quarta-feira, 10 de julho de 2013

Exegese de João 1:1 e a Divindade de Cristo.

Introdução:
O Evangelho de João é distinto dos outros três, pois Mateus, Marcos e Lucas possuem uma mesma ótica, daí serem chamados de Evangelhos sinóticos.
Todavia, o Evangelho de João possui uma visão cristológica singular, pois o mesmo expõe com desenvoltura a identificação do Jesus histórico com o “Logos” eterno que estava com o Pai.
O Evangelho de João segundo a tradição primitiva foi escrito pelo apóstolo João beirando o final de sua vida, em torno do ano 90 d.C., sendo que o próprio autor descreve seu propósito ao escrever: “Para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31).
Além disso, o Evangelho de João expõe a relação milagres e crença, ou seja, o apóstolo João introduz em seu escopo teológico o conceito de que os milagres de Jesus revelam sua pessoa e obra.
O Evangelho de João não relata como nos outros Evangelhos as parábolas, o Pai-Nosso, a instituição da Ceia do Senhor. Por sua vez, só ele nos fala da transformação da água em vinho, do encontro com a samaritana, da oração sacerdotal, do ministério de Jesus ao longo de três páscoas em Jerusalém.
Rico em detalhes, desenvolve temas teológicos a partir de suas palavras favoritas: vida, luz, glória e crer. Nele encontramos o verso mais querido e evangelístico do Novo Testamento: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não perca, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Clemente de Alexandria, um dos Pais da Igreja, por volta do ano 200 d.C., o chamou de “o Evangelho em miniatura”.
O estudo de João 1:1 nos levará a concordar com essa afirmativa.
Análise Exegética:
O VERBO ERA DEUS
TEXTO: JOÃO 1:1
1. “EM PRINCÍPIO ERA O VERBO, E O VERBO ESTAVA JUNTO A DEUS E DEUS ERA O VERBO.”
Nas palavras do teólogo F.F.Bruce, “o prólogo ao quarto Evangelho antecipa a temática de toda a obra... Na vida e ministério do Jesus de Nazaré, a glória de Deus foi revelada de maneira única e perfeita”.
Além disso, o prólogo é uma declaração do tema central  e básico no ensino do Filho de Deus, a saber, a encarnação do verbo. E mais, o evangelista pinta o pano de fundo necessário para a revelação do evento redentor, isto é, o verbo feito carne.
Escrito em prosa rítmica, o prólogo em sua cadência vai introduzindo as palavras-chave de todo o livro – vida, luz, testemunho, crer, glória.
E mais, é no prólogo que o apóstolo João introduz o termo Verbo.  Mesmo sem traduzir todo o conceito que a palavra Logos possuía no grego, verbo exprime a idéia de comunicação, de palavra em ação. Na filosofia grega, o Logos era a “razão” ou a “lógica”, ou seja, a força motriz que trazia a ordem e harmonia ao universo e, mormente, mediação com Deus. Na filosofia neoplatônica e na heresia gnóstica (séculos II e III d. C.), o Logos era visto como um dos muitos poderes intermediários entre Deus e o mundo. Já no pensamento hebraico, o Logos era também poder, sabedoria, e como explica o teólogo F. Davidson,
“Enquanto a etimologia dos termos mostra certa influência do pensamento grego, a principal inspiração vem do conceito de verbo no Antigo Testamento, e no prólogo do Evangelho de João temos um reflexo deste pensamento. A idéia do verbo manifesto em carne era realmente alheia ao pensamento grego, ou seja, somente perceptível no pensamento hebraico.”
Portanto, o que João acrescenta, de modo totalmente original, é que o verbo é uma pessoa como era entendido no pensamento hebraico. Ou seja, o verbo se relaciona com Deus de forma pessoal.
Mesmo porque, o termo verbo (Grego Logos), designa Deus, o Filho, referindo-se à sua divindade. E mais, “durante os primeiros três séculos, as doutrinas a respeito da pessoa de Cristo incidiram intensamente sobre sua posição como Logos”.
Sendo assim, tendo a visão de que o Logos é uma pessoa foi que o apóstolo João expressou o que está escrito em João 1:1, e é o que analisaremos exegeticamente a partir de agora.
1. “EM PRINCÍPIO ERA O VERBO...”
O apóstolo João inicia o versículo com a mesma frase de Gênesis “No princípio...”, ao demonstrar que também na nova criação o agente é a Palavra de Deus. E mais, em Gen. 1:1 encontra-se o ato criativo de Deus, porém João 1:1 revela o verbo que existiu antes da criação.
Todavia, a expressão grega em princípio não denota que Cristo é um ser criado ou que teve um princípio, mas que Jesus era uma pessoa existente desde a eternidade e uma eternidade que só Deus possui.
Ou seja, o Logos é o ser cuja existência transcende o tempo. Por essa razão, o próprio Jesus falou da glória que tivera com o Pai “antes de existir o mundo” (João 17:5).
E mais, para complementar a expressão “Em princípio...”, o apóstolo João introduz a expressão grega “era o verbo...”, que exprime a idéia de que antes da fundação do mundo, “o verbo era”, não foi feito, afirmando assim sua eternidade.
2. “E O VERBO ESTAVA  JUNTO A DEUS...”
Dando sequência ao versículo o apóstolo João expressa: “e o verbo estava junto a Deus...”.
A locução prepositiva junto a implica relação e distinção. Usada com o acusativo significa não somente coexistência, mas intercomunicação direta.
O teólogo Plummer sugere “Face a face com Deus”, ou seja, indicando igualdade com Deus.
E mais, a BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA em seu comentário de João 1:1 expressa a seguinte idéia:
“A expressão ‘o verbo estava junto a Deus’ indica uma distinção de pessoas, dentro da unidade da Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo não são formas sucessivas de aparecimento de uma pessoa, mas são pessoas eternas presentes desde o ‘princípio’ (João 1:2). A locução prepositiva ‘junto a’ sugere uma relação de estreita intimidade pessoal”.
3. “E DEUS ERA O VERBO”
O verbo "era" (ser) se usa no sentido absoluto de existir, pois a existência de Cristo transcende o tempo, não sendo Ele criado.
Dito isto, não se deduz que o verbo era Deus, no sentido exclusivo que o identifica com a totalidade da existência e atributos divinos; entretanto, significa mais do que divindade. Há uma implicação definida na reivindicação de ele ser Deus.
O substantivo Theos é posto em primeiro lugar sem o artigo, dando-lhe mais força. O Logos é então identificado com deus no sentido de que ele é co-participante da essência e natureza divinas e, em virtude de tal relação, pode ser considerado como Deus. Ou seja, a expressão “e Deus era o verbo” certifica a identidade divina e individualidade pessoal de Cristo.
Conclusão exegética
Portanto, a ênfase especial de João 1 é sobre a divindade de Cristo.
E por essa razão, em seu prólogo ele afirma a eternidade de Jesus, a coexistência e intercomunicação direta de Cristo com o Pai, e por fim a identidade divina e individualidade pessoal de Cristo.
Em vista disso, a BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA em sua exposição das características e temas do Evangelho segundo João diz o seguinte,
“Uma das características mais marcantes deste Evangelho é o prólogo que apresenta Jesus como o eterno ‘Logos’, ou palavra, aquele que revela o Pai. Cristo revela o Pai porque compartilha da divindade do Pai. Ele é quem criou o universo (João 1:3). Ele satisfez as necessidades dos israelitas no deserto e agora oferece o pão e a água espirituais (João 4: 13,14; 6:35). Em resumo, ele é um com o Pai, o ‘Eu Sou’ (João 5:18; 8:58; 10:30-33; cf. Gen.3:14).”
Pr. Magdiel G Anselmo. 
Bibliografia:
Apostila de Exegese Bíblica ETENAC elaborada por Prof. MG Anselmo.

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