quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Verdadeira Comunhão

As festas de final de ano por mais que muitas sejam desvirtuadas por motivações equivocadas e precipitadas de toda ordem, trazem um sentimento de solidariedade, fraternidade e acima de tudo de reconciliação (mesmo que inconscientemente) que alguns entendem como sendo "comunhão".
Os relacionamentos de amizade, irmandade e familiares são muitas vezes postos em um nível de "tudo está bem" ou ainda "deixemos os problemas pra trás".
De certa forma, essas atitudes são positivas, mesmo que muitas delas sejam realizadas por pressão da data, das festividades e das reuniões quase que "obrigatórias", e mesmo não representando a verdadeira opinião e intenção de todos que ali estão.
Mas, no todo, podem ser considerados bons momentos porque ainda existem e acontecem verdadeiras reconciliações e perdão nestas ocasiões (mesmo que isso a cada dia se torne mais raro).
Porém, há uma confusão no que diz respeito a considerar estes momentos como "comunhão", pelo menos na forma que a Bíblia nos revela.
Comunhão é muito mais que datas e festas. Comunhão é mais que estar juntos por algumas horas ou ainda ter atitudes positivas com relação aos relacionamentos interpessoais existentes para "não estragar a festa".
Um aspecto maravilhoso da comunhão, infelizmente pouco observável nos homens, é a beleza que este relacionamento produz. O compartilhar, auxiliar, socorrer e o companheirismo produzem uma beleza cintilante nos seus movimentos, beleza que irradia sempre, sempre, revelando a manifestação constante da operação de Deus na vida da obra criada, num movimento recíproco.
Mencionando alguns exemplos bíblicos, o relato das Escrituras nos mostram que no princípio, no momento da criação, era real a comunhão entre Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo que se movia sobre a face das águas (Gn. 1:1,2). A Comunhão, a comunicação, o compartilhar da realeza Divina, é maravilhosa, é cordial, é reconhecedora das potencialidades uns dos outros, ela promove o outro, ela reconhece o outro. Esta idéia é encontrada em Gen. 1:26: "Façamos o homem a nossa imagem e semelhança..." e mais, em Gen. 2:18: "(...)não é bom que o homem esteja só: Façamos-lhe um adjuntório semelhante a ele".
Perceba que o nome e o pronome nos mostram o reconhecimento do outro.
Ainda Mateus e Lucas nos mostram a beleza da comunhão, da comunicação e do compartilhar da Trindade Santa nos textos de Mateus 3:16,17 e Lucas 3:21,22 onde há o registro do batismo de Jesus. Já João registrou essa beleza no respeito e carinho demonstrados em João 14: 16,17 e 26 no registro das três pessoas da Trindade trabalhando em total harmonia.
Observe que a comunhão da Trindade é produtiva. É uma bela produção de justiça, de proteção, de consolo, de ânimo, de respeito, de reconhecimento de capacidade e potencialidades, de valorização da outra pessoa. E nesse movimento de produção, posto que a comunhão não pode ser estática, percebemos a geração de uma beleza, que nos ensina a cordialidade que procura envolver no suprimento da necessidade do outro, mais do que querer apenas o suprimento de sua própria necessidade.
É inconcebível um Deus estático, uma administração estática, uma comunicação estática, um compartilhar estático.
O movimento produzido pela verdadeira comunhão produz uma beleza cintilante, e nesse movimento é possível ver o relacionamento Deus/homem, o movimento de Deus em direção ao homem, o movimento ordenado, comunicador, auxiliador, gerando em cada ato, o vislumbre de um colorido sem igual. De uma beleza que é rica em detalhes.
No diálogo de Deus com Adão após sua queda: "Adão, onde estás?" e ainda com Caim depois de ter matado seu irmão Abel, observamos que o Deus eterno está sempre disposto a comunicar-se livremente com o homem, auxiliando-o no sentido de este poder viver da melhor maneira possível, da maneira correta. Isto é beleza!!!
Veja a comunicação de Deus com Abraão. Veja a riqueza dos movimentos, o colorido, o brilho vivo desta comunicação. A comunicação redentora, resgatadora!
Tudo isso demonstra que o homem que está afastado de Deus pode voltar a comunhão, à comunicação com o Deus eterno.
E nesta comunicação, neste movimento, neste auxílio que Deus se faz homem para, vivendo como homem, salvar este mesmo homem conforme o relato de João 1:1-14.
Entretanto, essa comunicação não pode ser um monólogo. Ela tem de ser um diálogo. Já disse que a comunicação não pode ser estática, o homem tem de estar ativo também nesta situação.
E quando então ocorre essa comunicação de forma eficaz e este homem passa de simples coisa criada para um filho, isso indica e deduz-se um auxílio, compartilhamento, socorro, companheirismo, sociedade, cumplicidade, cooperação, enfim, comunhão constante e bem íntima. Este é o relacionamento Deus/homem e também homem/Deus.
É esta beleza de movimentos que atrai, fascina, que vislumbra, e mostra e prova para o homem que ele não pode ficar parado, que não há lugar para estar isolado e solitário, pois a geração da comunicação e compartilhamento são características inerentes e implícitas a esse relacionamento. É próprio do relacionamento Deus/homem e vice-versa.
Já quando observamos o relacionamento homem/homem salvo na visão bíblica, temos obrigatoriamente que levar em consideração os mesmos parâmetros do relacionamento ensinado por Deus e que Ele próprio se aplica e pratica.
Se, como expus, a comunhão da Trindade é produtiva, assim também deve ser a dos filhos de Deus. Conforme o padrão de Deus, a comunhão entre irmãos espiritualmente vinculados pelos Espírito, deve diluir a maldição para que a bênção seja completa. A comunicação, o compartilhar, o socorro, o auxílio e o companheirismo são necessários.
Faça uma análise de sua vida segundo o capítulo 4 de 1 João e entenda a partir daí a relevância da questão. É bem mais séria do que alguns imaginam.
O fundamental é que existe sim a possibilidade de haver este relacionamento, desta comunicação, deste compartilhar, deste socorro, deste auxílio, deste companheirismo, enfim, desta comunhão.
A Bíblia nos mostra vários exemplos dessa magnífica, maravilhosa comunhão homem/homem. Permita-me lembra-lo de alguns: Moisés e Josué, Josué e Calebe, Abraão e Eliezer, Davi e Jonatas, Elias e Elizeu, Paulo e Timóteo. Exemplos que revelam homens companheiros, que se socorriam e se auxiliavam. E o livro de Cantares ainda nos mostra a profunda comunhão entre o marido e a esposa ou noivo e noiva no contexto bíblico.
Um texto quase que oficial sobre o assunto e no contexto da Igreja é o de Atos 2: 42-47, confirmando o que já foi dito.
Poderia escrever mais ainda destes relacionamentos maravilhosos que a Bíblia nos mostra, seguindo esse colorido, belo, rico, de movimentos recíprocos, de movimentos que precisamos cultivar em nossos lares e em nossas igrejas.
A comunhão é produtiva e diria, produtora. Procura suprir a necessidade que o outro tem. A comunhão produz respeito, reconhecimento, cordialidade, ela valoriza o outro. Ela denuncia o erro, ela denuncia a injustiça, ela denuncia o orgulho, ela denuncia a opressão, o despotismo, a violência, ela desmascara o erro e coloca-o ao vivo. É a beleza de um movimento iniciado por Deus, mediado por Jesus Cristo e continuado pelo homem sob o domínio do Espírito Santo, para que todos sejam um. É nesse sentido que o Senhor Jesus Cristo orou ao Pai, a favor dos seus discípulos em João 17.
Todo esse movimento maravilhoso da comunhão nos dirige para a beleza explosiva de uma apoteose final, que não demorará, e nós, os remidos pelo Senhor Jesus vamos ver, e não somente ver, mas também estaremos lá.
A comunhão plena, completa, eterna e gloriosa.
Isso é o que nos aguarda. Essa é a consequência da comunhão Deus/homem, homem/Deus e homem/homem salvo conforme a revelação das Escrituras.
É bem mais profunda que simplesmente participarmos de um momento festivo ou de datas comemorativas juntos.
Bom seria se o bom sentimento, pensamento e atitudes advindas de motivações honestas e santas pautassem e regrassem todos nossos dias e não somente nessas ocasiões.
Somos livres para termos essa postura.
Sejamos um em Cristo. Sigamos e busquemos essa verdadeira comunhão.
Produzamos suas doces e santas consequências.
Libertas Quae Será Tamém.
Liberdade é o produto final da comunhão.
Glórias ao nosso Deus Pai.
Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que nos enviou o Espírito Santo!
Aleluia!  Amém!


Pr. Magdiel G Anselmo.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Que venha 2011...

Lá se vai mais um ano...
Planos, empreendimentos, projetos, conquistas, decepções, realizações, conflitos, alegrias, tristezas ...vida que passou e não volta mais...
Enfim, lá se vai mais um ano de lutas e expectativas de toda ordem.
Alguns dirão: Consegui alcançar grande parte de meus objetivos e metas.
Já outros não foram tão felizes como estes.
Outros se despediram de nós e já não entrarão em um novo ano aqui conosco. Já não há para estes expectativas e planos nesse mundo, somente o juízo os aguarda.
O interessante é que o prenúncio de um ano novo sempre traz a boa expectativa de não errarmos onde erramos e de continuarmos a acertar onde acertamos. Renova-se em nós a esperança e confiança de coisas novas e tudo parece-nos que enfim, pode dar certo.
A Palavra de Deus nos alerta: "melhor é o fim do que o começo..."
Essa verdade nos adverte para terminarmos bem, para não desistirmos, prosseguirmos para o alvo...
Sempre, com fé renovada, sempre crendo que coisas melhores estão guardadas para nós em Cristo.
Desta forma, tal qual 2010, em 2011 "arregaçaremos as mangas" e continuaremos no trabalho que não é vão, assegura-nos nosso Senhor. O suor não cessará de nos ensopar a camisa, a gravata muitas vezes parecerá uma forca a nos sufocar, o cansaço às vezes chegará como bandido, mas aprendemos a descansar no Senhor, a dor e o sofrimento são previsíveis e companheiras indesejadas e indesejáveis de horas difíceis, mas não nos assustam mais como antes, já as conhecemos muito bem.
As lágrimas serão inevitáveis, o grito surdo continuará, muitas vezes, em nossa garganta, porém cada lágrima derramada se transformará em palavras de oração na presença de nosso Deus e Ele as escutará atentamente como o fez no ano que está terminando..
Nossos cabelos vão ficando brancos ou "fogem" de nossas cabeças como que amedrontados com o labor e as preocupações. Mas, a cada dia nos acostumamos com nosso novo visual e com as mudanças em nosso corpo. O vigor já não é o mesmo, a empolgação nem se fala. Mas, a responsabilidade aumentou e nosso discernimento e reflexão estão mais aguçadas. É... ficamos mais sábios com o tempo (pelo menos a maioria de nós).
Uma voz ecoa em nossa alma: A luta continua! O serviço não acabou! A seara ainda é muito grande!
Percebemos que há muitos ainda que precisam ouvir o Evangelho de Cristo. O amor de Deus ainda precisa ser comunicado a este mundo tão apodrecido e corrompido pelo pecado.
Muitos não nos entenderão, alguns sequer nos ouvirão. Seremos muitas vezes ofendidos, caluniados, injuriados... Mas, alegremente participamos de todas essas coisas com a firme certeza de que Deus está conosco, Ele é Emanuel. Aprendemos que com Ele podemos todas as coisas, pois nos fortalece e quando somos fracos é que somos fortes. A graça de Deus nos basta.
Nesse ano que iniciará dentre poucos dias, teremos muitas alegrias e realizações. Veremos muitos se dobrarem aos pés de Cristo. O Senhor nosso Deus continuará reinando, soberano e Todo-Poderoso.
Mas, também padeceremos aflições, perseguições e tribulações.
É a vida. É a doce vida de um filho de Deus.
Os problemas mudam assim como os filhos crescem. É inevitável.
Entre os perus, pernis e chesters das festas de fim de ano, um pensamento nos transportará para o futuro e nos alertará para o trabalho ardúo de mais um ano que iniciará. Desfrutemos, então desses momentos de comunhão e confraternização como que recarregando nossas baterias para o que vira a seguir.
Um amigo me disse: É hora de curtir, pastor. Aproveita que é só no fim do ano, hein.
Ele não deixa de ter razão.
Mas no final de tudo, todo lágrima será enxugada e todo pranto findará.
Deus nos garante essa vitória! 
Avante Igreja!  Avante com e por Cristo!
Venha 2011. Estamos preparados para você.


Pr. Magdiel G Anselmo.






quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lição Prática sobre Paciência

Em minha adolescência e juventude sempre fui muito "bravo", "briguento". Não admitia que ninguém me contestasse ou me afrontasse.
Era irredutível em minhas posições e até "ignorante" com os opositores.
A minha velha vida foi repleta de situações e circunstâncias onde "perdia a cabeça" e resolvia meus problemas e conflitos com aspereza e falta de compreensão com as pessoas.
Fui muito rebelde. Mesmo sendo filho de pais crentes, sai de casa. Não aceitava intromissão ou que alguém me dissesse o que fazer.
Meu lema era: "Pisou no meu calo, eu piso no pé todo!"
O tempo passou, fiquei adulto, me reconcilei com o Senhor, entendi o chamado e a vocação para o ministério pastoral, casei, tive filhos, ...
O meu jeito "durão" do passado havia mudado. Mas, ainda algumas coisas me irritava profundamente e por vezes me tirava a paz. Pedia a Deus com insistência para me transformar nessa área e me fazer mais paciente com as situações e as pessoas.
Buscando entender mais isso, passei a estudar biblicamente como ser paciente, sábio, etc...
E nesse contexto preparei, iluminado pelo Espírito Santo, sermão após sermão sobre essa questão. E é aí que um momento marcante de minha vida ocorreu.
Em um domingo desses após pregar um sermão que tinha como tema central "A paciência, irmã gêmea da sabedoria", caminhava pelo vão central da igreja rumo a porta de entrada para assim me posicionar para cumprimentar os irmãos. De repente, um homem veio apressadamente em minha direção com o dedo em riste e bradou:
- Quem você pensa que é pra falar daquele jeito? Você não passa de um moleque de recados de alguém que lhe falou sobre a minha vida particular.
Pego de surpresa com aquela atitude fiquei sem ação e não entendia o que aquele senhor queria de mim. Mas, ele continuava a gritar e me questionar sobre o que falei.
Em certo momento, e agora já mais no controle da situação, respondi que não sabia do que ele falava e se algo na mensagem o incomodou é porque certamente Deus o estava alertando para algo em sua vida que precisava mudar.
Foi a gota d'água para aquele homem ouvir isso e então veio de forma agressiva em minha direção, encostando o dedo em meu rosto e gritando palavras de baixo calão e ofensas de todo tipo, demonstrando que pretendia chegar "as vias de fato".
Por um instante, observei com mais clareza aquela figura: Era um homem pequeno, muito magro e que parecia-me adoentado e se movia com certa dificuldade. Não suportaria um confronto físico com qualquer pessoa. Certamente seria a parte derrotada.
Em minha velha vida, não suportaria metade das coisas que me falou e não ficaria me ofendendo por muito tempo sem que eu fechasse a sua boca de forma violenta. Como já disse, quando não conhecia o Senhor Jesus, eu me gabava em afirmar sempre que não levava desaforo pra casa e que não era simpatizante dos que "engolem sapos".
Em um instante, minha mão quase que obedeceu as ordens do passado. Como num relance lembrei de situações semelhantes da minha "velha vida". O temperamento explosivo, intempestivo desejou aflorar.  
Mas, mesmo em meio àquela situação, consegui submeter meu temperamento e desejos carnais ao controle do Espírito. Não foi fácil, mas consegui.
Me senti o próprio David Banner no filme do Incrível Hulk. Mas, consegui controlar a transformação para o monstro verde e sua fúria incontrolada.
O interessante e curioso é que continuo ainda hoje a ter o mesmo temperamento de antes, ainda a carne vez por outra, tenta sobrepujar o espírito. Mas, aprendi a contar agora com o controle do Espírito Santo, que me proporciona escapes nesses momentos de "fúria", antes incontida.
Foi justamente o que aconteceu neste episódio.
Usando a autoridade e sabedoria dadas por Deus pude discernir a situação e o espírito que agia naquele senhor. Após essa atitude e com mais calma, ele pode ouvir minhas palavras e apaziguado seu coração pelo poder convencedor do Espírito, dobrou-se aos pés de Cristo em oração sincera e lágrimas. 
Os que presenciaram tal acontecimento tiveram suas vidas renovadas e edificadas. Percebia-se nitidamente o mover do Espírito e o culto que havia acabado se prolongou por quase mais uma hora.
Aprendi muito. Após o susto, a surpresa, o constrangimento das ofensas dirigidas a mim, pude entender melhor o agir de Deus, nos possibilitando o discernimento espiritual para nos portarmos com sabedoria e unção.
Depois daqueles momentos abençoados e ao levar aquele, agora irmão, para sua casa, o próprio me confessou ainda no carro:
- Pastor, o senhor pregou primeiro na teoria sobre paciência e depois na prática.
Depois em minha casa e conversando com minha esposa sobre tudo que aconteceu, ela sabiamente comentou: Tomara que da próxima vez, Deus não seja tão duro e contundente contigo na prática do que você prega!
É verdade, Senhor. Já aprendi a ser paciente, viu? Aprendi a lição! Obrigado!
Já tá bom. Ufa...

Pr. Magdiel G Anselmo. 



sábado, 4 de dezembro de 2010

O Bom exemplo do filho da consolação.


Uma das inúmeras particularidades que me chama a atenção na Bíblia, é que o Senhor não deixou-nos registrado apenas os bons exemplos dos homens e mulheres de Deus. Temos também o registro dos maus exemplos, dos erros e equívocos ocorridos. É óbvio que isto serve para que não repitamos os erros de nossos irmãos do passado.
Lembrei disso nesses dias quando lia e meditava na Palavra de Deus. Deparei-me novamente com o texto de Atos 15: 36-41, quando Paulo se separa de Barnabé após uma desavença por causa de João Marcos.
Naquela ocasião, Paulo se negou a levá-lo na segunda viagem missionária pois este os havia abandonado na primeira, e resolveu levar consigo Silas, enquanto Barnabé não se incomodou em novamente ir com Marcos.
Quando aqui meditava lembrei o perfil de Barnabé, que era chamado de “filho da consolação” por Lucas. Este homem era marcado pela bondade, sabedoria, percepção espiritual e grande respeito, a ponto de convencer os principais apóstolos da autenticidade da conversão de Paulo (Atos 9:27) e reconhecer a situação da obra de Deus junto aos gentios em Antioquia (Atos 11:19). Era um homem de profundo discernimento espiritual e acima de tudo de expressão do amor e perdão de Deus.
A sua insistência em levar na segunda viagem missionária a João Marcos demonstra essa tendência em acreditar na restauração das pessoas e conseqüentemente na integração do restaurado no que tange a comunhão e conseqüente serviço na obra de Deus.
Paulo já não teve essa mesma atitude, esquecendo inclusive que Barnabé acreditando no que dizia, levou-o aos apóstolos contando o que havia acontecido na estrada que ia a Damasco e como Deus o estava usando para a pregação do Evangelho, e ainda o apoiou e acompanhou em Jerusalém no início de seu ministério apostólico. E fez isso quando ninguém acreditava ou pelo menos quando havia muita dúvida da conversão do então Saulo ao Evangelho de Cristo. Barnabé confirmava com isso o apelido que Lucas lhe dava: “filho da consolação”.
Essa atitude de Barnabé, assim como naquela época, é difícil de se encontrar em nossos dias, já a de Paulo muito se vê na vida da irmandade cristã atual. A implacabilidade com o erro de irmãos permeia a maioria das estruturas eclesiásticas e diria mais, a maioria da estrutura individual dos então cristãos de nossa época. Muitas vezes queremos ser mais implacáveis que Deus.
Aqui recordei-me de uma conversa que tive com um irmão quando comentávamos a vida do profeta Jonas e sua derrocada indo parar no ventre do grande peixe. Nesse ponto esse irmão declarou com contundência:
- Bem feito, quem manda ser rebelde!

E mesmo com minhas advertências, continuava a afirmar:
- Que isso pastor? Deus pesa a mão. E isso é bom. É um rebelde a menos em nosso meio!

Lembrei a ele que mesmo Jonas estando naquele momento como um rebelde e desobediente, orou arrependido lá no ventre do grande peixe e o mais surpreendente, é que Deus ouviu sua oração. E mais, de pronto Deus restaurou sua vida e ministério profético. Nem Jonas conseguiu assimilar esse milagre completamente, pois mesmo depois da salvação de muitos naquela cidade, ainda assim ele não desejava isso. Mas Deus o havia perdoado e restaurado, e mais uma vez o repreendeu e ensinou.

Nosso Deus sempre busca restaurar.

Muitos como esse meu irmão, pensam como ele e se juntam aos acusadores contra irmãos da mesma fé sem contudo, observar as orientações e critérios bíblicos para a correção e disciplina já revelados na Palavra.
Um texto que considero perfeito para este ponto é o de 2 Samuel 24: 13,14. Davi havia pecado e Deus manda que escolhesse o castigo que viria sobre ele e o povo. Em suma, Deus deu a ele duas opções: cair nas mãos dos homens (seus inimigos) ou nas mãos de Deus. E a resposta de Davi muito nos clareia a questão que estou abordando:

“Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens não caia eu.”

Davi sabia que os homens não são misericordiosos. E se você continuar a ler o restante do capítulo verá que Deus poupou Jerusalém, perdoou Davi e cessou a praga sobre Israel após o oferecimento de sacrifícios e holocaustos.

Deus é misericordioso com os arrependidos.

Outro texto que é interessante mencionar é o de Atos 9: 10-16. Lá encontramos a visita de Ananias, logo após o impactante encontro de Paulo com o Senhor na estrada que ia a Damasco. Paulo, aqui ainda Saulo, foi levado, totalmente dependente de outras pessoas (pois estava cego) a cidade e na casa de um homem chamado Judas (não o Iscariotes), orava. Certamente, uma oração de busca por entender o que acontecia e de reconhecimento dos erros e pecados que havia cometido em sua vida de fariseu zeloso pela lei.
O detalhe é o diálogo de Deus com Ananias. Deus ordena que ele vá até Paulo para orar por ele, impor as mãos e curá-lo. E ainda revelar-lhe o propósito de Deus para sua vida.
Mas, Ananias, assim como muitos (inclusive o próprio Paulo no episódio com Barnabé) somente enxerga os erros e pecados do fariseu Saulo e por um momento questiona a ordem de Deus (vs. 13,14). Era como se dissesse: - O Senhor não se enganou? É este mesmo o homem que tenho que abençoar em Teu nome? Este homem não “presta”. É um rebelde, só atrapalha a obra de Deus!

Deus então tem que repreendê-lo: - Vai... (vs. 15).
É como se Deus ordenasse: - Sou Eu que estou mandando.
Uma repreensão muito parecida com a que impôs a Josué:
“Não to mandei eu?...” (Josué 1: 9).

Em todas essas situações vemos a diferença da forma de Deus agir e a forma como na grande maioria das vezes os homens agem. A exceção fica com Barnabé.
O que podemos entender disso é que nosso Senhor tem um cuidado todo especial com a restauração e reconstrução da vida daqueles que erram, pecam, desfalecem na fé e caem.
A busca de Deus com relação à ovelha que se perdeu visa sempre em primeiro lugar trazer a pessoa ao entendimento de seus erros, reconhecimento dos seus pecados e por fim ao arrependimento. Nunca essa busca deve ser contaminada com a acusação, condenação ou exclusão. Ela não deixa de ser ovelha. As parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo revelam claramente essa situação.
Essa lição que nos é aplicada pela Bíblia deveria fazer-nos repensar e refletir sobre a forma como agimos com aqueles nossos irmãos que cometem erros e pecados. Mesmo aqueles que sem temor ou sabedoria disseminam em nosso meio ensinos estranhos e prejudicais ao Evangelho (heresias). Não podemos confundir a apologética (defesa da fé cristã) com ataques a pessoas. Devemos sim atacar os ensinos propagados por estes, isso é apologética. A ofensa pessoal, o constrangimento desnecessário e a falta de sabedoria na defesa da fé cristã cria e promove mais problemas e acrescenta mais dores a uma situação que já é, por si mesmo, sofrida e delicada. Nunca é demais lembrar que a Bíblia afirma que nossa luta não é contra a carne.
Vejo, inclusive pela internet, muitos irmãos que na justificativa de pregar o Evangelho acabam propagando pecados de outros irmãos, apenas com a intenção que fica evidente, de simplesmente apontar o erro, sem contudo, ter o cuidado da opção de restauração para estas pessoas. Alguns, deixam transparecer um prazer e uma alegria quase mórbida ao apontar os pecados de irmãos e grupos reconhecidamente evangélicos. Mesmo com relação às seitas, devemos saber usar com sabedoria nossas palavras, temperá-las, medi-las com nosso manual e regra de fé e prática, a Bíblia (Efésios 5:1-21).
É com tristeza que vejo muitas postagens e comentários trazendo palavras torpes (palavrões) e termos inconvenientes (ofensas), além de vídeos que menosprezam e ridicularizam o meio evangélico e o culto cristão. Não vejo graça nisso. Vejo muita falta de sabedoria e discernimento.
Um pastor amigo meu certa vez disse: “É como ridicularizar nossa própria família.”

Repito, isso não é apologética.

Uma leitura cuidadosa de Efésios 4: 25-32 é aconselhável a todos nós nesta questão.
Não há humor em apontar erros e distorções. Não há prazer em advertir um irmão. Não há alegria em repreender.
Estas atitudes são necessárias, porém, sempre levando em conta as orientações bíblicas para a correção e disciplina de um irmão em Cristo (Mateus 18: 15-17; 2 Tm. 3: 14,15; Gál. 2:11-14; Mc. 8:33). Não vou detalhar estes textos aqui, porém uma leitura cuidadosa é essencial e a prática fundamental (convido-o a fazer isso). E não encontro nestas orientações humor, alegria ou prazer. Vejo seriedade, responsabilidade e temor a Deus quando somos instrumentos do Senhor para fazer isso.
A Bíblia diz que quando um filho de Deus peca, entristece o Espírito Santo (Efésios 4:30). Então por que eu deveria ficar feliz ou sentir prazer em apontar seu erro?
Ao invés de restauração, vemos acusação. Ao invés do ensino do caminho do arrependimento, vemos a condenação. Ao invés da edificação vemos a destruição do caminho de volta.
Lembro aqui um alerta feito a minha turma quando cursava o bacharel em Teologia pelo meu professor de Teologia Sistemática: - Cuidado com a síndrome apologética!
Na época eu não concordei. Estava muito empolgado em apontar erros das seitas e grupos pseudo-cristãos. Hoje, entendo o que ele quis nos ensinar.
A apologética (a boa apologética) não deve estar desvinculada do amor e perdão de Deus.
A defesa da fé cristã não pode se transformar no ataque ao pecador perdido e muito menos ao irmão caído. A apologética deve fazer o papel de remédio, não de veneno.
Amorosamente advirto aos que assim procedem para que revejam suas posturas e retornem a essência do Evangelho de Cristo, o amor, e a missão prioritária da Igreja, pregar as boas novas de salvação.
Meu amigo leitor, menos precipitação e mais sabedoria e reflexão bíblica é o que devem guiar nossa vida.
Retornando ao caso de Paulo e Barnabé, podemos entender que o apóstolo aos gentios aprendeu a lição, pois já quase no final de seu ministério, manda chamar João Marcos afirmando que era útil ao seu ministério (2 Timóteo 4:11), mostrando que os dois cresceram em maturidade e o bom relacionamento entre os dois foi restaurado e as atitudes do passado perdoadas.

Penso humildemente, que em nossos dias não precisamos de menos “Paulos”, eles são extremamente necessários, mas certamente precisamos urgentemente de mais “Barnabés”.


Pr. Magdiel G Anselmo.








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