terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Conselhos aos estudantes de teologia...

Muita coisa boa e edificante é produzida pelo estudo teológico de qualidade, entretanto, se não for realizado com seriedade, responsabilidade, critérios e propósitos bem definidos, pode trazer grandes males, pois o estudante não atentará para os perigos da obtenção desse conhecimento e não entenderá que esse conhecimento deve fazê-lo, obrigatoriamente, mais servo e menos senhor. A verdade maior a respeito disso é que todo conhecimento bíblico teológico que possamos adquirir deve ser usado para aprofundarmos nossa comunhão com Deus, intensificarmos nossa santificação em Deus e servirmos melhor a Deus e nossos irmãos. O que passar disso pode ser muito prejudicial e maléfico.
Sendo assim, ouso lhe trazer alguns conselhos que entendo relevantes para sua vida. Muitos deles aprendi na caminhada como professor e outros, tive a bênção de alguém me ensinar enquanto dava meus primeiros passos em uma sala de aula como aluno. Me ajudaram a lembrar minha posição em Cristo (quem sou), a quem sirvo e por que e para que serve a vida acadêmica teológica.
Então, caso você seja um estudante de teologia atente para alguns dos perigos que cercam aqueles que se lançam ao estudo sistemático da Palavra de Deus. Considere estes conselhos com grande estima para que a sua saúde espiritual não venha a ser afetada durante o seu ministério. 
Estes perigos podem tornar-te enfermo, alguém que poderá contaminar todo o rebanho. Se o estudo da teologia não for parte da prática da nossa santificação, então, devemos temer, e perguntar-nos por que ao lidar com a Palavra de Deus, meio de graça, não estamos sendo talhados pelo Espírito Santo? O ilustre teólogo presbiteriano Benjamin B. Warfield nos adverte que

se você não achar a Cristo no auditório é porque não O trouxe consigo, ali; se depois de um dia comum de trabalho você está muito cansado para reunir-se com seus companheiros, no fim do dia, em oração, é porque o impulso para orar está fraco em seu coração. Se não há fogo no púlpito, cabe a você acendê-lo nos bancos. Nenhum homem pode fracassar em encontrar-se com Deus no santuário, se ele traz Deus consigo para ali.[1]

O primeiro perigo envolve o abandono dos livros, que muitos estudantes fazem após terminarem o seu período letivo no seminário ou faculdade. Certamente, você já deve ter percebido, que em nenhuma matéria do curso teológico, concluída até então, foi possível analisar exaustivamente todos os seus pormenores. 
Cada semestre que finda fica a certeza de que tenho o que aprender ainda. De fato, em cada semestre somos introduzidos àqueles assuntos, e no dever de prosseguir em aprende-los melhor. 
Portanto, a biblioteca pessoal do seminarista ou do estudante de teologia deve iniciar quando ele estiver cursando, mas deve continuar crescendo enquanto estiver vivo. O abandono do estudo, da boa leitura teológica e de obras relevantes de outra áreas são péssimas atitudes para quem deseja prosseguir crescendo e se aperfeiçoando para o serviço cristão.
Quero chamar a sua atenção a algo que Lewis S. Shafer disse,

...em seus anos de aprendizado nas salas de aula, o estudante de teologia deve assimilar todo o campo de doutrina, para que possa ser preparado, a fim de continuar a sua pesquisa em cada porção da Bíblia por todo o seu ministério, para que se torne apto a proceder inteligentemente em cada fase da revelação divina.[2]

     O segundo perigo é o amor excessivo pela erudição em detrimento de uma vida piedosa. A erudição é algo muito sedutor para alguns dos estudantes de teologia.  
Aqui temos o oposto do que falamos anteriormente. 
É possível usarmos a erudição como uma fuga para uma vida desregrada ou até mesmo, inaptidão pastoral. A erudição é importante, porém deve estar acompanhada de uma vida dedicada a Deus. 
Vejam que os fariseus conheciam as Escrituras da época, mas lhes faltava vida advinda delas.   
No que diz respeito ao pastorado, todo pastor deve esmerar-se em ser um erudito! Mas nem todo erudito foi chamado para pastorear! Por melhor que seja a sua formação, não seja voluntário para este serviço, se você não foi chamado! 

Novamente, mencionando a Benjamin B. Warfield falando aos seus alunos de teologia do Seminário Teológico de Princeton, o ministro precisa ser um estudioso, sob pena de ser absolutamente incompetente para este trabalho. Mas antes e acima de ser erudito, um ministro tem que ser dedicado a Deus.[3]

O terceiro perigo, é fazer dos "títulos e diplomas" ídolos no altar de nossas mentes. 
A erudição não é um mal em si. Ela é um instrumento necessário para a nossa legítima santificação. 
Afinal, crer é também pensar.[4] Para o desenvolvimento de uma vida cristã saudável ou de um ministério pastoral vigoroso é indispensável o apego aos livros. Os livros são nossos mestres mudos, que estão em nosso escritório pastoral, sempre disponíveis, para tirar as nossas dúvidas! Mas, não podemos esquecer da Palavra de Deus, ela deve ser nossa primeira leitura e aquela da qual todas as outras se prostram. 
Entretanto, os títulos, diplomas e certificados que possuirmos não podem ser motivo para engrandecimento às custas da diminuição de pessoas. Devem ser entendidos como recompensas pelo trabalho e dedicação que tivemos, e como instrumentos para obtermos oportunidades de abençoarmos em Cristo os que iniciam na vida acadêmica ou que são ensinados e discipulados em nosso ministério de ensino em igrejas locais.

O quarto perigo envolve a perda do senso da grandiosidade da nossa vocação e está diretamente relacionado com o perigo anterior. Direcionando aqui para pastores e líderes, isso é algo possível quando nos esquecemos que o objeto de nosso estudo, a Escritura, e o nosso trabalho pastoral é sagrado. Deus confiou-nos tão sublime tarefa (1 Ts 2:4). Warfield novamente nos adverte para este fato, verificando que,

as palavras que falam da terrível majestade de Deus ou de sua bondade gloriosa podem vir a ser meras palavras para você – palavras hebraicas e gregas, com etimologias e flexões. Os raciocínios que estabelecem os mistérios das atividades salvadoras dEle podem vir a ser meros paradigmas lógicos para você, com premissas e conclusões, sem dúvida apropriadamente formuladas, e triunfantemente convincentes, porém sem maior significado que vá além de suas próprias conclusões lógicas e formais. Os passos imponentes de Deus no processo redentivo podem tornar-se para você uma mera série de fatos históricos, de curiosa interação na produção de condições sociais e religiosas peculiares. Eles apontam talvez para questões que se tornam alvo de nossa sagaz conjetura, mais iguais a tantos outros fatos que ocorrem no tempo e espaço em nossa percepção.[5]
    
Ainda noutro lugar ele observa que,

eu pediria a vocês que retornassem a ter esse padrão de seriedade, e os convidaria a cultivá-la, a já serem homens de Deus agora, e ministros que não precisam ser envergonhados no futuro. Pensem na excelência da vocação do ministro; na grandeza da questão que está atrelada à dignidade ou indignidade de vocês em exercer a elevada função de ministro; e decidam de uma vez por todas que com a ajuda de Deus vocês serão dignos. “Deus não tinha mais que um Filho”, diz Thomas Goodwin, “e fez dEle um ministro”. “Ninguém mais que Aquele que fez o mundo”, diz John Newton, “pode fazer um ministro” – isto é, um ministro que seja digno.[6]

     O orgulho do saber pode sutilmente contaminar-nos (1 Co 8:1-3). Desconfiemos de qualquer sentimento de superioridade que em nós possa surgir. “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2:3 ARA). Pensamentos contaminados pelo pecado são reprovados pelo santo Deus, e em breve, dEle se desviarão. Cuidemos, pois, Deus resiste ao soberbo (Tg 4:6). Servos não podem se dar ao luxo de serem pedantes! O teólogo escocês John Dick em suas palestras de teologia disse

a teologia não é um daqueles assuntos escondidos, que é reservado para os curiosos investigarem, e na contemplação do que homens especulativos e reflexivos podem passar em suas horas de lazer e de solidão. Sua alegação de atenção universal é manifesta por sua narrativa sucinta que agora foi dada de sua natureza. Suas instruções são dirigidas a pessoas de qualquer descrição, para os eruditos, e para os não-eruditos, para o estudante aposentado, e para aquele que está comprometido com as cenas apressadas da vida. Ela é interessante para todos, para proporcionar o conhecimento de Deus, e de seu Filho, que é a fonte da vida eterna. Mas no caso de vocês, há uma razão particular, além de considerar o seu bem-estar pessoal, por que ela deveria ser não somente uma parcela dos seus pensamentos, mas o objeto principal de suas pesquisas. A teologia é a profissão de vocês, como a medicina é a do médico, e a lei de um advogado. Deveria ser a ambição de vocês a de sobressaírem-se, não, entretanto, pelos mesmos motivos que estimulam o esforço dos homens de outras profissões, os desejos de fama, ou de perspectiva de lucro, mas tendo em vista desincumbir-se fiel e honradamente dos deveres do ofício com o qual um dia vocês esperam ser incumbidos. Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que nos mostrarão o caminho da salvação.[7]

     Felizes são aqueles que aprenderam a aprender. O discípulo de Cristo é sempre um insaciável aprendiz. Não pense que você não tem o que aprender com as ovelhas que o Supremo Pastor confiou a você! Inclusive algumas delas poderão te ensinar a ser pastor. 
      Busque o mais precioso tesouro, guarda-o no melhor lugar, para o mais feliz propósito (Sl 119:11). Lembre-se fomos chamados à Graça, pela graça, para a proclamação da Graça de nosso Senhor Jesus Cristo.
Deus abençoe sua vida e estudos.

Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e Ele descerá sobre nós como a chuva serôdia que rega a terra. 
(Os 6:3, ARA).


[1] Benjamin B. Warfield, A Vida Religiosa dos Estudantes de Teologia (São Paulo, Ed. Os Puritanos, 1999), p. 23
[2] Lewis S. Shafer, Teologia Sistemática, vol. 1-2, p. 7
[3] Benjamin B. Warfield, A Vida Religiosa dos Estudantes de Teologia, p. 10
[4] John R.W. Stott, Crer é Também Pensar (São Paulo, ABU Editora, 1991), p. 36
[5] Ibidem, pp. 17-18
[6] Ibidem, pp. 27-28
[7] John Dick, Lectures on Theology, citado em Lewis S. Shafer, Teologia Sistemática, vol. 1-2, p. 59

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