domingo, 26 de janeiro de 2014

Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" Primeira parte.


Análise do termo “batismo”, seu significado e sentido.

Antes de iniciar, ressalto que a motivação e intenção dessa série que aqui inicio não são, de forma alguma, julgar ou condenar essa ou aquela denominação evangélica, linha teológica ou experiências pessoais que cristãos tenham com o Espírito Santo. Não tenho a pretensão de convencer com meus argumentos (nem tenho poder para isso) os que discordarão de minhas conclusões acerca desse tema tão rico, interessante, entretanto, tão usado para dividir e diminuir a força e a atuação da Igreja nesse mundo. Não desejo me juntar aos que nos dividem, fique bem claro isso.
Como estudante e estudioso da Palavra de Deus, minha intenção e motivação são na direção de uma maior reflexão bíblica e consequentemente, de uma análise honesta e criteriosa de nossas convicções e pressuposições pessoais, sempre visando a edificação e o aperfeiçoamento cristãos.
Portanto, caro leitor, ao ler o artigo, mesmo que não concorde, reflita sobre o que estiver lendo fazendo um exame cuidadoso de suas pressuposições confrontando com esses meus argumentos. É um ótimo exercício. Feito isso, meu objetivo foi alcançado. O mais já não é de minha atribuição ou ação, mas sim do Espírito que ilumina nosso entendimento acerca das coisas de Deus. Deus o abençoe caro amigo e leitor, nesse trabalho abençoador.
Vamos então ao artigo.
Para iniciarmos a análise das questões que envolvem a crença na experiência cristã denominada de “batismo com ou no Espírito Santo”[1], precisamos inicialmente analisar a terminologia usada, e se está coerente ou aponta e direciona para a crença ou sentido crido e propagado, ou seja, se é possível à luz dessa terminologia e etimologia, a possibilidade de uma relação com a experiência do "batismo com Espírito" como uma segunda benção para os cristãos.
Entende-se de uma forma geral na cristandade que o dom do Espírito Santo é uma experiência cristã universal, por ser uma experiência cristã inicial. Todos os cristãos recebem o Espírito no momento em que começam as suas vidas cristãs. Aqui não encontramos maiores discussões ou divergências, pelo menos, aqui isso não é possível do ponto de vista bíblico.
Esta verdade também é confirmada pelo uso da expressão "batismo do Espírito" (aqui inicia-se a controvérsia) no Novo Testamento como equivalente a "dom do Espírito", ou, antes, o verbo (já que a expressão sempre é verbal) "batizar" ou "ser batizado" com o Espírito Santo. Acato as duas como sendo a mesma experiência. 
E por que assim o faço?
Ora, inicialmente porque o próprio conceito de "batismo" é de iniciação. O batismo na água é o ritual público da iniciação em Cristo. Ele representa visivelmente tanto o lavar dos pecados (Atos 22:16) quanto a concessão do Espírito. Veja Atos 2:38, onde os dois aspectos da salvação são relacionados com o batismo. Ele é o símbolo de que o batismo do Espírito é a realidade. Deve ter sido por isto que a reação imediata de Pedro, quando Cornélio foi batizado com o Espírito, foi dizer: "Porventura pode alguém recusar a água, para que não sejam balizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?" (Atos 10:47; 11:16). Se eles tinham recebido a realidade, quem poderia recusar-lhes o sinal? Isto também explica a segunda pergunta aos "discípulos" em Éfeso. Quando estes lhe disseram que nunca tinham ouvido falar do Espírito Santo, ele imediatamente lhes perguntou em que tinham sido batizados. Os dois apóstolos ligaram claramente os dois batismos.
Além disso, não pode haver dúvida de que o batismo com o Espírito recebido por Cornélio foi sua iniciação em Cristo, sua conversão. Um anjo de Deus havia-lhe dito que mandasse chamar Simão Pedro, que lhe anunciaria uma mensagem através da qual ele e sua casa seriam "salvos" (Atos 11:14). Pedro pregou-lhe o Evangelho, terminando com a promessa do perdão dos pecados pelo nome de Jesus (10:43). Depois que Cornélio e os de sua casa creram (15:7) e foram balizados, tanto com o Espírito como com água, é dito que eles "receberam a Palavra de Deus" (11:1), enquanto (eram duas passagens significativas) afirma-se que Deus lhes "concedeu o arrependimento para vida" (11:18) e "purificou-lhes pela fé os corações" (15:9).
Este conceito da natureza inicial do dom do Espírito, como é indicado pelo termo "batismo" e ilustrado pela conversão de Cornélio, está completamente em sintonia com o ensino geral dos apóstolos (o que confirmarei mais detalhadamente nas próximas postagens).
Estar "no Espírito" (o que, na maneira de Pauto se expressar, é a mesma coisa que estar "em Cristo") – são todas descrições de qualquer crente cristão, por mais novo na fé que ele possa ser, verdadeiramente desde o primeiro momento da sua nova vida (Rom. 8:9, Gál. 5:25, Rom. 8:14). Os escritores do Novo Testamento sempre pressupõem que Deus "deu" Seu Espírito Santo aos seus leitores (p. ex., Rom. 5:5, 1 Tess. 4:8; 1 João 3:24; 4:13); não existe uma única passagem na qual eles os exortam a recebê-lo.

1 Coríntios 12:13

Uma outra confirmação de que "ser balizado com o Espírito" é o início, vem de uma comparação dos sete versículos em que esta expressão ocorre, especialmente de um estudo da única passagem fora dos Evangelhos e de Atos.
As primeiras quatro ocasiões em que a expressão é usada são as passagens paralelas onde João Batista descreve profeticamente o ministério do Senhor Jesus: "Ele vos balizará com o Espírito Santo" (Mat. 3:11; Mar. 1:8; Luc. 3:16, João 1:33). A quinta é a citação que nosso Senhor faz da profecia de João, em que ele a aplica ao Pentecostes: "Vós sereis balizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias" (Atos 1:5). A sexta é a referência de Pedro à citação que Deus faz da profecia de João, onde ele a aplica à conversão de Cornélio, sobre a qual estivemos falando há pouco. Ele relata aos apóstolos em Jerusalém e a outras pessoas: "Então me lembrei da palavra do Senhor, como disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis balizados com o Espírito Santo" (Atos 11:16).
A sétima – e última – ocorrência da expressão está em 1 Cor. 12:13. Paulo escreve: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito". Isto não parece ser uma simples referência ao dia de Pentecostes, pois nem Pauto nem os coríntios estiveram lá para participar pessoalmente do acontecimento. Mesmo assim, tanto ele como os coríntios puderam participar da bênção que este evento tomou possível. Eles tinham recebido o Espírito Santo, ou, antes, usando sua própria terminologia, tinham sido "batizados" com o Espírito Santo e foi-lhes dado beber" do Espírito Santo.
O que imediatamente desperta atenção neste versículo é a repetição enfática da palavra "todos" ("todos nós fomos balizados", "a todos nós foi dado beber") e da palavra "um" ("em um só Espírito", "em um corpo", "de um só Espírito"), uma contrastada com a outra, intencionalmente. Isto está em harmonia com o contexto. Em 1 Cor. 12 o apóstolo está enfatizando, no começo do capítulo, a unidade do Espírito, o doador dos dons espirituais, antes de desenvolver, na segunda parte do capítulo, a diversidade dos dons em si. Ele está sublinhando que, como cristãos, temos uma experiência do Espírito Santo igual para todos. Esta é a diferença entre "o dom do Espírito" (que significa o próprio Espírito) e "os dons do Espírito" (que significa os dons espirituais que ele distribui).
Na primeira parte do capítulo, ele fala (literalmente) três vezes de "um Espírito" (9b, 13a e b), três vezes do "mesmo Espírito" (4, 8 e 9a), e uma vez de "um e o mesmo Espírito" (11). Aí está sua ênfase. O clímax está no versículo 13: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos balizados em um corpo... e a todos nós foi dado beber de um só Espírito". Assim, o batismo do Espírito neste versículo, longe de ser um fator diferenciador (alguns o têm, outros não), é um grande fator unificador (uma experiência que todos tivemos). Ele é, na verdade, o meio de entrada no Corpo de Cristo. E a menção que Paulo faz de judeus e gregos, escravos e livres pode bem ser uma alusão a "toda a carne" de Joel, não importando raça ou posição. A unidade do Corpo surge da unidade do Espírito, e é exatamente isto que Paulo deixa implícito em Efésios 4:4: "Há somente um corpo e um Espírito". Portanto, é difícil resistir à conclusão de que o batismo do Espírito não é uma segunda experiência, subseqüente, que alguns cristãos têm, mas é a experiência inicial que todos têm.
Algumas pessoas, todavia, não aceitam esta conclusão, e fazem uma distinção exegética sutil. Elas concordam que os primeiros seis versículos se referem a um batismo por Jesus Cristo em ou com o Espírito Santo, mas argumentam que o sétimo versículo (1 Cor. 12:13) refere-se a um batismo pelo Espírito Santo no Corpo de Cristo, sendo, portanto, algo bem diferente. Dizem: "Sem dúvida o Espírito Santo batizou a todos nós no Corpo de Cristo, mas isto não prova que Jesus batizou a todos com o Espírito Santo".
Para mim isto é um exemplo de defesa do indefensável. A expressão grega é exatamente a mesma em todas as sete ocorrências (2), e, por isso, deve-se entender que ela se refere à mesma experiência de batismo em todos os versículos, a priori, num princípio sadio de interpretação. O peso da evidência está com os que negam isto. A interpretação natural é que Paulo está fazendo eco às palavras de João Batista, como Jesus e Pedro o fizeram antes (Atos 1:5; 11:16). Não é natural dizer que Jesus é o Batizador em seis passagens e o Espírito o Batizador na sétima. Eu creio que não podemos concordar com a tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje em 1 Cor. 12:13: "Fomos batizados num só corpo pelo mesmo Espírito..."
A preposição grega neste versículo é en, da mesma forma como nos outros seis, ocorre ela é traduzida por "com"; por que deveria ser traduzida de modo diferente aqui? Se é porque as palavras en heni pneumati ("em um só Espírito"; BLH "pelo mesmo Espírito") estão no início da frase, a razão disto certamente é que Paulo está destacando a unidade do Espírito do qual participamos, e não que o Espírito é o Batizador.
Deixe-me ampliar um pouco mais e deixar ainda mais interessante este ponto.
Em cada tipo de batismo (de água, sangue, fogo, Espírito, etc.) há quatro elementos. Os dois primeiros são o sujeito e objeto, ou seja, o batizador e o batizado. Em terceiro lugar, há o elemento com ou em (en) que o batismo é realizado, e, em quarto lugar, o propósito (eis). Como exemplo, vejamos a passagem pelo Mar Vermelho, que o apóstolo Paulo descreve como um rito de batismo (1 Cor. 10:1,2). É presumível que o próprio Deus tenha sido o batizador. Sem dúvida, os israelitas em fuga foram os balizados. O elemento pelo qual o batismo foi administrado foi água ou borrifo da nuvem e do mar, e o propósito é indicado pela expressão "com respeito a Moisés" (eis significa "para dentro"), ou seja, foram unidos a ele, o líder que Deus lhes dera.
No batismo de João, o sujeito foi João Batista, e os objetos foram as pessoas de "Jerusalém, toda a Judéia e toda a circunvizinhança do Jordão" (Mat. 3:5). O batismo realizou-se em (en) águas do rio Jordão, e foi para (eis) arrependimento (Mat. 3:11) e, portanto, para remissão de pecados (Mar. 1:4; Luc. 3:3).
O batismo cristão é semelhante. O ministro batiza o crente professo com ou em (en) água. O batismo é para consagração (eis) ao nome da Trindade (Mat. 28:19), que considero mais correto, ou especificamente ao nome do Senhor Jesus (Atos 8:16; 19:5), isto é, do Cristo crucificado e ressurreto (Rom. 6:3,4). 
Nestes exemplos podemos ver que, em cada tipo de batismo, há, além do sujeito e objeto, tanto um en como um eis, isto é, um elemento com que ou em que, e outro para que o batismo é administrado.
O batismo do Espírito não é exceção.
Se reunirmos as sete referências a este batismo, descobriremos que Jesus é o batizador, como João Batista tinha predito claramente. De acordo com 1 Cor. 12:13 os batizados somos "todos nós". O próprio Espírito Santo é o "elemento" com que ou em que (en)(3) o batismo é realizado (isto se pudermos descrever a terceira pessoa da Trindade nestes termos; a analogia entre o batismo com água e o batismo com o Espírito parece torná-lo legítimo). E o propósito deste batismo é a incorporação "em um corpo (en)", que é o corpo de Cristo, a Igreja.
É verdade que, destes quatro aspectos do batismo, o único explicitamente comum a todos os sete versículos é que este batismo é "com (ou em; en) o Espírito". Todos os versículos mencionam o "elemento", mas nem todos especificam o sujeito, o objeto ou o propósito do batismo. Isto, todavia, não deveria nos surpreender, já que as mesmas omissões ocorrem com as referências ao batismo de água no Novo Testamento. Às vezes se argumenta que, em 1 Cor. 12:13, o Espírito Santo deve ser o batizador, pois, de outra forma, o batismo não teria sujeito. Porém em Atos 1:5 e 11:16 também não se especifica o batizador. Nestes versículos não temos dificuldades para subentender Jesus como o batizador; por que não faríamos a mesma coisa em 1 Cor. 12:13?
A razão pela qual Cristo não é mencionado especificamente como batizador nestes três versículos não está muito distante. Acontece que nos quatro Evangelhos o verbo está na voz ativa e Cristo é o sujeito ("Ele vos batizará"; "Este é o que batiza"), porém nos outros três versículos o verbo está na voz passiva, do qual o sujeito são os batizados ("sereis batizados"; "fomos batizados"). O verbo na voz ativa contrasta os dois batizadores, João e Jesus. Com os verbos na voz passiva, no entanto, a identidade do batizador passa a segundo plano, sendo que a ênfase recai sobre as pessoas privilegiadas que recebem o batismo, ou sobre o único Espírito com o qual elas são batizadas. Por isso eu reafirmo que em 1 Cor. 12:13 Jesus Cristo deve ser considerado o batizador, mesmo que ele não seja identificado.
O argumento se apóia em parte sobre os seis outros versículos em que a expressão ocorre, e em parte sobre a impossibilidade da alternativa. Se 1 Cor. 12:13 fosse diferente, e o próprio Espírito Santo fosse o batizador, o que seria o "elemento" com que ele batiza? O fato de não existir resposta para esta pergunta parece suficiente para derrubar esta interpretação, já que a metáfora do batismo requer necessariamente um "elemento"; senão o batismo não seria batismo. Por esta razão, o "elemento" no batismo de 1 Cor. 12:13 precisa ser o Espírito Santo e (sendo consistentes com os outros versículos) precisamos subentender Jesus Cristo como o batizador. De modo análogo, no fim do versículo, é do Espírito Santo que bebemos e (de acordo com João 7:37.) é o próprio Jesus quem nos "dá de beber" dele.
Depois de constatarmos que 1 Cor. 12:13 refere-se a Cristo batizando com o Espírito e fazendo-nos beber do Espírito, precisamos observar em seguida que "todos nós" participamos deste batismo e deste beber. Ser batizado e beber são claramente expressões equivalentes. Todos os cristãos experimentam as duas coisas. Além disto, o tempo aoristo dos dois verbos ("fomos batizados", "foi dado a beber") deve ser compreendido não só como uma alusão ao acontecimento do Pentecostes, mas também à sua bênção que todos os cristãos recebem pessoalmente quando de Sua conversão.

Conclusão

Portanto, a evidência que me esforcei em reunir do Novo Testamento, indica que o "batismo" do Espírito é idêntico ao "dom" do Espírito, que é uma das bênçãos diferentes da nova aliança e, também, uma bênção universal para os membros da aliança, por ser uma bênção inicial. Ela é uma parte e um quinhão da nova época. O Senhor Jesus, mediador da nova aliança e fiador das suas bênçãos, concede o perdão dos pecados a o dom do Espírito a todos os que fazem esta aliança. O batismo de água, por sua vez, é o símbolo e o selo do batismo com o Espírito, assim como o é do perdão dos pecados. O batismo de água é o ritual cristão de iniciação porque o batismo com o Espírito é a experiência cristã de iniciação. Assim, pois, sejam quais forem as experiências posteriores à conversão (das quais abordarei mais adiante em outra postagem dessa série), "batismo com o Espírito" não pode ser expressão correta para elas.
O objetivo de Deus é que todas as pessoas recebam as bênçãos da nova aliança, como o perdão dos pecados e o dom do Espírito, e depois passem pelo batismo de água, como símbolo e selo destas bênçãos. Depois, elas devem continuar sendo cheias do Espírito, manifestando esta plenitude com santidade de vida e ousadia de testemunho (aqui vê-se a importância do Fruto do Espírito e do processo de santificação). A Carta aos Hebreus descreve todos os cristãos como "participantes do Espírito Santo", que "provaram...os poderes do mundo vindouro" (6:4, 5). Toda a vida cristã, de acordo com o Novo Testamento, é vida no Espírito que vem após o nascimento no Espírito.
Além disto, a ênfase indiscutível das cartas no Novo Testamento não é no sentido de impor aos leitores cristãos alguma bênção totalmente nova e diferente, mas sim de lembrar-nos do que somos pela graça, conscientizar-nos disto, e incentivar-nos a viver através disto. Este é um fato muito importante, que não é entendido suficientemente. Parece que o horizonte de alguns cristãos está limitado a uma segunda experiência, subseqüente, que chamam de "batismo no Espírito".
Ao conversar com eles, se eles crêem que você já o experimentou, este é o seu ponto de referência no passado, e o principal elo de união entre vocês. Se, por outro lado, eles crêem que você ainda não o experimentou, então é isto que eles lhe desejam, e é o único ponto de referência no futuro. Então, quer estejam olhando para o passado, quer para o futuro, é o "batismo do Espírito", como segunda experiência, que preenche o seu horizonte.
Todavia, respeitosamente, o que eu tenho a dizer, realmente sem nenhum receio de ser contrariado, é que esta nunca foi a perspectiva dos escritores do Novo Testamento. Estes, quando olham para o passado, estão relembrando o grande feito de Deus quando Ele nos pôs em Cristo, nos justificou, redimiu, regenerou e recriou. É para isto que eles apelam constantemente. E quando olham para o futuro, estão apontando para o crescimento em maturidade dos seus leitores e, adiante disto, para a perfeição que espera o surgimento glorioso do Salvador.
Por exemplo: quando o apóstolo João trata, em sua primeira carta, da necessidade de santidade, com que ele a relaciona? Não com um "batismo do Espírito" especial, que seus leitores devem ter tido ou deveriam ter, mas com seu primeiro nascimento de Deus e com sua obrigação de permanecer em Cristo. "Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; ... não pode viver pecando, porque é nascido de Deus" (1 João 3:9). E: "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado" (5:18).
Qual é a outra expectativa dos apóstolos? Eles esperam de nós uma conduta ética, muitas vezes bastante detalhada. Eles apelam a nós para que vivamos na realidade concreta da vida diária o que Deus já fez por nós em Cristo. Eles nos ordenam que cresçamos na fé, no amor, no conhecimento e na santidade. Eles nos advertem do julgamento e nos desafiam com a esperança da volta do Senhor. Enquanto isto, eles nos pedem que não entristeçamos o Espírito, mas que andemos no Espírito e que "continuemos sendo" cheios do Espírito. Porém nunca, nenhuma vez, eles nos exortam e instruem a "sermos batizados com o Espírito". Só pode haver uma única explicação para isto: eles estão escrevendo para cristãos, e os cristãos já foram batizados com o Espírito Santo.
Não se trata de um simples debate sobre palavras, mas sobre doutrina. A verdade fundamental destacada é que, unindo-nos a Cristo, Deus nos deu tudo. Pela indescritível graça de Deus, já fomos "abençoados com toda sorte de bênção espiritual ... em Cristo" (Efésios 1:3), e é nossa responsabilidade apropriarmo-nos constante e progressivamente destas bênçãos, que já são nossas em Cristo.
De maneira semelhante, já que em Cristo "habita corporalmente toda a plenitude da Divindade" (Col. 2:9) nós "recebemos a vida completa, em união com Ele" (2:10, BLH). Se Deus nos deu o Senhor Jesus Cristo e era sua plenitude, e se Cristo já mora em nós através do seu Espírito, o que mais Deus poderia acrescentar? A própria sugestão de que ainda há um dom adicional a receber não deprecia a plenitude e a suficiência de Jesus?
Crescer em Cristo, sim! Acréscimos além de Cristo, jamais! 
Nós nascemos de Deus, somos seus filhos e herdeiros, morremos e ressuscitamos com Cristo, nossos corpos são o templo do Espírito Santo (1 Cor. 6:19), e esta presença do Espírito em nós é a garantia, na verdade até uma antecipação da nossa herança eterna no céu.
Portanto, os escritores do Novo Testamento não se cansam de lembrar-nos dos nossos privilégios em Cristo, exortando-nos a levar uma vida que seja válida e apropriada. Somos incentivados a ser o que deveríamos ser (puros como ele é puro) por causa do que já somos em Cristo (filhos de Deus) e por causa do que seremos quando Ele voltar (como Ele). Veja 1 João 3:1-3. 


1.   Cristãos pentecostais e carismáticos geralmente falam de "batismo no Espírito" em vez de "batismo com o Espírito". A preposição grega en pode ser traduzida das duas maneiras. A expressão que escolhemos depende da nossa convicção. 
2.   A única diferença é que o Espírito é caracterizado seis vezes como "santo" e no sétimo versículo como "um". 
3.   Os que preferem "batismo no Espírito", provavelmente o fazem porque vêem o Espírito como um elemento no qual somos imersos. Porém, já que a Bíblia diz que as pessoas são "batizadas" com o Espírito Santo quando ele é "derramado" sobre elas, o "batismo com o Espírito" parece ser preferível.

Bibliografia pesquisada:
Brown, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 
Novo Comentário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Novo Dicionário da Bíblia. J. D. Douglas. Ed. Vida Nova.
Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Ed. Vida Nova.
Sproul, R. C. Eleitos de Deus. Ed. Cultura Cristã.
Mounce, William D. Fundamentos do Grego Bíblico.
Bíblia em várias versões.

ps. A próxima postagem e segunda parte do artigo da série "Questões acerca do "batismo com Espírito Santo" abordará mais profundamente a análise do ponto: A benção do “batismo com Espírito Santo” é para todos ou somente para alguns?
Aguarde.

Pr. Magdiel G Anselmo.

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