quinta-feira, 26 de julho de 2012

A luta pelo poder (político) na Igreja Cristã

Qual o lugar da política na Igreja Evangélica ou como fazer política na Igreja?

Antes de alguém pensar errado, o artigo trata da questão da política interna nas diversas instituições cristãs existentes e não de política pública, partidária ou de Estado.

Dito isso, vamos a questão proposta.
1. Entendendo melhor a questão

Essas perguntas merecem antes uma exposição mais detalhada para então serem respondidas.
Algumas pessoas precipitadamente de pronto responderão:
- Igreja não é lugar de política ! Política é coisa do diabo !
Outras com mais calma e ponderação dirão:
- Depende...
Mas, afinal de contas qual a resposta correta?
Bem...antes de responder essas questões temos que entender o siginificado da palavra "política".
Segundo o dicionário Lexicon, "política é a arte da organização e administração de um Estado, uma sociedade ou de uma instituição", e ainda, "o conjunto de fatos, processos e conceitos que regem o Estado, a sociedade ou instituições", e mais, "os conceitos e a prática que orientam uma determinada forma, pré-escolhida, desse gerenciamento."
Sintetizando, podemos afirmar que política é a arte da organização e administração de uma instituição (no caso aqui, uma denominação evangélica), que indicam um conceito  que a rege basilando seu gerenciamento.
Como tratamos aqui da Igreja Evangélica, entendemos que os conceitos advindos dos princípios e valores bíblicos devem obrigatoriamente reger então as atitudes, os procedimentos, a postura, a conduta, as leis, as constituições, a gestão, em suma, todo a política dessa instituição na pessoa de seus membros. Dito isso, fazer política não é ruim, diria que é necessária, pois é a busca dos interesses do Reino na instituição, ou seja, visa sempre pautar e fundamentar todas as decisões e metodologias tendo como base e construção, os princípios, conceitos e valores cristãos revelados nas Escrituras..
Ser político partindo desse pressuposto já delineado é uma função necessária nas instituições evangélicas e cristãs em geral, pois a política se faz obrigatória para que haja organização, administração e gestão adequada, eficiente e alinhada com a Bíblia.
Agora, o que é pernicioso, e diferente de fazer política ou ser um político, é fazer politicagem ou ser politiqueiro. Explico a diferença e o contraste radical entre eles.
Politicagem significa "uma política usada para atender interesses particulares ou mesquinhos", e ser politiqueiro é "quem faz politicagem".
Entendemos então que o cristão politiqueiro faz "uma política" para atender aos seus interesses e não aos interesses do Reino de Deus, por isso essa política é chamada de "politicagem", e se diferencia da política acertada que expus antes.

Feita essa introdução à questão, retornemos as perguntas iniciais:
Qual o lugar da política na Igreja ou como fazer política na Igreja?

2. Expondo objetivamente a questão

A política realizada para bem organizar e administrar a Igreja, como já disse, é necessária, respeitando os critérios já estabelecidos na Palavra. Não há aqui problema algum. Os líderes cristãos que ocupam cargos e funções nas diversas denominações devem obrigatoriamente trabalhar em prol disso, levando a mensagem de Cristo, inclusive, na forma como organizam, administram e gerenciam essas instituições.
Devem então fazer política e consequentemente serem políticos a serviço da Igreja que servem na função de liderança que ocupam. Ressalto que "ser político" aqui é trabalhar na organização, administração e gerenciamento de uma instituição evangélica, protestante ou cristã e não secularmente (não desejo entrar no mérito dessa discussão nesse artigo).
Bem...
Entretanto, esse político denominacional tem se tornado raro. Líderes cristãos (pastores, presbíteros, ministros do Evangelho, educadores cristãos...) que realmente busquem uma política que vise os interesses do Reino de Deus nas áreas que ocupam tem se tornado cada vez mais escassos em nosso meio.
Não é incomum a busca e mesmo a luta incansável e ferrenha por cargos e funções denominacionais com interesses de toda ordem, menos os do Reino. A ambição por "subir" na denominação ou obter "mais poder" tem, lamentavelmente, destruído muitas igrejas antes fortes e sadias do ponto de vista doutrinário e organizacional.
Essa ambição ruim, desmedida, direcionada pelos caprichos e ânsia de poder abala os alicerces denominacionais, trazendo toda sorte de males e prejuízos a estrutura estabelecida, e obviamente as pessoas que ali congregam e esperam de seus líderes algo muito maior e melhor do que suas investidas ao poder. Esperam ser acolhidas, nutridas e acompanhadas de forma pastoral e bíblica.
Mas, o que ocorre é que vivem sedentas e famintas pois aqueles que deveriam lhes encaminhar para ensinamentos e ministrações que lhes proporcionariam o encontro e vida com o Bom Pastor e consequentemente, aos verdes pastos e as águas tranquilas, estão mais preocupados com seus interesses egoístas e mesquinhos pelo poder denominacional e cargos e funções que lhes darão mais prestígio, títulos e porque não dizer, mais dinheiro.

É lamentável...e mais, isso é PECADO.

Pastores que abdicaram de pastorear e investem quase que todo o seu tempo e esforços para alcançar seus objetivos nada cristãos.
Já não investem mais em seu aperfeiçoamento, sua comunhão com Deus ou em sua vida junto a congregação. Não investem em sua pregação, em seu ensino, no acompanhamento e na visitação ao rebanho de Deus aos seus cuidados. Não, isso não traria nenhum prestígio junto aos "poderosos" da denominação. Isso somente atrapalharia, gastaria tempo e perderia as oportunidades de estar sempre atento e presente junto aos "círculos de poder" de sua denominação. Coitado do membro de sua igreja que desejar conversar e se aconselhar com esse pastor. Quem sabe um dia ele terá tempo para um serviço tão banal (pra ele) como esse...
Por isso, já não atendem aos serviços "básicos" de alguém que foi chamado para pastorear.
Toda a sua criatividade e dedicação está voltada e direcionada para a politicagem. São literalmente, politiqueiros, adeptos da política ruim e nefasta. Para tanto, descaradamente, tecem  "arranjos", "esquemas", "troca de favores" etc, e não se constrangem em usar e abusar de suas atribuições e ofício para arquitetá-las e realizá-las. 
Veja alguns exemplos que eu presenciei:

a) Chegam a usar até consagração de presbíteros (e fazem em turmas) sem a mínima preocupação se estão aptos para exercer tal ofício, apenas para obterem mais votos na convenção de sua denominação e alcançar quem sabe até a sua presidência (isso, infelizmente, eu já testemunhei), trazendo problemas graves ao rebanho, já que pessoas incapacitadas e despreparadas são postas em posições de liderança em congregações acarretando abusos e malefícios de toda ordem, além de "manchar" o nome da instituição, demonstrando a todos que se trata de uma instituição que não preza ou prioriza o ensino bíblico, muito menos o preparo e formação de obreiros para suas igrejas.
Política suja, politicagem.
Lamentável...

a) Outros, vivem a bajular diretorias, presbitérios, associações, ordens... buscando alcançar cargos e posições na denominação por intermédio da falsidade, da mentira, da falsa humildade, do fingimento e da enganação. A ambição em ter seus nomes em rols, listas, manuais ou impressos oficiais da denominação os cegam para o que realmente é relevante a um ministro do Evangelho. Homens tristes, sem brilho, que perderam de vista sua vocação e chamada e por isso já não honram o título de "pastor" e lamentavelmente não cumprem com as obrigações e deveres do ofício junto ao rebanho de Deus aos seus cuidados.



c) Outros, usam concílios para descarregarem suas frustrações e decepções naqueles que não podem se defender...Alguns sequer entendem o que estão indagando ao candidato que ali se está avaliando (se é que concílio avalia alguém para o pastorado. Uma falácia que todos conhecem nas denominações que usam esse critério, mas pouquíssimas pessoas ousam questioná-la. Por que? respondo: -Politicagem.).
Alguns desses pretensos examinadores sequer possuem formação melhor que a do candidato. Mas, como inquisidores da idade média julgam e condenam a "fogueira santa" o candidato por não saber responder as perguntas que tal examinador ficou por meses a pesquisar para elaborar e "pegar" o seminarista.
Como alguém denominado "homem de Deus" se presta a um trabalho desse? Eu realmente não sei, mas desconfio, politicagem. 

É muito ressentimento, ira, amargura, mágoa por não conseguir alcançar o poder que desejava na denominação e por isso "desconta" em quem nada pode fazer.
Mediocridade a toda prova. Politicagem.

Enquanto isso...

3. Resultados da Politicagem

O rebanho de Deus que está aos cuidados desses tais "homens de Deus" vivem a comer migalhas. São desprezados e somente lembrados quando são interessantes aos "planos" do politiqueiro. Quando isso não ocorre, que se virem sozinhos...
A politicagem "corre solta" e todos os que podem ajudar a esse líder a "crescer" em poder e prestígio na sua denominação são encorajados a "estar com ele" pois colherão frutos dessa fidelidade (troca de favores). E aí então, forma-se a equipe ministerial do politiqueiro (sua turma). E com isso o povo sofre... o rebanho mingua... o Espirito Santo se entristece...
Os crentes não são alimentados como deveriam. Não são orientados. Não são aconselhados. Não são sequer "vistos" pelo "seu pastor".  O telefone, internet ou coisa do tipo somente são usados por esse pastor quando precisa cobrar resultados de seus arranjos, de seus projetos (palavra que eles amam usar) porém nunca como um acompanhamento pastoral ou de um cuidado com a vida daquele irmão.
Por isso, os irmãos se decepcionam por mais que o amem e saem a procura de alguém que os pastoreiem biblicamente. Olha aí um grande motivo do crescente número de crentes sem igreja. Essa motivação é, sem dúvida, de se entender e levar em alta consideração.
E muitos procuram outras pastagens, onde esperançosos, desejam ali encontrar um "pastor de verdade" e não um que somente tenha o título.
Poucos encontram, admito. E aí também a motivação e o porquê da abertura de muitas igrejas novas, onde obreiros entenderam que isso era o melhor a fazer devido ao convívio decepcionante que tiveram com os politiqueiros. Também isso é bem entendido por mim.



4. Considerações Finais

Quero ressaltar que meu desejo aqui não é afirmar que a Igreja Evangélica está totalmente contaminada pela politicagem. Toda não está. Entretanto, grande parte está, diria que em sua grande maioria as denominações evangélicas e protestantes de nosso país e do mundo sofrem com isso e tem nisso boa parte da origem dos problemas que a assolam em nosso século.
Penso que uma análise mais aprofundada e cuidadosa de nossos modelos de administração, organização, gestão e metodologias é uma atitude de clamor de todos aqueles que amam a Deus e Sua Igreja.
Uma reforma em nossa ética, ou quem sabe, um retorno ao que já é estabelecido como Ética Cristã deva ser considerada, além de uma transformação no enfoque e direcionamento de nossos seminários e escolas teológicas. A formação e preparação dos novos obreiros deve ser prioritária nesse processo. Eles serão os líderes da Igreja de amanhã. Precisamos incutir neles os princípios, valores e pressupostos bíblicos que formam um bom líder cristão e deixar outras disciplinas como secundárias e, quem sabe, até aboli-las dos currículos e grades teológicas.
A politicagem deve ser entendida como PECADO e assim tratada da forma que as Escrituras nos orientam em nossas denominações. Ela deve ser identificada e combatida. Temos que extirpá-la de nosso meio. É nossa obrigação como embaixadores do Reino.
A política correta visando os interesses do Reino de Deus deve ser incentivada e acolhida como um ministério na Igreja.
Portanto, respondendo as perguntas iniciais desse artigo, a politica tem lugar na vida Igreja no âmbito de sua organização, administração e gestão e deve ser realizada e praticada dentro dos critérios e orientações já revelados nas Escrituras Sagradas.
O que aqui escrevo, corrobora com os princípios e valores revelados para a vida de um cristão aqui nesse mundo (e ainda uma leitura atenta das cartas pastorais revelará qual a postura e ofício dos líderes cristãos) e o texto de Mateus 6:33 que trata de uma exposição do Mestre sobre uma ansiosa solicitude pela coisas da vida, ali identificada como "comer, beber, morar, vestir... se aplica como uma luva nessa questão e deveria abrir os olhos dos politiqueiros, (mesmo entendendo que eles ambicionam muito mais do que as coisas ali mencionadas):

"Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas (...)"
Mateus 6: 33.

Pr. Magdiel G Anselmo.
pastor e "político" em prol do Reino de Deus na Igreja de Jesus Cristo. 

2 comentários:

  1. Obrigado pastor, excelente artigo q me vez refletir sobre a politica na igreja. Deus abençoe muito sua vida!!!

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  2. em cap. 13 aos corinthios diz:
    Sobre a suprema e excelencia da caridade, mesmo diante de todas essas coisas como: ciencia, profecia, fé, e outros dons se não for acompanhado com o don do amor supremo que vem de Deus, nada disso adianta.
    pois o amor é sofredor tudo suporta tudo cre, tudo espera, e não é invejoso e nem hipócrita, mas onde há sabedoria e ciencia e profecia e outros dons além do don do amor de Deus, tudo isso é passageiro, pois quando vier o que é perfeito o que é provisório deixara de existir e só vai permanecer a fé, a esperança er caridade mas o maior dos três é o amor.
    então não vamos abrir mãos da etica e da politica dentro das igrejas,
    mas com uma condição amando uns aos outros de modo que não venham a entristecê-los, para proteger uma lei ou um ponto de doutrina ou um tópico.
    devemos fazer tudo com moderação na óbra de Deus, porque a maior obra de Deus somos nós mesmo.

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