quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Ceia do Senhor


Enquanto o batismo é o rito de iniciação, a Ceia do Senhor é o rito contínuo da Igreja visível. Ela pode ser definida, em caráter preliminar, como um rito que Cristo mesmo estabeleceu para que a Igreja praticasse em comemoração à Sua morte.
Todos os que estudam mais profundamente esta ordenança ou rito encontram rapidamente um fato curioso. Genericamente todos os ramos do Cristianismo a praticam, mas por outro lado, há muitas interpretações. Historicamente, essa prática criou e continua criando separação entre vários grupos cristãos, o que não deveria ser assim. Portanto, é um fator que, ao mesmo tempo, une e divide a cristandade.
Muitas  vezes, o aspecto do valor espiritual ou prático da Ceia do Senhor perdeu-se na disputa sobre aspectos teóricos.
Concordo que a questão teórica não deve ser descartada, pois ela afeta as considerações espirituais mas, se ficarmos atolados e amarrados nas questões técnicas e não chegarmos a lidar com o significado prático, perderemos de vista todo o motivo pelo qual Cristo estabeleceu a Ceia. Não é suficiente compreender seu significado, precisamos também vivenciar esse significado.
E para compreender e vivenciar é necessário ter em mente o verdadeiro significado da Ceia do Senhor e não desvirtuar a idéia original de Cristo.
Há algumas concepções distintas para a Ceia, veja a seguir:

1. A Concepção Católica Romana
Esta concepção foi oficializada no Concílio de Trento (1543-63) e afirma que as substâncias do pão e do vinho quando consagradas pelo sacerdote transformam-se respectivamente na carne e sangue de Cristo. O pão e o vinho mantém a forma, a textura e o sabor, mas Cristo está por inteiro e plenamente presente em cada uma das partículas da hóstia. Todos os que participam da Ceia do Senhor, ou da santa eucaristia, como é denominada, ingerem literalmente o corpo físico e o sangue de Cristo. É a denominada doutrina da transubstanciação.

2. A Concepção Luterana
Esta concepção afirma que o pão e o vinho não transformam-se na carne e sangue de Cristo mas, a carne e o sangue de Cristo estão presentes neles simultaneamente sem contudo transformá-los. É a doutrina da consubstanciação.

3. A Concepção Reformada ou Calvinista
Esta concepção afirma que Cristo esta presente na Ceia do Senhor, porém não fisicamente. A sua presença é espiritual. Os que estão comungando na Ceia são espiritualmente nutridos quando o Espírito Santo lhes dá uma relação mais estreita com a pessoa de Cristo. É a doutrina da presença mística de Cristo.

4. A Concepção Zwingliana
Esta última concepção afirma que a Ceia do Senhor é apenas uma comemoração.  É apenas um memorial, ou seja, serve apenas para o crente relembrar a morte de Cristo e sua eficácia em seu favor. É a doutrina chamada de símbolo de Cristo.

 A Opinião do autor
Para expor minha opinião sobre o assunto preciso primeiro fazer algumas considerações sobre as concepções existentes e abordadas anteriormente.
A concepção católica romana bem como a luterana encontram muitas dificuldades para se sustentar quando há uma confrontação com a Bíblia. Os que defendem estas concepções alegam que quando Cristo dizia “isto é o meu corpo” e “isto é o meu sangue” estava falando literalmente. Mas, sabemos que Cristo usava muitas metáforas para explicar aos discípulos verdades desconhecidas a eles. Podemos ver isso quando afirmava: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida...” , Eu sou a videira, vós os ramos...”, “Eu sou o bom pastor...”, “Eu sou o pão da vida...” e assim por diante.
Na última Ceia Ele usou uma metáfora semelhante: “Isto (este pão) é o meu corpo”, “Isto (este vinho) é o meu sangue”, que pode ser interpretado como: “Isto representa ou significa o meu corpo” e “Isto representa ou significa o meu sangue”. Esta explicação nos poupa de muitas dificuldades que encontraremos se acreditarmos que Cristo esta presente fisicamente na Ceia.
Mas o que dizer da idéia reformada de que Cristo está presente espiritualmente? Ela se firma ao lembrarmos que Cristo disse aos discípulos que estaria com eles em todos os lugares e em todos os tempos (1). E também prometeu estar conosco quando nos reuníssemos como crentes (2). Aprendemos, portanto, que a Ceia também é um ato de adoração. Mas, sabemos que a Bíblia não se interpreta por um ou dois versículos isolados do restante, e sabedores disso devemos levar em consideração que no texto de 1 Cor. 11:26  a idéia é de uma comemoração pois diz :“até que Ele venha”. Se Ele virá é porque não esta aqui.
O mais importante nisso tudo é que devemos entender a Ceia do Senhor como um rito da Igreja que tem como objetivo nos lembrar do sacrifício de Cristo na cruz por cada um de nós, crentes e que Ele voltará para nos levar consigo um dia. O pão e o vinho são símbolos do corpo e sangue de Cristo que por sua vez simbolizam o sacrifício expiatório pelos nossos pecados. E relembrando disto, O adoremos e O louvemos por tão grande amor e infinita misericórdia.
Quem está conosco e habitando-nos é o Santo Espírito, o Consolador que foi enviado para estar conosco quando Jesus Cristo ascendeu aos céus e se posicionou a direita de Deus Pai. 
A Ceia do Senhor é um momento de relacionamento e comunhão com Cristo. Devemos chegar a cada Ceia que participarmos confiando que ali vamos nos encontrar com Ele através do Espírito Santo. Devemos pensar não como uma presença de Cristo fisicamente, mas como uma promessa de relacionamento mais íntimo com Ele. Sabemos que estando o Espírito conosco, Deus está conosco.
E se a pessoa do próprio Senhor Jesus Cristo quiser estar presente em uma reunião de Ceia? Bem, neste caso quem somos nós para “julgar” os atos ou a vontade de Deus. Se Ele quiser estar presente física ou espiritualmente, com certeza estará, seja da forma ou no momento que desejar, e não podemos esquecer que Deus é onipresente, ou seja, pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo (Jer, 23:23,24).
Dito isso, vemos então na Ceia do Senhor a inter-relação dramatizada entre as relações humanas e o relacionamento com Deus, ou seja, a essência da experiência está na comunhão e na adoração, na refeição comunitária e, ao mesmo tempo, na recordação da morte do Senhor Jesus Cristo em nosso favor, bem como da promessa de Sua volta.
É um sermão pregado pela Igreja em silêncio.

Quem pode participar da Ceia do Senhor?
Em nenhuma parte das Escrituras encontramos uma declaração dos pré-requisitos  para que se receba a Ceia do Senhor. Podemos, todavia por inferência, afirmar que se a Ceia do Senhor significa um relacionamento espiritual entre o crente como indivíduo e o Senhor, um pré-requisito é um relacionamento pessoal com Deus. Em outras palavras, os que participam devem ser crentes nascidos de novo, salvos, eleitos.
É recomendável que um crente que esteja praticando um pecado não confessado, não participe da Ceia, porém a proibição por parte da Igreja encontra sérias dificuldades nas orientações  neo-testamentárias, mesmo tendo como forte justificativa o conselho de Paulo para afastar pessoas com graves pecados (3). Creio que a melhor saída para este impasse é o ensinamento bíblico dado aos irmãos coríntios: “examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice”(4).
A maioria das Igrejas evangélicas usam outro pré-requisito para alguém  participar da Ceia do Senhor que é o batismo. Todavia, não encontramos na Bíblia nenhuma orientação quanto a isso. Entendo que esta é uma forma de selecionar aqueles que verdadeiramente foram salvos por Cristo. Mas, como já disse anteriormente, não sabemos e nunca saberemos com certeza absoluta quem é salvo mesmo e quem não o é. Se a Bíblia não nos orienta a tomar tal medida na Igreja, com certeza, Deus não esqueceu este detalhe. Não podemos proibir um crente salvo de participar da mesa de seu Salvador. A Ceia é do Senhor, não da Igreja do Senhor. A Ceia é para os salvos, não dos salvos.
Devido ao desejo da Igreja impôr normas e proibições, muitas vezes sem critérios alicerçados na Palavra, ou pior, não usar critério algum, encontramos várias posições ou concepções diferentes na Igreja evangélica e/ou protestante com relação a quem pode ou não pode participar desse rito e culto a Deus, veja a seguir algumas:

1. A Ceia do Senhor Ecumênica:
É um tipo de Ceia aberta a todas as religiões existentes. Utilizada por algumas Igrejas evangélicas neo-pentecostais. Não encontra respaldo, apoio ou vínculo com a Palavra de Deus, pois a Ceia do Senhor é para aqueles que são do Senhor, Seus filhos, salvos e eleitos e não para ímpios. 
Ecumenismo e mundanismo partilham da mesma essência. 

2. A Ceia do Senhor Livre:
É um tipo de Ceia aberta a todas as denominações evangélicas. Utilizada por grande parte das Igrejas evangélicas pentecostais, tradicionais e/ou reformadas. Há a exigência do batismo nas águas.

3. A Ceia do Senhor Restrita:
É um tipo de Ceia restrita aos membros da mesma denominação. Utilizada por algumas Igrejas evangélicas pentecostais, tradicionais e/ou reformadas. Há a exigência do batismo nas águas.

4. Ceia do Senhor Ultra-Restrita:
É um tipo de Ceia restrito aos membros somente daquela congregação. Utilizada na maioria por grupos evangélicos e/ou protestantes minoritários e seitas “pseudo-evangélicas”.

5. Ceia do Senhor Soteriológica:                                                            
É um tipo de Ceia aberta a todos os salvos, a critério dos participantes. Não há a exigência do batismo nas águas.

Quem pode ministrar a Ceia do Senhor ?
Extraindo da Bíblia a resposta, podemos chegar a conclusão que a ministração da Ceia do Senhor foi uma tarefa delegada à Igreja e, portanto ela deve fazê-lo através de seus líderes e oficiais ou a quem eles ou a Igreja designar. Mas, também não há nenhuma orientação contra um crente salvo por Cristo ministrando a Ceia do Senhor. A Igreja sendo um organismo e uma organização tem a sua forma usual de realizar a ministração, mas todas as vezes que se faz menção de Ceia do Senhor na Bíblia, ela está sendo ministrada por um apóstolo ou presbítero (pastor, bispo) e pelo próprio Senhor Jesus Cristo, daí a Ceia hoje ser ministrada somente pelos líderes e oficiais da Igreja.

 (1) Mat. 28:20; João 14:23; 15:4-7
 (2) Mat. 18:20
 (3) I Cor. 5: 1-5
 (4) I Cor. 11: 28



 Maranata ! Ora, vem Senhor Jesus !

  Pr. Magdiel G Anselmo.

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