domingo, 2 de fevereiro de 2014

Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" quarta parte.



Prosseguindo com a série, escrevo agora sobre a diferença que há entre batismo e plenitude do Espírito.

Busquei nas três postagens anteriores concentrar-me no significado da expressão "dom" ou "batismo" do Espírito. Tentei resumir a forte evidência bíblica de que ambos são a mesma coisa, e que descrevem uma bênção inicial (recebida no início da vida cristã, na conversão), não subseqüente (recebida algum tempo depois), e que, portanto, é uma bênção universal (concedida a todos os cristãos), não esotérica (secreta, experimentada somente por alguns).
Ressalto, novamente, que ao escrever sobre tais temas não tenho a pretensão de diminuir ou atacar pessoas ou instituições, escrevo baseado em minhas convicções adquiridas pelo estudo e analise bíblicas, entretanto, respeito posições divergentes e diferentes das minhas. E faço isso, porque considero o fundamental da fé cristã como o que nos une. Os pontos advindos dessa essência podem ser divergentes, porém devem concordar no que é fundamental, essencial. 
Por exemplo, posso enfatizar em minha confissão doutrinária a predestinação (soberania divina) e outros, o livre-arbítrio (responsabilidade humana), porém os dois grupos devem concordar que a salvação segue o que nos é revelado em Efésios 2: 8,9, ou seja, pela graça mediante a fé em Cristo, não por obras, mas dom de Deus. Isso é fundamental.  Posso divergir em questões acerca do Espírito Santo (pneumatologia), mas devemos sempre concordar em que o Espírito Santo é uma pessoa e é Deus. Isso é fundamental. E assim por diante em relação a todas as doutrinas bíblicas fundamentais da fé cristã. 
Para alguns leitores mais impacientes ou "radicais", aqui do blog ou de redes sociais onde participo, pode parecer que em algumas situações, minha abordagem é negativa e até inútil, uma posição estéril, pois, aparentemente limita-se a muita teoria e "pouca experiência com Deus". Quem sabe até postagens que não trazem nenhuma perspectiva atraente para a vida cristã ou até prejudicam o crescimento de novos convertidos. Acontece que isto não é verdade.
Penso que o cristão de uma forma geral deve ter contato e ciência acerca das diversas linhas e posições teológicas existentes dentro da Igreja Cristã. Esconder ou tentar fazer com que as pessoas não conheçam o que e como outros irmãos (ressalto aqui "irmãos, ou seja, os que creem e professam as mesmas doutrinas cristãs fundamentais), pensam e creem acerca de temas importantes, no mínimo, demonstra insegurança com relação a própria liderança que exerce e, no máximo, desconhecimento do poder de Deus que nos ilumina para entender as coisas pertinentes ao Seu reino. 
Muitos cristãos mudaram, alteraram e melhor avaliaram posições que antes defendiam por causa de um exame mais cuidadoso da Palavra, fruto, sem dúvida, de uma atitude humilde visando seu crescimento como cristão e líder. Não há aqui nenhum demérito nisso, ao contrário, há aqui um sinal aparente de honestidade, sinceridade e espírito dócil e ensinável (características cristãs). Eu mesmo, no transcorrer de minha trajetória cristã, a medida que estudava a Palavra e convivia com o Deus da Palavra, mudei muito do que pensava quando do início de minha vida cristã e de meu ministério pastoral. Basta dizer que nasci em uma igreja pentecostal, iniciei meu ministério pastoral lá, fui estudar em seminário batista, prossegui em seminário presbiteriano e continuo estudando em universidade presbiteriana ainda hoje... Já pastoreei igrejas pentecostais, tradicionais e fundei, por direção de Deus, juntamente com alguns irmãos a INAC, hoje IPNAC - Igreja Presbiteriana Nova Aliança em Cristo. Em toda essa trajetória sempre estive aberto ao crescimento e aprendizado. Por isso, fico bem a vontade para tratar com questões espirituais como essas que escrevo aqui. Não tenho somente a teoria, o conhecimento bíblico, teológico e histórico, mas também a experiência e vivência necessárias para entender os contextos e ensinos existentes. 
E com humildade e temor a Deus propago o que Deus me iluminou, por obra de Seu Espírito, a crer, entender e viver. 
Dito isso, vamos a questão que analiso nesta postagem da série.

A  Diferença  entre  "Batismo"  e  "Plenitude"

Ao transferirmos nossa atenção agora, do "batismo" para a "plenitude" do Espírito, estamos passando de um dom inicial que Deus deu a todos os seus filhos e que jamais tirará deles, para uma condição que Deus quer que seja contínua, mas que pode não ser constante. Quando falamos do batismo do Espírito estamos nos referindo a uma concessão definitiva; quando falamos da plenitude do Espírito estamos reconhecendo que é preciso apropriar-se contínua e crescentemente deste dom.
Vamos então ao ponto.
Deixe-me procurar expandir o que tentei mostrar antes. O que aconteceu no dia de Pentecostes foi que Jesus "derramou" o Espírito do céu e, assim, "batizou" com o Espírito, primeiro os 120 e depois os três mil. A conseqüência deste batismo do Espírito foi que eles "todos ficaram chãos do Espírito Santo" (Atos 2:4). Portanto, a plenitude do Espírito foi a conseqüência do batismo do Espírito. O batismo é o que Jesus fez (ao derramar Seu Espírito do céu); a plenitude foi o que eles receberam. O batismo foi uma experiência inicial única; a plenitude, Deus queria que fosse contínua, o resultado permanente, a norma.
Como acontecimento inicial, o batismo não pode ser repetido nem pode ser perdido, mas o ato de ser enchido pode ser repetido e, no mínimo, precisa ser conservado. Quando a plenitude não é conservada, ela se perde. Se foi perdida, pode ser recuperada. O Espírito Santo é "entristecido" pelo pecado (Efésios 4:30) e deixa de dominar o pecador. Neste caso o único meio de recuperar a plenitude é o arrependimento. Mesmo em casos em que não há indícios de que a plenitude foi perdida por causa de algum pecado, lemos que algumas pessoas foram novamente preenchidas, mostrando que uma crise ou um desafio diferente requer um novo revestimento de poder do Espírito.
Uma comparação dos diversos textos do Novo Testamento que falam de pessoas que são "enchidas" ou "cheias" do Espírito Santo leva a crer que eles podem ser divididos em três grupos principais. 
Primeiro, fica implícito que ser "cheio" ou "enchido" era uma característica normal de cada cristão dedicado. Por isso, os sete homens que foram escolhidos para cuidar das viúvas na igreja de Jerusalém deveriam ser "cheios do Espírito", assim como deveriam ser "de boa reputação", "cheios de sabedoria" e "cheios de fé" (Atos 6:3,5). Creio que a "sabedoria" e a "fé" poderiam ser consideradas dons espirituais especiais. Porém uma boa reputação dificilmente poderia ser algo fora do comum para os cristãos. Nem, penso eu, o fato de serem cheios do Espírito. 
De maneira semelhante, Barnabé é descrito como um "homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé" (Atos 11:24), e os recém-convertidos discípulos de Antioquia da Pisídia "transbordavam de alegria e do Espírito Santo" (Atos 13:52). Estes versículos parecem descrever o estado normal do cristão, ou, pelo menos, como Deus gostaria que ele fosse.
Em segundo lugar, a expressão indica uma capacitação para um ministério ou cargo especial. Assim, João Batista seria "cheio do Espírito Santo, já do ventre materno", aparentemente como preparo para seu ministério profético (Lucas 1:15-17). Da mesma forma, as palavras de Ananias a Saulo de Tarso, de que ele seria "cheio do Espírito Santo", parecem referir-se à sua indicação como apóstolo (Atos 9:17; veja 22:12-15 e 26:16-23).
Em terceiro lugar, há ocasiões em que a plenitude do Espírito foi concedida para equipar não tanto para um cargo vitalício (como apóstolo ou profeta, por exemplo), mas para uma tarefa imediata, especialmente numa emergência. 
Zacarias foi preenchido antes de profetizar (mesmo seu ofício sendo de sacerdote, não de profeta. Veja também sua esposa Isabel, Luc. 1:5-8, 41, 67). A mesma coisa aconteceu com Pedro, antes de ele falar ao Sinédrio; com o grupo de cristãos em Jerusalém, antes de eles continuarem com seu ministério da Palavra mesmo em face da perseguição emergente; com Estevão, antes de ele ser martirizado; e com Paulo, antes de ele repreender o mágico Elimas. Lemos que todos estes ficaram "cheios do Espírito Santo", provavelmente para capacitá-los a enfrentarem a situação com que se defrontavam (Atos 4:8,31, 7:55, 13:9).
Resta a interessante referência quádrupla de Lucas ao Espírito Santo, no quarto capítulo do seu Evangelho, em conexão com o início do ministério público do nosso Senhor. Ela parece colocar sua experiência da plenitude do Espírito Santo em todos os três grupos. Lemos que ele retornou do Jordão "cheio do Espírito", e é natural concluirmos que este era seu estado espiritual inalterável. Igualmente, a afirmação segue imediatamente seu batismo no qual o Espírito desceu sobre ele (3:22) para "ungi-lo" e equipá-lo para seu ministério como Messias (4:14,18). E já que a história da tentação é iniciada e encerrada com referências ao Espírito Santo (4:1: "Foi guiado pelo Espírito", e 4:14: "no poder do Espírito"), parece que o Senhor foi fortalecido de maneira especial pelo Espírito para esta emergência.
Junto com estas diversas descrições de pessoas cheias com o Espírito, seja como experiência constante, seja com um propósito especial, Efésios 5:18 contém a bem conhecida ordem a todos os cristãos para serem cheios, ou melhor, a estarem sempre sendo enchidos (é um imperativo presente contínuo, na voz passiva) com o Espírito. Mais adiante, estudaremos este texto em maior profundidade.
Não há afirmações ou mandamentos semelhantes no Novo Testamento em relação ao batismo do Espírito. A razão para isto, como já afirmei, é que ele é uma experiência inicial.

Não há nenhum sermão ou carta dos apóstolos que contenha um apelo para que as pessoas se deixem batizar com o Espírito

Na verdade todas as sete referências ao batismo com o Espírito no Novo Testamento estão no indicativo, estejam no aoristo, no presente ou no futuro; nenhuma delas é uma exortação, no imperativo, Porém, o fato de que há estas referências à plenitude do Espírito, descrevendo como alguns cristãos foram novamente preenchidos e ordenando a todos os crentes que se deixem encher sempre de novo, mostra que infelizmente é possível que cristãos, que foram batizados com o Espírito, deixem de ser cheios do Espírito.
Os cristãos de Corinto constituem uma advertência solene para nós neste assunto. 
Na primeira carta que Paulo lhes escreve, transparece que todos eles tenham sido batizados com o Espírito Santo (12:13). Também tinham sido enriquecidos com todos os dons espirituais (1:4-7). Mesmo assim o apóstolo os chama de pessoas não espirituais, ou seja, não cheias do Espírito. Ele deixa claro que a evidência da plenitude do Espírito não é a prática dos seus dons (eles tinham muitos), mas a produção de seu fruto, isso lhes falava. 
Ele escreve que não podia chamá-los de pneumatikoi, cristãos "espirituais", mas somente de sarkinoi ou sarkikoi, cristãos "carnais", quem sabe "bebês" em Cristo. Sua carnalidade ou imaturidade era tanto intelectual como moral. Ela revelava-se em sua compreensão infantil, por um lado, e em sua inveja e competição, por outro (1 Cor. 3:1-4). Eles tinham sido batizados com o Espírito, ricamente dotados pelo Espírito, mas não estavam cheios com o Espírito (pelo menos não na época em que ele os visitou e lhes escreveu).
Você percebe que o apóstolo não faz diferença entre os que receberam o batismo do Espírito e os que não o receberam, mas entre cristãos "espirituais" e cristãos "carnais", ou seja, cristãos cheios do Espírito e cristãos dominados por sua natureza humana. Será que a condição dos cristãos de Corinto não é a mesma de muitos de nós hoje? Não podemos negar que, de acordo com a Escritura, fomos batizados com o Espírito por termos nos arrependido e crido, e nosso batismo de água significou e selou nosso batismo com o Espírito. Mas será que estamos cheios do Espírito? Esta é a questão.
Muitas pessoas não conseguiram responder à esta pergunta. Não sabem nem se são cheias do Espírito, nem como é possível saber. E quando se deparam com o ensino de que o "dom de línguas" é o sinal indispensável de ter recebido o Espírito, concluem que nunca o receberam, ou, pelo menos, não em sua plenitude. 

Entretanto, a partir da Escritura não se pode provar que "línguas" sempre acompanham o recebimento do Espírito. De todos os grupos dos quais se diz em Atos que receberam o Espírito, somente três "falaram em línguas" (2:1-4, 10:44-46, 19:1-6). Dos outros grupos que receberam o Espírito não se diz isto, portanto seria especulação dizer que falaram.

Além disto, o apóstolo ensina categoricamente em 1 Coríntios que o dom de "línguas" é somente um entre muitos dons, que não é concedido a todos os cristãos. Parece que não há bases sólidas para a distinção que algumas pessoas tentaram fazer entre as referências a "línguas" em Atos e em 1 Coríntios 12 e 14, no sentido de que a primeira se refira ao "sinal" de línguas, que todos devem apresentar, e as outras o "dom" de línguas, que somente alguns recebem. Na verdade, alguns líderes de igrejas pentecostais e do movimento carismático estão aceitando agora que "línguas" não são um sinal indispensável do dom do Espírito. 

Então, qual é a evidência da plenitude do Espírito? Como é possível conseguir esta plenitude? Para podermos responder à estas perguntas, vamos primeiro analisar o "mandamento para sermos cheios" do Novo Testamento. 

O  Mandamento  para  Sermos  Cheios
Vamos agora ao mandamento "Enchei-vos do Espírito". Preste atenção a quatro aspectos deste verbo.

Em primeiro lugar, ele está no modo imperativo
"Enchei-vos" não é uma sugestão que pode ser tentada, uma recomendação branda, uma advertência educada. É uma ordem que Cristo nos dá, com toda a autoridade de um dos apóstolos que Ele escolheu. Não temos nem um pouco mais de liberdade para escapar desta obrigação do que temos das obrigações éticas que formam o contexto, isto é, falar a verdade, trabalhar honestamente, ser gentil e perdoar uns aos outros, ou viver em pureza e amor. A plenitude do Espírito Santo não é opcional, mas obrigatória para o cristão.

Em segundo lugar, ele está na forma plural. 
O mesmo ocorre com o verbo anterior, "não vos embriagueis com vinho". Os dois imperativos de Efésios 5:18, tanto a proibição como a ordem, são escritos para toda a comunidade cristã. Eles têm aplicação universal. Nenhum de nós deve embriagar-se; todos devemos ser cheios do Espírito. Enfaticamente, a plenitude do Espírito Santo não é um privilégio reservado para alguns, mas uma obrigação de todos. Assim como a exigência de sobriedade e domínio próprio, a ordem de buscar a plenitude do Espírito é dirigida a todo o povo de Deus, sem exceção.

Em terceiro lugar, o verbo está na voz passiva: "Sede enchidos". 
Uma outra tradução seria: "Deixai-vos encher pelo Espírito". Uma condição importante para gozar da sua plenitude é entregar-se a ele sem reservas. Mesmo assim, não devemos pensar que somos apenas agentes passivos ao recebermos a plenitude do Espírito, assim como quando alguém fica bêbado. Torna-se bêbado bebendo; ficamos cheios do Espírito também bebendo, como no ensino do nosso Senhor em João 7:37.

Em quarto lugar, o verbo está no tempo presente
É bem sabido que, na língua grega, se o imperativo está no aoristo, ele se refere a uma ação única; se está no presente, a uma ação contínua. Assim, quando no casamento em Caná, Jesus disse: "Enchei d'água as talhas" (João 2:7), o imperativo aoristo mostra que ele queria que o fizessem somente uma vez. O imperativo presente "sede enchidos com o Espírito", por sua vez, não indica alguma experiência dramática ou determinante, que resolve o problema para o bem, porém uma apropriação continua.
Isto é reforçado na Carta aos Efésios pelo contraste entre o "selo" e a "plenitude" do Espírito. Duas vezes o apóstolo escreve que seus leitores foram "selados" com o Espírito Santo (Efés. 1:13; 4:30). Os aoristos são idênticos e aplicam-se a todo crente arrependido. Deus o aceitou e colocou nele o selo do Espírito, autenticando-o, marcando-o e garantindo-o como Seu. Todos os crentes são "selados", mas nem todos permanecem "cheios", porque o selo foi colocado uma vez, no passado, enquanto a plenitude é (ou deveria ser) presente e contínua.
Talvez aqui uma ilustração ajude a mostrar que a plenitude de Espírito não deve ser uma experiência estática, mas progressiva. Comparemos duas pessoas. Uma é um bebê, recém-nascido e pesando três quilos, que começou a respirar há pouco. A outra é um homem feito, com 1,80m de altura e 75 quilos de peso. Ambos são aptos e saudáveis; ambos estão respirando normalmente; pode-se dizer dos dois que estão "cheios de ar". Então, qual é a diferença entre eles? A diferença está na capacidade dos seus pulmões. Ambos estão "cheios", porém uns estão mais cheios que os outros porque sua capacidade é muito maior.
O mesmo vale para vida e crescimento espirituais. Quem pode negar que um bebê recém-nascido em Cristo está cheio do Espírito? O corpo de qualquer crente é o templo do Espírito Santo (1 Cor. 6:19); podemos dizer que o Espírito, ao entrar em seu templo, não o preenche? Um cristão maduro e piedoso, perseverando há muitos anos, também está cheio do Espírito. A diferença entre os dois está no que pode ser chamado de seus pulmões espirituais, ou seja, a medida da sua compreensão com fé do propósito que Deus tem para eles.
Isto se torna evidente na primeira oração do apóstolo pelos cristãos de Éfeso. Ele diz:
"Que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito [ou, talvez, "Espírito"] de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos ... "(Efés. 1:17-19).
Esta passagem desenvolve os estágios do crescimento espiritual. Os que "crêem" experimentam a plenitude do poder de Deus. Porém primeiro precisamos "conhecer" sua grandeza, e para isso, carecemos que o Espírito Santo ilumine os olhos dos nossos corações.
Portanto, a seqüência é esta: iluminação, conhecimento, fé, experiência. Conhecemos com a iluminação, e pela fé passamos a gozar o que conhecemos. Nossa experiência de fé, portanto, está amplamente condicionada pelo nosso conhecimento de coração. 
Além disto, quanto mais sabemos, maior se torna nossa capacidade espiritual, bem como nossa responsabilidade de exigir pela fé a nossa herança. Por isso, quando alguém acaba de nascer do Espírito, sua compreensão do plano de Deus para si geralmente é muito limitada, e sua experiência é proporcionalmente limitada. Todavia, à medida que o Espírito Santo ilumina os olhos do seu coração, diante dele abrem-se horizontes com os quais antes ele dificilmente sonhara. Ele começa a ver e compreender a esperança do chamamento de Deus, as riquezas da herança de Deus e a grandiosidade do poder de Deus. Ele é desafiado a abraçar pela fé a plenitude do propósito que Deus tem para ele.
A tragédia é que, muitas vezes, nossa fé não acompanha o ritmo do nosso conhecimento. Nossos olhos são abertos para verem cada vez mais os aspectos maravilhosos do propósito que Deus tem conosco em Cristo, porém nos abstemos de tomar posse dele pela fé. Este é um dos meios de perdermos a plenitude do Espírito, não necessariamente por desobediência, mas por fala de fé. Nossos pulmões se desenvolvem, mas não os usamos. Precisamos estar sempre nos arrependendo da nossa descrença e clamar a Deus para que ele aumente a nossa fé, de maneira que, à medida que nosso conhecimento cresce, nossa fé possa crescer com ele e possamos estar sempre tomando posse de maiores partes da grandeza do propósito e do poder de Deus.

Evidências  da  Plenitude  do  Espírito
Uma segunda passagem do Novo Testamento dá ênfase à evidência da plenitude do Espírito, apesar de também incluir uma ordem de ser cheio, que precisamos estudar com cuidado. 

Quais são as características de uma pessoa cheia do Espírito de Deus hoje? 
Não pode haver dúvidas de que a principal evidência é moral, não miraculosa, e reside no Fruto do Espírito, não nos dons do Espírito. Já tivemos oportunidade de constatar que os coríntios, que tinham sido batizados com o Espírito e ricamente dotados dos dons do Espírito, mesmo assim provaram ser cristãos "não espirituais", porque lhes faltava a qualidade moral do amor (1 Cor. 3:1-4).
Eles se vangloriavam de uma certa plenitude, o que fez Paulo escrever-lhes com um toque de sarcasmo: "Já estais fartos" (cheios, 4:8)! Mas não era a plenitude do Espírito Santo. Se eles estivessem cheios do Espírito, obviamente teriam estado cheios de amor, o primeiro fruto do Espírito. O amor é o poderoso elo de união entre o fruto e os dons do Espírito. Isto não ocorre somente porque sem amor os dons são sem valor (1 Cor. 13), mas também porque o amor requer os dons como equipamento necessário para poder servir outros.
No único trecho em suas cartas onde o apóstolo Paulo descreve as conseqüências da plenitude do Espírito, elas são todas qualidades morais. Esta passagem é Efésios 5:18-21:
"E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo."
No texto grego este trecho tem dois verbos na forma imperativa ("não vos embriagueis com vinho"; "enchei-vos do Espírito"), dos quais dependem quatro verbos que são particípios presentes (literalmente: "falando", "cantando e fazendo melodias", "agradecendo" e "submetendo"). Em outras palavras, a ordem única de ser cheio do Espírito é seguida de quatro conseqüências descritivas da plenitude do Espírito Santo.
A ordem de ser cheio é contrastada diretamente com a outra ordem de não se embriagar. A partir daí, algumas pessoas deduziram rapidamente que embriaguez e a plenitude do Espírito podem ser comparadas. Elas dizem que a plenitude do Espírito é um tipo de ebriedade espiritual; o apóstolo está contrapondo dois estados de embriaguez: física, através do vinho; e espiritual, pela plenitude do Espírito. Não é este o caso. 
É verdade que um bêbado está "sob a influência do álcool" e que, de maneira semelhante, pode-se dizer que um crente cheio do Espírito esteja sob o controle do Espírito. Também é verdade que no dia de Pentecostes, quando o Espírito concedeu aos 120 que falassem publicamente em outras línguas, alguns da multidão comentaram: "Estão embriagados" (Atos 2:13). 
Porém os que disseram isto evidentemente eram uma minoria; eles acharam que os discípulos estivessem bêbados porque não conseguiam entender nenhuma das línguas faladas; a maioria reagiu com surpresa, ao ouvir os galileus falarem de maneira inteligível idiomas nativos da Ásia e da África que a multidão podia entender.
Portanto, é um erro crasso supor que estes primeiros crentes cheios do Espírito estavam em um tipo de transe alcoólico, ou que este estado devesse ser um padrão das experiências da plenitude do Espírito. Paulo tem exatamente o oposto em mente. Há uma implicação clara em Efésios 5:18 de que a embriaguez e a plenitude do Espírito não podem ser comparadas assim, porque a embriaguez é vista como "dissolução" ou "perdição" (BLH). A palavra grega asotia, que em suas duas outras menções no Novo Testamento é traduzida também por "devassidão" (Tito 1:6, 1 Ped. 4:4), literalmente descreve uma situação em que a pessoa não consegue mais "salvar-se" ou controlar-se. Paulo escreve que a embriaguez envolve uma perda de controle, e por isso deve ser evitada. No outro extremo, é dito claramente em Gál. 5:23 que parte do fruto do Espírito é domínio próprio (enkrateia)! As conseqüências da plenitude do Espírito, que o apóstolo passa a descrever, devem se manifestar em um relacionamento inteligente, controlado e saudável com Deus e com as outras pessoas.
É verdade que podemos concordar que tanto na embriaguez como na plenitude do Espírito há duas grandes forças nos influenciando interiormente, o álcool em nossa corrente sanguínea e o Espírito Santo em nosso coração. Todavia, o álcool em excesso conduz a um comportamento incontrolado e irracional, que transforma o bêbado num animal; a plenitude do Espírito, por sua vez, leva a um comportamento moral controlado e racional, que transforma o cristão na imagem de Cristo. Portanto, os resultados de estar sob a influência de emanações alcoólicas, por um lado, e do Espírito Santo de Deus, por outro, são total e completamente diferentes. Um nos transforma em animais, o outro em Cristo.
Agora temos condições para analisar os quatro resultados benéficos, e, com isso, evidências objetivas sólidas, da plenitude do Espírito. Estes resultados tornam-se visíveis no relacionamento. A plenitude do Espírito não é tanto uma experiência mística particular, quanto um relacionamento moral com Deus e as pessoas ao nosso redor.
O primeiro resultado é "falando". 
A tradução "entre vós" não deve ser entendida como se as pessoas cheias do Espírito começassem a falar consigo mesmas, como se sua mente estivesse anuviada! A tradução "uns aos outros" (BLH, BJ) transmite melhor o sentido. Na passagem paralela em Colossenses (3:16) o apóstolo incentiva seus leitores a deixarem a Palavra de Cristo habitar ricamente neles, para que possam "instruir e aconselhar-se mutuamente em toda a sabedoria".
É bastante interessante o fato de que a primeira evidência de ser cheio do Espírito é falarmos uns aos outros. Mas isto não deve nos surpreender, já que o primeiro aspecto do Fruto do Espírito é o amor. Por mais profunda e íntima que nossa comunhão com Deus possa parecer, não podemos dizer que estamos cheios do Espírito se, porventura, não conseguimos falar com algum irmão. O primeiro sinal da plenitude é a comunhão. Mais anda, é comunhão espiritual, porque falamos uns aos outros não com "tagarelice mundana", mas "com salmos, ... hinos e cânticos espirituais".
É óbvio que isto não pode significar que o meio de comunicação normal entre crentes cheios do Espírito seja a música! Antes, significa que a verdadeira comunhão se expressa no culto conjunto. Um bom exemplo é o Ven te (Sal. 95), que os anglicanos cantam muitas vezes no culto público aos domingos pela manhã. Falando especificamente, o Salmo não é de adoração, porque não é dirigido a Deus, mas à congregação: "Vinde, cantemos ao Senhor." Esta é uma ocasião em que pessoas pertencentes a Deus falam umas às outras com um Salmo, incentivando-se mutuamente a adorarem seu Senhor.
Isto nos conduz ao segundo resultado da plenitude do Espírito, que é "cantando e fazendo melodias" para o Senhor. 
O Espírito Santo adora glorificar o Senhor Jesus, manifestando-o ao seu povo de uma maneira em que eles se regozijem em cantar louvores a Ele. Pessoas sem aptidão musical, às vezes, recebem conforto pela versão Revista e Corrigida desta exortação, que é cantar ao Senhor "no vosso coração". Esta terminologia dá a impressão de que seu júbilo pode ser integralmente interior, dirigido somente "aos ouvidos do Senhor". Porém a tradução "de (todo o) coração" provavelmente é mais correta. O coração não é o lugar, mas a maneira como estamos cantando. O apóstolo nos exorta a não ficarmos em silêncio, mas a adorarmos sem preconceitos.
Em terceiro lugar, devemos dar "sempre graças por tudo". 
Muitos cristãos dão graças às vezes, por algumas coisas; crentes cheios do Espírito agradecem sempre, por todas as coisas. Não existe hora nem circunstância pelas quais eles não agradecem. Eles o fazem "em nome de nosso Senhor Jesus Cristo", isto é, porque são um com Cristo, e "a nosso Deus e Pai", porque o Espírito Santo testemunha a seu espírito que eles são filhos de Deus e que seu Pai é integralmente bom e sábio. A murmuração, um dos pecados costumeiros de Israel, é um pecado grave cerque é um sintoma de descrença. Sempre que começarmos a reclamar e a nos queixar, isto é um sinal claro de que não estamos cheios do Espírito. Sempre que o Espírito Santo domina os crentes, eles agradecem ao seu Pai celestial a toda hora, por tudo.
Vimos que os segundo e terceiro sinais da plenitude do Espírito são relacionados a Deus, ou seja, cantando ao Senhor e dando graças ao Pai. O Espírito Santo nos coloca em um relacionamento correto de louvor com o Pai e o Filho. O crente cheio do Espírito não tem dificuldades práticas com a doutrina da Trindade. Os terceiro e quarto sinais, entretanto, têm a ver com nosso relacionamento com as outras pessoas: falando uns aos outros, e agora sujeitando-se uns aos outros.
O apóstolo continua mostrando que a submissão é a obrigação específica de uma esposa diante de seu marido, de filhos diante de seus pais e de empregados diante de seus empregadores, mas ele começa dizendo que ela é a obrigação geral de todos os cristãos uns diante dos outros (o que inclui maridos, pais e empregadores). A submissão humilde é uma parte tão importante do comportamento cristão que o verbo aparece trinta e duas vezes no Novo Testamento. A marca registrada no cristão cheio do Espírito não é a auto-afirmação, mas a auto-submissão.
É verdade que às vezes, quando um princípio teológico ou moral fundamental está em jogo, não podemos ceder. Paulo deu um exemplo destacado desta necessidade de firmeza quando se opôs a Pedro, numa confrontação direta e pública, em Antioquia (Gál. 2:11-14). Porém precisamos sempre tomar cuidado para que nossa firmeza aparente em um principio não seja uma exibição desagradável de orgulho. É sábio desconfiar de nossa indignação justa; geralmente há nela mais que alguns traços de vaidade injusta. O teste está nas últimas palavras da frase: "No temor de Cristo". Nossa obrigação primordial é submissão reverente e humilde ao Senhor Jesus. Devemos nos submeter aos outros somente até ao ponto exato em que nossa submissão a eles implicar em deslealdade a Cristo.
Assim, expusemos os resultados venturosos da plenitude do Espírito. 


As duas principais áreas em que esta plenitude se manifesta são culto e comunhão. Se estamos cheios do Espírito, estaremos louvando a Cristo e agradecendo a nosso Pai, e estaremos falando e submetendo-nos uns aos outros. 

O Espírito Santo nos coloca em um relacionamento correto com Deus e as pessoas. Devemos procurar a principal evidência da plenitude do Espírito Santo nestas qualidades e atividades espirituais, e não em fenômenos sobrenaturais. Esta é a ênfase do apóstolo quando ele trata deste assunto em suas cartas aos efésios e coríntios, bem como quando ele especifica o "Fruto do Espírito" em sua carta aos gálatas. 
Assim sendo, espero ter ajudado na sua compreensão, caro leitor, no entendimento das diferenças entre batismo e plenitude do Espírito.
A próxima postagem, quinta da série estarei concluindo esse artigo.
Aguardem. Deus os abençoe.


Bibliografia pesquisada:

Brown, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 
Hodge, C. A Commentary on the Epistle to the Ephesians, (Banner of Truth, Londres, 1964)
Gruden, Wayne. Manual de Teologia Sistemática. Ed. Vida. 
Mounce, William D. Fundamentos do Grego Bíblico.
Novo Comentário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Novo Dicionário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. (pgs.35-46). Ed. Vida Nova.
Sproul, R. C. Eleitos de Deus. Ed. Cultura Cristã.
Bíblia em várias versões.

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