixe que sua experiência leve você a louvar e adorar; mas faça com que sua exortação aos outros seja baseada, não em suas experiências, mas na Escritura.
Para ser mais específico, quero apelar a você que não exija dos outros um "batismo do Espírito" como uma segunda experiência subseqüente, totalmente distinta da conversão, porque isto não pode ser provado na Escritura. Em vez disto, por favor insista em que todos tenhamos o que a Escritura espera de nós, realmente: que não entristeçamos ou apaguemos o Espírito Santo (Efés. 4:30, 1 Tess. 5:19), mas que andemos no Espírito e sejamos preenchidos pelo Espírito (Gál. 5:16, Efés. 5:18). Insista nestas coisas, e lhe seremos gratos.
Por último, quero fazer uma exortação a nós todos, seja qual for nossa condição espiritual. Busquemos constantemente ser cheios do Espírito, ser guiados pelo Espírito, andar no Espírito. Será que não podemos concordar nisto com alegria, de maneira que não haja divisões entre nós? Além disto podemos concordar que a principal condição para receber a plenitude é estar com fome. A Escritura diz que Deus enche a boca dos famintos com coisas boas e despede os ricos vazios. Ele diz: "Abre bem a tua boca, e ta encherei" (Sal. 81:10).
Isto não quer dizer que nesta vida haverá um momento em que estaremos tão cheios que não teremos mais fome. É claro que Deus, em Cristo, através do Espírito, satisfaz nossa fome e mata nossa sede, mas, afinal, está escrito que somente na outra vida "jamais terão fome, nunca mais terão Sede" (Apoc. 7:16). Nesta vida nossa fonte é satisfeita somente para se manifestar de novo. Jesus disse: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça" (Mat. 5:6), deixando implícito que ter fome e sede de justiça é tanto um estado permanente do cristão quanto ser "pobre de espírito", "manso" ou "misericordioso".

Portanto, nem os que tiveram experiências incomuns, nem os que não as tiveram, devem crer que já "chegaram lá", e que Deus não pode enchê-los anda más de Si mesmo! Todos nós precisamos ouvir e atender o convite gracioso de Jesus: "Se alguém tem Sede, venha a mim e beba". Precisamos aprender a continuar indo a Jesus e continuar bebendo. Somente assim, na linguagem sábia e equilibrada do Livro Comum de Oração, podemos "diariamente crescer sempre mais no Espírito, até entrarmos no Reino eterno de Deus".
Que assim seja.

Pr. Magdiel G Anselmo.

*Em breve a quarta parte da série: "Questões acerca do batismo com Espírito Santo", abordando agora o seguinte aspecto: "A diferença entre batismo e plenitude do Espírito". Aguarde.

Bibliografia pesquisada:

Brown, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 
Hodge, C. A Commentary on the Epistle to the Ephesians, (Banner of Truth, Londres, 1964)
Gruden, Wayne. Manual de Teologia Sistemática. Ed. Vida. 
Mounce, William D. Fundamentos do Grego Bíblico.
Novo Comentário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Novo Dicionário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. (pgs.59-69). Ed. Vida Nova.
Sproul, R. C. Eleitos de Deus. Ed. Cultura Cristã.
Bíblia em várias versões.




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" segunda parte.


O “batismo com Espírito Santo” é para todos os cristãos ou somente para alguns?

Essa postagem é a segunda parte do artigo da série "Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" que iniciei com o intuito de aprofundar o entendimento sobre esse tema. Dessa forma e nesse sentido, trabalharei mais profundamente, como o título mostra, o seguinte aspecto: "A benção do “batismo com Espírito Santo” é para todos ou somente para alguns?" 
Para partir da concórdia entre todos nós em minha argumentação, inicialmente penso que todos os cristãos aceitarão que a vida cristã é vida no Espírito. Todos os cristãos concordam nisso com alegria. Sena impossível ser cristão, sem falar em viver e crescer como cristão, sem o ministério do gracioso Espírito de Deus. Tudo o que temos e somos como cristãos devemos a Ele.
Assim, cada cristão tem uma experiência do Espírito Santo desde os primeiros momentos da sua vida cristã. Para o cristão, a vida começa com um novo nascimento, e o novo nascimento é um nascimento "no Espírito" (João 3:3-8). Ele é o "Espírito da vida", e é Ele quem dá vida às nossas almas mortas. Mais que isto, Ele vem pessoalmente morar em nós, de maneira que a presença do Espírito é o privilégio que todos os filhos de Deus têm em comum.
Será que Deus nos faz seus filhos e depois nos dá seu Espírito, ou será que Ele nos dá primeiro seu "Espírito de adoção", que nos torna seus filhos? Podemos responder que Paulo diz as duas coisas. Por um lado, "porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho" (Gál. 4:6). Por outro lado, "todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção" (Rom. 8:14-15). Não importa como você encara a questão: o resultado é o mesmo. Todos os que têm o Espírito de Deus são filhos de Deus, e todos os que são filhos de Deus têm o Espírito de Deus. É impossível, até inconcebível, ter o Espírito sem ser filho, ou ser filho sem ter o Espírito. 
Além disso, uma das primeiras obras do Espírito que mora em nós, e, graças a Deus, sempre repetida, é assegurar-nos que somos filhos, especialmente quando oramos. Quando "clamamos: Aba, Pai!", o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus" (Rom. 8:15,16; veja Gál. 4:6). Ele também inundou nosso coração com o amor de Deus (Rom. 5:5). Paulo resume o assunto ao dizer que "se alguém não tem o Espírito de Cristo, este tal não é Dele" (Rom. 8.9; veja Judas 19).
Toda esta passagem em Rom. 8 é muito importante, porque demonstra que, no entender de Paulo, estar "em Cristo" e "no Espírito", ter "Cristo em vós" e "o Espírito em vós" são todas expressões sinônimas. Ninguém pode ter Cristo, portanto, sem ter o Espírito. O próprio Jesus deixou isto claro em seu discurso no Cenáculo, quando não fez distinção entre a "vinda" a nós das três pessoas da Trindade. Ele disse "eu virei", "nós viremos" (o Pai e o Filho) e "o Consolador virá" (João 14:18-23; 16:7-8).
Depois que ele vem a nós, passando a residir em nós, tornando nosso corpo seu templo (1 Cor. 6:19,20), começa sua obra de santificação. Em poucas palavras, seu ministério implica tanto em revelar-nos Cristo como em formar Cristo era nós, de maneira que cresçamos firmemente em nosso conhecimento de Cristo e em nossa semelhança com ele (veja, p. ex., Efés. 1:17; Gál. 4:19; 2 Cor. 3:18). Pelo poder do Espírito que habita em nós os desejos maliciosos da nossa natureza decaída são controlados e o bom fruto do caráter cristão é produzido (Gál. 5:16-25). 
Da mesma forma, o Espírito não é uma propriedade particular, que ministra somente aos cristãos individualmente; ele também une todos no Corpo de Cristo, a Igreja, de maneira que a comunhão cristã é "a comunhão do Espírito Santo", e o culto cristão é adoração no ou pelo Espírito Santo (p. ex., Filipenses 2:1; 3:3). Também é Ele que chega a outros através de nós, levando-nos a testemunhar de Cristo, e equipando-nos com dons para o serviço para o qual Ele nos convoca. Além disso, Ele é chamado de "o penhor da nossa herança" (Efés. 1:13,14), porque sua presença dentro de nós é tanto a garantia de que iremos ao céu quanto o antegozo dele. Por fim, no último dia sua atividade será a de ressuscitar nossos corpos mortais (Rom. 8:11).
Esta visão de relance de algumas das principais atividades do Espírito Santo na experiência do cristão deve bastar para mostrar que, do começo ao fim da nossa vida cristã, somos dependentes da obra do Espírito Santo – o Espírito, nas palavras de Pauto, "que nos foi outorgado (dado)" (Rom. 5:5). Eu creio nisto, e espero que todos os cristãos concordem comigo.
Todavia, será que este "dom" do Espírito prometido é a mesma coisa que o "batismo" do Espírito Santo? É neste ponto que as convicções diferem. Alguns dizem "sim"; outros, "não". Os que dizem "não", crêem que "dom" e "batismo" são diferentes, passam a ensinar que o "batismo" é uma segunda experiência, subseqüente, mesmo se, pelo menos em termos ideais, ela segue a primeira muito de perto. Por outro lado, para os que crêem que ambos são idênticos, e que ser "batizado" com o Espírito é uma figura vívida para ter "recebido" o Espírito, o "batismo" é algo que todos os cristãos tiveram. Esta é a minha convicção, e em seguida explicarei o que entendo ser a base bíblica para esta posição.
Não estamos fazendo um jogo de palavras superficial, como poderia parecer. Pelo contrário, nossa posição terá um impacto considerável sobre a compreensão da nossa peregrinação cristã pessoal e sobre nosso aconselhamento de outras pessoas. Por isso, precisamos estudar algumas passagens bíblicas importantes, porque tratam desta questão. Antes, no entanto, precisamos visualizar o cenário do nosso debate.
Ao estudarmos a Bíblia, sempre é essencial que interpretemos um texto em seu contexto, e, quanto mais amplo for o contexto, mais correta provavelmente será nossa interpretação. O contexto mais amplo possível é a Bíblia toda. Cremos que toda a Bíblia é a Palavra escrita de Deus. Por isso, já que Deus não se contradiz, concluímos que a Bíblia é uma revelação divina harmoniosa. Nunca devemos "expor uma passagem da Escritura de uma maneira que seja repugnante a outra" (Vigésimo artigo dos 39 artigos da Igreja da Inglaterra). Antes devemos interpretar cada trecho bíblico à luz de toda a Escritura.
Ao aplicarmos este princípio à nossa pesquisa do que é o "batismo do Espírito", perceberemos antes de tudo que a expressão é exclusiva do Novo Testamento (onde ocorre sete vezes), mas que, mesmo assim, é o cumprimento de uma expectativa do Antigo Testamento. Esta expectativa geralmente era expressa em termos da promessa de Deus de "derramar seu Espírito, sendo que o apóstolo Pedro, em seu sermão no dia de Pentecostes, igualou especificamente o "derramamento" do Espírito (prometido por Joel) ao "batismo" do Espírito (prometido por João Batista e Jesus). As duas expressões estavam se referindo ao mesmo evento e à mesma experiência.
O que desejo então é confirmar e constatar biblicamente que o derramamento ou batismo do Espírito não é somente uma bênção diferente, especial, para esta nova era (por não ter estado disponível antes), mas também é uma bênção universal (por ser agora direito recebido por todos os filhos de Deus). Trabalharei a seguir as evidências que confirmam essa verdade bíblica.

a) A primeira é a profecia de Joel e como Pedro a entendeu. 
A ênfase na promessa de Deus através de Joel está na universalidade do dom do Espírito. Veja os termos em que Pedro a citou: "E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne" (Atos 2:17). Isto não pode estar se referindo a "toda a carne", seja qual for sua disposição interior de receber o dom, seu arrependimento e sua fé; refere-se a "toda a carne", independente de sua posição ou privilégios exteriores. Indica que não haverá distinção de sexo ou idade, dignidade ou raça no recebimento deste dom divino, porque tanto filhos como filhas, jovens ou idosos, servos ou servas, e mesmo "todos os que ainda estão longe" (v. 39) o que se refere aos gentios, irão recebê-lo. Ainda mais: independente de idade, sexo, raça e classe social, o dom inclui todos os que se arrependem e crêem.
No tempo do Antigo Testamento, apesar de todos os crentes serem realmente regenerados, o Espírito Santo vinha sobre pessoas especiais para ministérios especiais em épocas especiais. Ele ainda capacita pessoas especiais para tarefas especiais. Porém, agora este ministério é mais amplo e profundo do que jamais foi em tempos do Antigo Testamento. Então, qual é a diferença entre o ministério do Espírito nos dias do Antigo Testamento e os nossos dias?
Em primeiro lugar, todos os crentes, de todas as raças, participam agora da bênção do Espírito. Em segundo lugar, apesar de os crentes do Antigo Testamento terem conhecido a Deus e experimentado um novo nascimento, a presença do Espírito, morando agora nos crentes, é algo que eles nunca presenciaram, e que faz parte da nova aliança e do reino de Deus, profetizado tanto pelos profetas corno pelo Senhor Jesus (Jer. 31:33, Ezeq. 36:26, 27; João 14:16, 17; Rom. 14:17), Em terceiro lugar, a obra diferente do Espírito Santo se relaciona essencialmente com Jesus Cristo. Vimos acima que ele, em seu ministério de santificação, revela Cristo aos crentes e forma Cristo nos crentes, e isto, pela natureza do assunto, ele não poderia ter feito antes que Cristo viesse (veja João 16:14; Gál. 4:19; Efés. 3:16, 17).

Pedro entendeu que a profecia de Joel prometia este dom ou batismo do Espírito a todos os crentes; isto parece claro da conclusão do seu grande sermão (Atos 2:38, 39), onde ele aplica a passagem aos seus ouvintes: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros (para nós também) é a promessa (que nós herdamos, veja v. 33) para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar". Esta última sentença é uma afirmação muito clara e impressionante. Quer dizer que a promessa do "dom" ou "batismo" do Espírito é para tantos quantos o Senhor nosso Deus chamar. A promessa de Deus está ligada à vocação de Deus. Todos os que acatam o chamado de Deus herdam a promessa divina.

b) O  Dia  de  Pentecostes
E foi assim que aconteceu! Dos que ouviram a Palavra naquele dia, três mil Se arrependeram, creram e foram batizados com água. Não é dito especificamente que eles receberam a remissão dos seus pecados e o dom do Espírito, mas temos fortes razões para crer que isto aconteceu. Não se trata de um argumento fraco baseado no silêncio. Ele está baseado na promessa inequívoca do apóstolo Pedro de que eles receberiam estes dons se se arrependessem, cressem e fossem batizados. Sabemos que todos os três mil foram batizados (v. 41) depois de ter "aceitado a Palavra" (com fé penitente). Uma vez que eles preencheram os requisitos, Deus deve ter cumprido sua promessa. Isto leva à conclusão de que, de acordo com o segundo capítulo de Atos, dois diferentes grupos de pessoas receberam o "batismo" ou "dom" do Espírito no dia de Pentecostes – os 120 do início do capítulo e os 3.000 do fim.
Parece que os 3.000 não experimentaram os mesmos fenômenos miraculosos (o vento impetuoso, as línguas de fogo, a comunicação em línguas estranhas). Pelo menos não lemos nada sobre isto no relato, Porém, devido à promessa de Deus através de Pedro, eles devem ter herdado a mesma garantia e recebido o mesmo dom (versículos 33 e 39). Mesmo assim, havia uma diferença entre os dois grupos: os 120 já estavam regenerados, e receberam o batismo do Espírito somente depois de esperar em Deus durante dez dias. Os 3.000, por sua vez, eram descrentes, e receberam o perdão dos seus pecados e o dom do Espírito ao mesmo tempo – imediatamente após terem se arrependido e crido, sem precisarem esperar nem um instante.
Esta distinção entre os dois grupos, os 120 e os 3.000, é de grande relevância, porque a norma parra hoje, sem dúvida, deve ser o segundo grupo, os 3.000, e não o primeiro (como muitos pensam). A experiência dos 120 ocorreu em dois estágios diferentes, simplesmente em razão de circunstâncias históricas. Eles não poderiam ter recebido o dom pentecostal antes do Pentecostes. Todavia, estas circunstâncias históricas há muito deixaram de existir. Nós vivemos depois dos acontecimentos de Pentecostes, como os 3.000. Portanto, nós, como eles, recebemos o perdão dos pecados e o "dom" ou "batismo" do Espírito ao mesmo tempo.
Isto não quer dizer que tudo o que está relacionado com o segundo grupo no dia de Pentecostes é normativo para a experiência cristã hoje. Creio que todos concordarão em que a conversão de 3.000 pessoas como resultado de um único sermão é um tanto excepcional; certamente não é a expectativa média de um evangelista no mundo moderno ou pós-moderno!
A verdade é que o Dia de Pentecostes teve pelo menos dois significados, e muitos fazem confusão hoje em dia porque não entendem a distinção entre eles. Em primeiro lugar, este evento foi o último da atividade salvadora de Jesus: o derramamento do Espírito prometido há tanto tempo, subseqüente à sua morte, ressurreição e ascensão. Neste sentido, este dia deu início à nova era messiânica, a era do Espírito. Ele é singular em si, assim como a morte do Salvador não pode ser repetida, nem sua ressurreição e ascensão, que o precedem. Suas bênçãos, no entanto, existem para todos os que pertencem a Cristo. Desde aquele dia, todos os cristãos, sem exceção, tornaram-se participantes desta nova era e receberam os dons do perdão e do Espírito, que Cristo nos tornou acessíveis através de sua morte, ressurreição, ascensão e derramamento do Espírito. Neste sentido os que se converteram no dia de Pentecostes, em resultado à pregação de Pedro são exemplos para todos os crentes subsequentes.
Porém o dia de Pentecostes tinha ainda um outro significado, mais inesperado, Ele foi o cumprimento não só da expectativa geral do Antigo Testamento da vinda do Espírito, mas também das promessas especiais de Jesus no Cenáculo, ditas primeiramente aos apóstolos, e cujo cumprimento haveria de capacitá-los para seu trabalho apostólico especial, de mestres inspirados e autorizados.
O Pentecostes pode também ter um terceiro significado. É correto considerá-lo o primeiro "reavivamento", a primeira vez que o Espírito manifestou seu poder em medida tão abundante que um grupo tão grande, de 3.000, foi, ao mesmo tempo, convencido dos seus pecados, renascido e admitido na comunidade cristã. Reavivamentos ou manifestações incomuns do poder do Espírito Santo como este, continuaram existindo na história da Igreja cristã de tempos em tempos. Mas não podem ser considerados como norma.
Normativa, isto sim, foi a experiência prometida especificamente na conclusão de Pedro, a todos a quem Deus chama e que respondem com fé penitente; a saber, que eles receberiam o perdão e o Espírito Santo. Estes dois dons foram e ainda são dados e recebidos ao mesmo tempo. Não há intervalo entre eles, como houve no caso dos 120 (por causa da razão histórica excepcional explicada acima).
Alguns leitores poderão levantar imediatamente a objeção de que os 120 não foram os únicos, já que a experiência de alguns crentes samaritanos e de alguns discípulos de João Batista, registrada mais adiante em Atos (8:5-17 e 19:1-7) também ocorreu em duas etapas. Em seguida nos deteremos um pouco nestas passagens. Antes disso, é preciso repetir que a doutrina do Espírito Santo não pode ser deduzida de passagens puramente descritivas em Atos. É impossível construir uma doutrina consistente a partir delas, porque elas não são consistentes. Não se pode nem deduzir uma doutrina do Espírito Santo da descrição do dia de Pentecostes; minhas tentativas acima são deduções das interpretações do evento que Pedro faz em seu sermão. Além disso, um dos princípios fundamentais da interpretação da Bíblia (hermenêutica bíblica) é começar com o geral, nunca com o especial. A pergunta crucial a fazer é: qual é o ensino geral dos autores do Novo Testamento sobre o recebimento do Espírito Santo? Depois estaremos em condições de analisar, à luz deste ensino geral, os dois desvios aparentes desta norma e as passagens narrativas de Atos.
Então, o que os apóstolos ensinaram sobre quando e como uma pessoa recebe o Espírito? Podemos dar uma resposta clara e definida a esta pergunta. Já vimos o que Pedro ensinou. Verificamos que Paulo ensinou consistentemente a mesma coisa. Ele insistiu em que nós "recebemos o Espírito" não como resultado de boas obras de obediência, que podemos ter feito, mas "pela pregação da fé" (Gál. 3:2), ou seja, "porque ouviram e creram nas Boas-Notícias do Evangelho" (BLH). Ele o diz de maneira mais simples ainda: "... a fim de que recebêssemos pela fé o Espírito prometido" (Gál. 3:14). O contexto deixa claro que esta "fé" não é um segundo ato de fé, depois da conversão, mas fé Salvadora, a fé que responde ao Evangelho e recebe a Cristo. 

c) Os  Crentes  Samaritanos
Depois de entendermos o ensino geral claro de Jesus e seus apóstolos, de que o dom ou batismo do Espírito Santo é uma bênção universal, o bem comum de todos os filhos de Deus, estamos prontos para voltar às duas passagens de Atos onde encontramos pessoas que parece terem-se tornado crentes sem terem recebido o Espírito Santo. Se as estudarmos com cuidado, perceberemos que há nas duas situações algo incomum, algo irregular.
A primeira passagem é Atos 8:5-17. O evangelista Filipe pregou o evangelho em Samaria, e muitos creram e foram batizados. Dificilmente pode haver dúvidas de que eles eram crentes cristãos genuínos; não há nenhuma indicação de que sua resposta tenha sido insuficiente. A única exceção é o mago Simão, de quem se diz que "abraçou a fé" (v.13), mas cuja profissão de fé mais tarde provou-se espúria (vv. 20-23). O primeiro sinal de que há algo de incomum neste incidente é que, "ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João" (v. 14). Por quê? Não há evidências de que em outras ocasiões o trabalho evangelístico teve de ser inspecionado ou interditado por dois apóstolos. No fim do mesmo capítulo, por exemplo (vv. 26-40), o mesmo Filipe pregou o Evangelho a um funcionário público etíope e o batizou quando este creu. Todavia, não foi enviado nenhum apóstolo para investigar ou impor-lhe as mãos. Então, que explicação há para este procedimento excepcional de uma delegação apostólica?
A resposta mais provável não é que esta foi a primeira vez que o Evangelho tinha sido pregado fora de Jerusalém (vv.1,4), mas que estes convertidos eram samaritanos. Certamente está nisto a importância da história no relato de Lucas sobre o desenrolar da missão cristã. Ele está descrevendo como a ordem pré-pentecostal de Jesus está se cumprindo: "Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra" (1:8). A decisão de Filipe de proclamar Cristo aos samaritanos (8:5) foi uma atitude mulo corajosa. Durante séculos houve uma rivalidade ferrenha entre judeus e samaritanos, e ainda no tempo de Jesus "os judeus não se davam com os samaritanos (João 4:9). Agora um judeu tinha pregado a samaritanos e, ainda por cima, samaritanos tinham aceito a mensagem do judeu!
O que iria acontecer? O momento era empolgante, e também perigoso. Será que Filipe estivera certo em dar este passo? Será que os samaritanos realmente poderiam ter abraçado o Evangelho? E o que era ainda mais importante, será que os crentes judeus iriam aceitá-los? Ou será que a velha divisão entre judeus e samaritanos continuaria existindo na Igreja, causando uma separação desastrosa entre cristãos judeus e cristãos samaritanos? Não é razoável supor que foi precisamente para evitar o surgimento de uma situação destas que Deus reteve intencionalmente o dom do Espírito dos crentes samaritanos (ou, pelo menos, a evidência externa do dom) até que dois dos principais apóstolos viessem investigar, reconhecer e confirmar, com imposição de mãos, a veracidade da conversão dos samaritanos? Nenhuma outra explicação da história dos samaritanos: a) harmoniza-a com o ensino geral dos apóstolos, do qual ela é um desvio, e b) ao mesmo tempo a situa em seu contexto histórico.
Sendo o incidente de Samaria tão obviamente anormal, é difícil entender porque a maioria dos cristãos pentecostais e alguns carismáticos podem considerá-lo como uma norma da experiência espiritual de hoje, ou seja, que o Espírito Santo é concedido depois da conversão. Da mesma forma, é difícil justificar o ponto de vista "católico" de que o Espírito é transmitido somente com a imposição de mãos apostólicas (que, para eles, são as mãos de bispos considerados "de sucessão apostólica"). Será que não está claro no restante no Novo Testamento que tanto a ocasião como os meios do dom aos samaritanos foram atípicos? Se isto é assim, então nem a experiência em dois estágios nem a imposição de mãos é a norma para receber o Espírito nos dias de hoje.
Alguns carismáticos aceitam este argumento sobre a norma, mas voltam com uma contraproposta. 
Considerando que a experiência dos samaritanos foi anormal, dizem eles, será que esta anormalidade não poderia ser repetida hoje? Eu creio que nossa resposta a esta pergunta será determinada por nossa compreensão das razões para a anormalidade de Samaria. Se pudesse ser provado que o fato de eles não terem recebido logo o Espírito foi devido à sua má compreensão do Evangelho ou sua aceitação falha dele, então talvez alguém pudesse argumentar que uma resposta falha hoje poderia resultar em um início igualmente falho. Porém eu não creio que se possa provar isto. Pelo menos não há nada no relato de Lucas que sugira, ou que Filipe não ensinou de forma correta, ou que os samaritanos não creram de modo próprio, de maneira que os apóstolos tiveram de complementar o ensino de Filipe ou aperfeiçoar a compreensão dos samaritanos.
Pelo contrário, o que levou os apóstolos até Samaria foi exatamente a notícia de que estas pessoas "tinham recebido a Palavra de Deus" (v. 14). Não parece ter havido nada falho na Palavra de Deus que eles ouviram nem na resposta que lhe deram. Em vez disto, como foi dito acima, a razão pela qual o Espírito não lhes foi dado parece estar na situação histórica. E, já que esta situação histórica foi única e não pode ser repetida (o cisma judaico-samaritano foi tragado há muito pela missão cristã universal), não consigo ver como a maneira anormal pela qual os samaritanos receberam o Espírito pode ser encarada hoje como precedente. 

d) Os  Discípulos  em  Éfeso
O segundo incidente incomum está descrito era Atos 19:1-7. Paulo iniciara a terceira das suas famosas viagens missionárias e chegou em Éfeso. Ali ele encontrou uma dúzia de homens que, a julgar pela descrição que Lucas faz deles, nem parecem ter sido cristãos. É verdade que eles são chamados de "discípulos" (v. 1), mas isto não precisa significar mais do que discípulos professos, assim como se diz do mago Simão que ele "abraçou a fé" (8:13), apesar do contexto mostrar que ele só tinha dito crer.
Comentando uma outra passagem da Escritura, Charles Hodge, o erudito de Princeton, do século passado, escreveu: "A Escritura sempre fala das pessoas de acordo com o que elas afirmam de si; com isso chama de crentes os que dizem crer, e de cristãos os que confessam Cristo". (C. Hodge, A Commentary on the Epistle to the Ephesians, 1856 (Banner of Truth, Londres, 1964), p. 124). 
Paulo perguntou àqueles homens em Éfeso se tinham recebido o Espírito quando "creram" (v. 2). Isto mostra pelo menos que ele sabia que eles diziam serem crentes. Mas também dá a impressão de que, por alguma razão, ele duvidava da veracidade da sua fé, senão de forma alguma teria feito a pergunta. Já vimos que ele é consistente era ensinar que o Espírito é concedido aos que crêem. Como então, ele poderia ter feito esta pergunta, a não ser que algo o fizesse suspeitar de que a vida cristã deles não era real, bem como sua profissão de fé?
Os acontecimentos mostraram que sua suspeita tinha fundamento. Podemos verificar as seguintes constatações: a) Em resposta à sua pergunta se eles tinham recebido o Espírito, não disseram um simples "sim" ou "não", nem mesmo um "não sei" admirado, mas "nem mesmo ouvimos que existe Espírito Santo" (v. 2); b) Então Pauto imediatamente perguntou-lhes sobre seu batismo (v. 3), porque o batismo na água é em nome da Trindade (Mat. 28:19) e, como veremos, dramatiza, representa o batismo no Espírito. Seu raciocínio era simples: como poderia ter-lhes sido ministrado o batismo cristão, se eles nunca tinham ouvido falar no Espírito Santo? Ele estava correto. Eles não tinham sido balizados; c) O batismo que eles tinham recebido era o de João Batista, provavelmente em resultado do ensino incompleto, de Apolo, que havia visitado Éfeso recentemente (18.24-26).
Então, o que Pauto fez? Ele não procedeu a algum ensino mais elevado ou completo; ele votou completamente ao princípio, à essência do Evangelho. Ele lhes explicou que aquele que viria, em quem João Batista dissera que cressem, na verdade era Jesus (v.4); d) Depois, Paulo os batizou "em o nome do Senhor Jesus" e lhes impôs as mãos, conseqüência de que "veio sobre eles o Espírito Santo", acompanhado de sinais (línguas e profecia), como evidência visível e audível.
Atualmente alguns mestres usam esta história para basear seu ponto de vista de que na experiência cristã normal o dom ou batismo do Espírito é uma segunda experiência, subseqüente, depois da conversão. Entretanto, a história na verdade não pode ser usada neste sentido. Naturalmente não estou negando que estes homens receberam o Espírito quando Paulo os batizou e lhes impôs as mãos. A pergunta é: será que eles eram cristãos antes disto? Vimos que, em certo sentido, eles diziam ser "discípulos".
Mas quem afirmaria seriamente que pessoas que nunca ouviram falar do Espírito Santo, nem foram batizadas no nome de Jesus, nem mesmo aparentemente criam em Jesus, são discípulos cristãos verdadeiros? Certamente ninguém. Se eles eram discípulos de alguém, então o eram de Apolo e João Batista. Não eram cristãos claramente convertido. Com certeza, eles não podem ser considerados cristãos típicos nos dias de hoje.
Outros expositores chamam a atenção para a seqüência de eventos: fé em Jesus, batismo em nome de Jesus, imposição de mãos por Paulo, vinda do Espírito Santo. Estes enfatizam que o Espírito veio sobre os efésios, não só depois de terem crido, mas também depois de terem sido batizados e recebido a imposição de mãos. Realmente foi assim; mas eu, pessoalmente, não creio que a ordem tem muita importância. Para mim, o que realmente importa é que todos os quatro elementos estão unidos e não podem ser separados. Eles eram partes distintas de uma única iniciação em Cristo, feita com batismo e imposição de mãos (exteriormente), e com a fé e o dom do Espírito (interiormente). 

Conclusão
Pode-se em meu entender, após a análise feita, honestamente afirmar, constatar e confirmar até aqui que, (e esse entendimento não pode ser diminuído pelos casos excepcionais de Atos 8 e 19), o dom ou batismo do Espírito Santo é uma experiência cristã universal e inicial. Todos os cristãos recebem o dom e são batizados no Espírito no momento em que começam as suas vidas cristãs.
É inevitável chegar a conclusão pelo exame bíblico, que não existem cristãos especiais e cristãos não tão especiais assim. Não existem cristãos de primeira e cristãos de segunda classe. Todos são igualmente abençoados e assim tratados por Deus. O nível de santificação pode e sem dúvida, difere de um para outro, mas não com relação ao dom e batismo do Espírito, pois aqui não se trata do processo de santificação, mas especificamente da adoção, justificação e filiação exclusivas da nova aliança em Cristo, ou seja, são partes integrantes da conversão, salvação de um pecador perdido em um pecador salvo por Cristo segundo os ensinamentos neo-testamentários. Esse é o entendimento que sem dúvida, chegamos.
Na próxima postagem e terceira parte do artigo estarei expondo outro aspecto interessante: "Experiências pessoais e especiais com o Espírito Santo devem ser consideradas como padrão para todos os demais cristãos?". Aguarde. Deus os abençoe.

Bibliografia pesquisada:

Brown, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 
Hodge, C. A Commentary on the Epistle to the Ephesians, (Banner of Truth, Londres, 1964)
Gruden, Wayne. Manual de Teologia Sistemática. Ed. Vida. 
Mounce, William D. Fundamentos do Grego Bíblico.
Novo Comentário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Novo Dicionário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. (pgs. 15-25). Ed. Vida Nova.
Sproul, R. C. Eleitos de Deus. Ed. Cultura Cristã.
Bíblia em várias versões.

Pr. Magdiel G Anselmo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" Primeira parte.


Análise do termo “batismo”, seu significado e sentido.

Antes de iniciar, ressalto que a motivação e intenção dessa série que aqui inicio não são, de forma alguma, julgar ou condenar essa ou aquela denominação evangélica, linha teológica ou experiências pessoais que cristãos tenham com o Espírito Santo. Não tenho a pretensão de convencer com meus argumentos (nem tenho poder para isso) os que discordarão de minhas conclusões acerca desse tema tão rico, interessante, entretanto, tão usado para dividir e diminuir a força e a atuação da Igreja nesse mundo. Não desejo me juntar aos que nos dividem, fique bem claro isso.
Como estudante e estudioso da Palavra de Deus, minha intenção e motivação são na direção de uma maior reflexão bíblica e consequentemente, de uma análise honesta e criteriosa de nossas convicções e pressuposições pessoais, sempre visando a edificação e o aperfeiçoamento cristãos.
Portanto, caro leitor, ao ler o artigo, mesmo que não concorde, reflita sobre o que estiver lendo fazendo um exame cuidadoso de suas pressuposições confrontando com esses meus argumentos. É um ótimo exercício. Feito isso, meu objetivo foi alcançado. O mais já não é de minha atribuição ou ação, mas sim do Espírito que ilumina nosso entendimento acerca das coisas de Deus. Deus o abençoe caro amigo e leitor, nesse trabalho abençoador.
Vamos então ao artigo.
Para iniciarmos a análise das questões que envolvem a crença na experiência cristã denominada de “batismo com ou no Espírito Santo”[1], precisamos inicialmente analisar a terminologia usada, e se está coerente ou aponta e direciona para a crença ou sentido crido e propagado, ou seja, se é possível à luz dessa terminologia e etimologia, a possibilidade de uma relação com a experiência do "batismo com Espírito" como uma segunda benção para os cristãos.
Entende-se de uma forma geral na cristandade que o dom do Espírito Santo é uma experiência cristã universal, por ser uma experiência cristã inicial. Todos os cristãos recebem o Espírito no momento em que começam as suas vidas cristãs. Aqui não encontramos maiores discussões ou divergências, pelo menos, aqui isso não é possível do ponto de vista bíblico.
Esta verdade também é confirmada pelo uso da expressão "batismo do Espírito" (aqui inicia-se a controvérsia) no Novo Testamento como equivalente a "dom do Espírito", ou, antes, o verbo (já que a expressão sempre é verbal) "batizar" ou "ser batizado" com o Espírito Santo. Acato as duas como sendo a mesma experiência. 
E por que assim o faço?
Ora, inicialmente porque o próprio conceito de "batismo" é de iniciação. O batismo na água é o ritual público da iniciação em Cristo. Ele representa visivelmente tanto o lavar dos pecados (Atos 22:16) quanto a concessão do Espírito. Veja Atos 2:38, onde os dois aspectos da salvação são relacionados com o batismo. Ele é o símbolo de que o batismo do Espírito é a realidade. Deve ter sido por isto que a reação imediata de Pedro, quando Cornélio foi batizado com o Espírito, foi dizer: "Porventura pode alguém recusar a água, para que não sejam balizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?" (Atos 10:47; 11:16). Se eles tinham recebido a realidade, quem poderia recusar-lhes o sinal? Isto também explica a segunda pergunta aos "discípulos" em Éfeso. Quando estes lhe disseram que nunca tinham ouvido falar do Espírito Santo, ele imediatamente lhes perguntou em que tinham sido batizados. Os dois apóstolos ligaram claramente os dois batismos.
Além disso, não pode haver dúvida de que o batismo com o Espírito recebido por Cornélio foi sua iniciação em Cristo, sua conversão. Um anjo de Deus havia-lhe dito que mandasse chamar Simão Pedro, que lhe anunciaria uma mensagem através da qual ele e sua casa seriam "salvos" (Atos 11:14). Pedro pregou-lhe o Evangelho, terminando com a promessa do perdão dos pecados pelo nome de Jesus (10:43). Depois que Cornélio e os de sua casa creram (15:7) e foram balizados, tanto com o Espírito como com água, é dito que eles "receberam a Palavra de Deus" (11:1), enquanto (eram duas passagens significativas) afirma-se que Deus lhes "concedeu o arrependimento para vida" (11:18) e "purificou-lhes pela fé os corações" (15:9).
Este conceito da natureza inicial do dom do Espírito, como é indicado pelo termo "batismo" e ilustrado pela conversão de Cornélio, está completamente em sintonia com o ensino geral dos apóstolos (o que confirmarei mais detalhadamente nas próximas postagens).
Estar "no Espírito" (o que, na maneira de Pauto se expressar, é a mesma coisa que estar "em Cristo") – são todas descrições de qualquer crente cristão, por mais novo na fé que ele possa ser, verdadeiramente desde o primeiro momento da sua nova vida (Rom. 8:9, Gál. 5:25, Rom. 8:14). Os escritores do Novo Testamento sempre pressupõem que Deus "deu" Seu Espírito Santo aos seus leitores (p. ex., Rom. 5:5, 1 Tess. 4:8; 1 João 3:24; 4:13); não existe uma única passagem na qual eles os exortam a recebê-lo.

1 Coríntios 12:13

Uma outra confirmação de que "ser balizado com o Espírito" é o início, vem de uma comparação dos sete versículos em que esta expressão ocorre, especialmente de um estudo da única passagem fora dos Evangelhos e de Atos.
As primeiras quatro ocasiões em que a expressão é usada são as passagens paralelas onde João Batista descreve profeticamente o ministério do Senhor Jesus: "Ele vos balizará com o Espírito Santo" (Mat. 3:11; Mar. 1:8; Luc. 3:16, João 1:33). A quinta é a citação que nosso Senhor faz da profecia de João, em que ele a aplica ao Pentecostes: "Vós sereis balizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias" (Atos 1:5). A sexta é a referência de Pedro à citação que Deus faz da profecia de João, onde ele a aplica à conversão de Cornélio, sobre a qual estivemos falando há pouco. Ele relata aos apóstolos em Jerusalém e a outras pessoas: "Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis balizados com o Espírito Santo" (Atos 11:16).
A sétima – e última – ocorrência da expressão está em 1 Cor. 12:13. Paulo escreve: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito". Isto não parece ser uma simples referência ao dia de Pentecostes, pois nem Pauto nem os coríntios estiveram lá para participar pessoalmente do acontecimento. Mesmo assim, tanto ele como os coríntios puderam participar da bênção que este evento tomou possível. Eles tinham recebido o Espírito Santo, ou, antes, usando sua própria terminologia, tinham sido "batizados" com o Espírito Santo e foi-lhes dado beber" do Espírito Santo.
O que imediatamente desperta atenção neste versículo é a repetição enfática da palavra "todos" ("todos nós fomos balizados", "a todos nós foi dado beber") e da palavra "um" ("em um só Espírito", "em um corpo", "de um só Espírito"), uma contrastada com a outra, intencionalmente. Isto está em harmonia com o contexto. Em 1 Cor. 12 o apóstolo está enfatizando, no começo do capítulo, a unidade do Espírito, o doador dos dons espirituais, antes de desenvolver, na segunda parte do capítulo, a diversidade dos dons em si. Ele está sublinhando que, como cristãos, temos uma experiência do Espírito Santo igual para todos. Esta é a diferença entre "o dom do Espírito" (que significa o próprio Espírito) e "os dons do Espírito" (que significa os dons espirituais que ele distribui).
Na primeira parte do capítulo, ele fala (literalmente) três vezes de "um Espírito" (9b, 13a e b), três vezes do "mesmo Espírito" (4, 8 e 9a), e uma vez de "um e o mesmo Espírito" (11). Aí está sua ênfase. O clímax está no versículo 13: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos balizados em um corpo... e a todos nós foi dado beber de um só Espírito". Assim, o batismo do Espírito neste versículo, longe de ser um fator diferenciador (alguns o têm, outros não), é um grande fator unificador (uma experiência que todos tivemos). Ele é, na verdade, o meio de entrada no Corpo de Cristo. E a menção que Paulo faz de judeus e gregos, escravos e livres pode bem ser uma alusão a "toda a carne" de Joel, não importando raça ou posição. A unidade do Corpo surge da unidade do Espírito, e é exatamente isto que Paulo deixa implícito em Efésios 4:4: "Há somente um corpo e um Espírito". Portanto, é difícil resistir à conclusão de que o batismo do Espírito não é uma segunda experiência, subseqüente, que alguns cristãos têm, mas é a experiência inicial que todos têm.
Algumas pessoas, todavia, não aceitam esta conclusão, e fazem uma distinção exegética sutil. Elas concordam que os primeiros seis versículos se referem a um batismo por Jesus Cristo em ou com o Espírito Santo, mas argumentam que o sétimo versículo (1 Cor. 12:13) refere-se a um batismo pelo Espírito Santo no Corpo de Cristo, sendo, portanto, algo bem diferente. Dizem: "Sem dúvida o Espírito Santo batizou a todos nós no Corpo de Cristo, mas isto não prova que Jesus batizou a todos com o Espírito Santo".
Para mim isto é um exemplo de defesa do indefensável. A expressão grega é exatamente a mesma em todas as sete ocorrências (2), e, por isso, deve-se entender que ela se refere à mesma experiência de batismo em todos os versículos, a priori, num princípio sadio de interpretação. O peso da evidência está com os que negam isto. A interpretação natural é que Paulo está fazendo eco às palavras de João Batista, como Jesus e Pedro o fizeram antes (Atos 1:5; 11:16). Não é natural dizer que Jesus é o Batizador em seis passagens e o Espírito o Batizador na sétima. Eu creio que não podemos concordar com a tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje em 1 Cor. 12:13: "Fomos batizados num só corpo pelo mesmo Espírito..."
A preposição grega neste versículo é en, da mesma forma como nos outros seis, ocorre ela é traduzida por "com"; por que deveria ser traduzida de modo diferente aqui? Se é porque as palavras en heni pneumati ("em um só Espírito"; BLH "pelo mesmo Espírito") estão no início da frase, a razão disto certamente é que Paulo está destacando a unidade do Espírito do qual participamos, e não que o Espírito é o Batizador.
Deixe-me ampliar um pouco mais e deixar ainda mais interessante este ponto.
Em cada tipo de batismo (de água, sangue, fogo, Espírito, etc.) há quatro elementos. Os dois primeiros são o sujeito e objeto, ou seja, o batizador e o batizado. Em terceiro lugar, há o elemento com ou em (en) que o batismo é realizado, e, em quarto lugar, o propósito (eis). Como exemplo, vejamos a passagem pelo Mar Vermelho, que o apóstolo Paulo descreve como um rito de batismo (1 Cor. 10:1,2). É presumível que o próprio Deus tenha sido o batizador. Sem dúvida, os israelitas em fuga foram os balizados. O elemento pelo qual o batismo foi administrado foi água ou borrifo da nuvem e do mar, e o propósito é indicado pela expressão "com respeito a Moisés" (eis significa "para dentro"), ou seja, foram unidos a ele, o líder que Deus lhes dera.
No batismo de João, o sujeito foi João Batista, e os objetos foram as pessoas de "Jerusalém, toda a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão" (Mat. 3:5). O batismo realizou-se em (en) águas do rio Jordão, e foi para (eis) arrependimento (Mat. 3:11) e, portanto, para remissão de pecados (Mar. 1:4; Luc. 3:3).
O batismo cristão é semelhante. O ministro batiza o crente professo com ou em (en) água. O batismo é para consagração (eis) ao nome da Trindade (Mat. 28:19), que considero mais correto, ou especificamente ao nome do Senhor Jesus (Atos 8:16; 19:5), isto é, do Cristo crucificado e ressurreto (Rom. 6:3,4). 
Nestes exemplos podemos ver que, em cada tipo de batismo, há, além do sujeito e objeto, tanto um en como um eis, isto é, um elemento com que ou em que, e outro para que o batismo é administrado.
O batismo do Espírito não é exceção.
Se reunirmos as sete referências a este batismo, descobriremos que Jesus é o batizador, como João Batista tinha predito claramente. De acordo com 1 Cor. 12:13 os batizados somos "todos nós". O próprio Espírito Santo é o "elemento" com que ou em que (en)(3) o batismo é realizado (isto se pudermos descrever a terceira pessoa da Trindade nestes termos; a analogia entre o batismo com água e o batismo com o Espírito parece torná-lo legítimo). E o propósito deste batismo é a incorporação "em um corpo (en)", que é o corpo de Cristo, a Igreja.
É verdade que, destes quatro aspectos do batismo, o único explicitamente comum a todos os sete versículos é que este batismo é "com (ou em; en) o Espírito". Todos os versículos mencionam o "elemento", mas nem todos especificam o sujeito, o objeto ou o propósito do batismo. Isto, todavia, não deveria nos surpreender, já que as mesmas omissões ocorrem com as referências ao batismo de água no Novo Testamento. Às vezes se argumenta que, em 1 Cor. 12:13, o Espírito Santo deve ser o batizador, pois, de outra forma, o batismo não teria sujeito. Porém em Atos 1:5 e 11:16 também não se especifica o batizador. Nestes versículos não temos dificuldades para subentender Jesus como o batizador; por que não faríamos a mesma coisa em 1 Cor. 12:13?
A razão pela qual Cristo não é mencionado especificamente como batizador nestes três versículos não está muito distante. Acontece que nos quatro Evangelhos o verbo está na voz ativa e Cristo é o sujeito ("Ele vos batizará"; "Este é o que batiza"), porém nos outros três versículos o verbo está na voz passiva, do qual o sujeito são os batizados ("sereis batizados"; "fomos batizados"). O verbo na voz ativa contrasta os dois batizadores, João e Jesus. Com os verbos na voz passiva, no entanto, a identidade do batizador passa a segundo plano, sendo que a ênfase recai sobre as pessoas privilegiadas que recebem o batismo, ou sobre o único Espírito com o qual elas são batizadas. Por isso eu reafirmo que em 1 Cor. 12:13 Jesus Cristo deve ser considerado o batizador, mesmo que ele não seja identificado.
O argumento se apóia em parte sobre os seis outros versículos em que a expressão ocorre, e em parte sobre a impossibilidade da alternativa. Se 1 Cor. 12:13 fosse diferente, e o próprio Espírito Santo fosse o batizador, o que seria o "elemento" com que ele batiza? O fato de não existir resposta para esta pergunta parece suficiente para derrubar esta interpretação, já que a metáfora do batismo requer necessariamente um "elemento"; senão o batismo não seria batismo. Por esta razão, o "elemento" no batismo de 1 Cor. 12:13 precisa ser o Espírito Santo e (sendo consistentes com os outros versículos) precisamos subentender Jesus Cristo como o batizador. De modo análogo, no fim do versículo, é do Espírito Santo que bebemos e (de acordo com João 7:37.) é o próprio Jesus quem nos "dá de beber" dele.
Depois de constatarmos que 1 Cor. 12:13 refere-se a Cristo batizando com o Espírito e fazendo-nos beber do Espírito, precisamos observar em seguida que "todos nós" participamos deste batismo e deste beber. Ser batizado e beber são claramente expressões equivalentes. Todos os cristãos experimentam as duas coisas. Além disto, o tempo aoristo dos dois verbos ("fomos batizados", "foi dado a beber") deve ser compreendido não só como uma alusão ao acontecimento do Pentecostes, mas também à sua bênção que todos os cristãos recebem pessoalmente quando de Sua conversão.

Conclusão

Portanto, a evidência que me esforcei em reunir do Novo Testamento, indica que o "batismo" do Espírito é idêntico ao "dom" do Espírito, que é uma das bênçãos diferentes da nova aliança e, também, uma bênção universal para os membros da aliança, por ser uma bênção inicial. Ela é uma parte e um quinhão da nova época. O Senhor Jesus, mediador da nova aliança e fiador das suas bênçãos, concede o perdão dos pecados a o dom do Espírito a todos os que fazem esta aliança. O batismo de água, por sua vez, é o símbolo e o selo do batismo com o Espírito, assim como o é do perdão dos pecados. O batismo de água é o ritual cristão de iniciação porque o batismo com o Espírito é a experiência cristã de iniciação. Assim, pois, sejam quais forem as experiências posteriores à conversão (das quais abordarei mais adiante em outra postagem dessa série), "batismo com o Espírito" não pode ser expressão correta para elas.
O objetivo de Deus é que todas as pessoas recebam as bênçãos da nova aliança, como o perdão dos pecados e o dom do Espírito, e depois passem pelo batismo de água, como símbolo e selo destas bênçãos. Depois, elas devem continuar sendo cheias do Espírito, manifestando esta plenitude com santidade de vida e ousadia de testemunho (aqui vê-se a importância do Fruto do Espírito e do processo de santificação). A Carta aos Hebreus descreve todos os cristãos como "participantes do Espírito Santo", que "provaram...os poderes do mundo vindouro" (6:4, 5). Toda a vida cristã, de acordo com o Novo Testamento, é vida no Espírito que vem após o nascimento no Espírito.
Além disto, a ênfase indiscutível das cartas no Novo Testamento não é no sentido de impor aos leitores cristãos alguma bênção totalmente nova e diferente, mas sim de lembrar-nos do que somos pela graça, conscientizar-nos disto, e incentivar-nos a viver através disto. Este é um fato muito importante, que não é entendido suficientemente. Parece que o horizonte de alguns cristãos está limitado a uma segunda experiência, subseqüente, que chamam de "batismo no Espírito".
Ao conversar com eles, se eles crêem que você já o experimentou, este é o seu ponto de referência no passado, e o principal elo de união entre vocês. Se, por outro lado, eles crêem que você ainda não o experimentou, então é isto que eles lhe desejam, e é o único ponto de referência no futuro. Então, quer estejam olhando para o passado, quer para o futuro, é o "batismo do Espírito", como segunda experiência, que preenche o seu horizonte.
Todavia, respeitosamente, o que eu tenho a dizer, realmente sem nenhum receio de ser contrariado, é que esta nunca foi a perspectiva dos escritores do Novo Testamento. Estes, quando olham para o passado, estão relembrando o grande feito de Deus quando Ele nos pôs em Cristo, nos justificou, redimiu, regenerou e recriou. É para isto que eles apelam constantemente. E quando olham para o futuro, estão apontando para o crescimento em maturidade dos seus leitores e, adiante disto, para a perfeição que espera o surgimento glorioso do Salvador.
Por exemplo: quando o apóstolo João trata, em sua primeira carta, da necessidade de santidade, com que ele a relaciona? Não com um "batismo do Espírito" especial, que seus leitores devem ter tido ou deveriam ter, mas com seu primeiro nascimento de Deus e com sua obrigação de permanecer em Cristo. "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; ... não pode viver pecando, porque é nascido de Deus" (1 João 3:9). E: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado" (5:18).
Qual é a outra expectativa dos apóstolos? Eles esperam de nós uma conduta ética, muitas vezes bastante detalhada. Eles apelam a nós para que vivamos na realidade concreta da vida diária o que Deus já fez por nós em Cristo. Eles nos ordenam que cresçamos na fé, no amor, no conhecimento e na santidade. Eles nos advertem do julgamento e nos desafiam com a esperança da volta do Senhor. Enquanto isto, eles nos pedem que não entristeçamos o Espírito, mas que andemos no Espírito e que "continuemos sendo" cheios do Espírito. Porém nunca, nenhuma vez, eles nos exortam e instruem a "sermos batizados com o Espírito". Só pode haver uma única explicação para isto: eles estão escrevendo para cristãos, e os cristãos já foram batizados com o Espírito Santo.
Não se trata de um simples debate sobre palavras, mas sobre doutrina. A verdade fundamental destacada é que, unindo-nos a Cristo, Deus nos deu tudo. Pela indescritível graça de Deus, já fomos "abençoados com toda sorte de bênção espiritual ... em Cristo" (Efésios 1:3), e é nossa responsabilidade apropriarmo-nos constante e progressivamente destas bênçãos, que já são nossas em Cristo.
De maneira semelhante, já que em Cristo "habita corporalmente toda a plenitude da Divindade" (Col. 2:9) nós "recebemos a vida completa, em união com Ele" (2:10, BLH). Se Deus nos deu o Senhor Jesus Cristo e era sua plenitude, e se Cristo já mora em nós através do seu Espírito, o que mais Deus poderia acrescentar? A própria sugestão de que ainda há um dom adicional a receber não deprecia a plenitude e a suficiência de Jesus?
Crescer em Cristo, sim! Acréscimos além de Cristo, jamais! 
Nós nascemos de Deus, somos seus filhos e herdeiros, morremos e ressuscitamos com Cristo, nossos corpos são o templo do Espírito Santo (1 Cor. 6:19), e esta presença do Espírito em nós é a garantia, na verdade até uma antecipação da nossa herança eterna no céu.
Portanto, os escritores do Novo Testamento não se cansam de lembrar-nos dos nossos privilégios em Cristo, exortando-nos a levar uma vida que seja válida e apropriada. Somos incentivados a ser o que deveríamos ser (puros como ele é puro) por causa do que já somos em Cristo (filhos de Deus) e por causa do que seremos quando Ele voltar (como Ele). Veja 1 João 3:1-3. 


1.   Cristãos pentecostais e carismáticos geralmente falam de "batismo no Espírito" em vez de "batismo com o Espírito". A preposição grega en pode ser traduzida das duas maneiras. A expressão que escolhemos depende da nossa convicção. 
2.   A única diferença é que o Espírito é caracterizado seis vezes como "santo" e no sétimo versículo como "um". 
3.   Os que preferem "batismo no Espírito", provavelmente o fazem porque vêem o Espírito como um elemento no qual somos imersos. Porém, já que a Bíblia diz que as pessoas são "batizadas" com o Espírito Santo quando ele é "derramado" sobre elas, o "batismo com o Espírito" parece ser preferível.

Bibliografia pesquisada:
Brown, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 
Novo Comentário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Novo Dicionário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Ed. Vida Nova.
Sproul, R. C. Eleitos de Deus. Ed. Cultura Cristã.
Mounce, William D. Fundamentos do Grego Bíblico.
Bíblia em várias versões.

ps. A próxima postagem e segunda parte do artigo da série "Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" abordará mais profundamente a análise do ponto: A benção do “batismo com Espírito Santo” é para todos ou somente para alguns?
Aguarde.

Pr. Magdiel G Anselmo.
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