quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A arte de aprender a olhar

Não sei se foi por causa de minha criação, pois meus pais sempre tiveram boas bibliotecas em casa, ou pela necessidade e exigência acadêmica e pastoral, não sei bem, só sei que tenho prazer na leitura de um bom livro, de um bom artigo ou de uma reflexão de bom gosto. Gosto muito de ler, e não somente de literatura cristã evangélica. Me interesso por bons livros sejam eles escritos por irmãos da mesma fé ou não.
Como em minha formação teológica, me especializei em interpretação bíblica e educação cristã, e minha esposa em pedagogia, música e também educação cristã, temos muita literatura principalmente sobre teologia e educação em casa. Mas, às vezes fujo para uma literatura menos formal e acadêmica (precisamos "curtir" um pouco também). Neste aspecto, gosto muito de escritores brasileiros que escrevem com o coração, refletindo sobre as coisas da vida de uma forma contemplativa e profundamente rica em detalhes. Quando desejo "desestressar" da lida pastoral e acadêmica um pouco, procuro de preferência um devocional ou uma obra destes escritores para ler.
E, não é incomum, encontrar paralelos entre estes textos e a Palavra de Deus. Foi o que aconteceu quando lia a obra Quadrante de Cecília Meireles um outro dia. Uma de suas crônicas que me chamou a atenção com relação a isso transcrevo a seguir. Curta esste texto lindo e veja como se compara e corrobora com a verdade bíblica.
"Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na porta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? quem as comprava? em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? e que mãos as tinham criado? e que pessoas iam sorrir de alegria ao rcebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreno, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias - e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde, e em silêncio, ia atirando com a mão gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos, e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com  pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas quando falo dessas pesquenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

 Veja o que diz a Bíblia:

"São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso, se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que há em ti sejam trevas, que grandes trevas serão." Mateus 6: 22,23.

A comparação é inevitável.
A forma como olhamos as coisas, situações e pessoas demonstram nossa percepção em relação a vida e ao Deus da vida. Tudo passa pelo olhar.
Deus se manifesta e se revela de formas diversas e através da obra de pessoas de todos os tipos. Basta ter e perceber a sensibilidade de Cecília Meireles ao escrever.

Pr. Magdiel G Anselmo. 

Um comentário:

  1. muito bom com isto sabemos que existe um criador das coisas que pasam em nosas janelas ou seja em nossos olhares como manda a obra da escritora!

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