sábado, 4 de dezembro de 2010

O Bom exemplo do filho da consolação.


Uma das inúmeras particularidades que me chama a atenção na Bíblia, é que o Senhor não deixou-nos registrado apenas os bons exemplos dos homens e mulheres de Deus. Temos também o registro dos maus exemplos, dos erros e equívocos ocorridos. É óbvio que isto serve para que não repitamos os erros de nossos irmãos do passado.
Lembrei disso nesses dias quando lia e meditava na Palavra de Deus. Deparei-me novamente com o texto de Atos 15: 36-41, quando Paulo se separa de Barnabé após uma desavença por causa de João Marcos.
Naquela ocasião, Paulo se negou a levá-lo na segunda viagem missionária pois este os havia abandonado na primeira, e resolveu levar consigo Silas, enquanto Barnabé não se incomodou em novamente ir com Marcos.
Quando aqui meditava lembrei o perfil de Barnabé, que era chamado de “filho da consolação” por Lucas. Este homem era marcado pela bondade, sabedoria, percepção espiritual e grande respeito, a ponto de convencer os principais apóstolos da autenticidade da conversão de Paulo (Atos 9:27) e reconhecer a situação da obra de Deus junto aos gentios em Antioquia (Atos 11:19). Era um homem de profundo discernimento espiritual e acima de tudo de expressão do amor e perdão de Deus.
A sua insistência em levar na segunda viagem missionária a João Marcos demonstra essa tendência em acreditar na restauração das pessoas e conseqüentemente na integração do restaurado no que tange a comunhão e conseqüente serviço na obra de Deus.
Paulo já não teve essa mesma atitude, esquecendo inclusive que Barnabé acreditando no que dizia, levou-o aos apóstolos contando o que havia acontecido na estrada que ia a Damasco e como Deus o estava usando para a pregação do Evangelho, e ainda o apoiou e acompanhou em Jerusalém no início de seu ministério apostólico. E fez isso quando ninguém acreditava ou pelo menos quando havia muita dúvida da conversão do então Saulo ao Evangelho de Cristo. Barnabé confirmava com isso o apelido que Lucas lhe dava: “filho da consolação”.
Essa atitude de Barnabé, assim como naquela época, é difícil de se encontrar em nossos dias, já a de Paulo muito se vê na vida da irmandade cristã atual. A implacabilidade com o erro de irmãos permeia a maioria das estruturas eclesiásticas e diria mais, a maioria da estrutura individual dos então cristãos de nossa época. Muitas vezes queremos ser mais implacáveis que Deus.
Aqui recordei-me de uma conversa que tive com um irmão quando comentávamos a vida do profeta Jonas e sua derrocada indo parar no ventre do grande peixe. Nesse ponto esse irmão declarou com contundência:
- Bem feito, quem manda ser rebelde!

E mesmo com minhas advertências, continuava a afirmar:
- Que isso pastor? Deus pesa a mão. E isso é bom. É um rebelde a menos em nosso meio!

Lembrei a ele que mesmo Jonas estando naquele momento como um rebelde e desobediente, orou arrependido lá no ventre do grande peixe e o mais surpreendente, é que Deus ouviu sua oração. E mais, de pronto Deus restaurou sua vida e ministério profético. Nem Jonas conseguiu assimilar esse milagre completamente, pois mesmo depois da salvação de muitos naquela cidade, ainda assim ele não desejava isso. Mas Deus o havia perdoado e restaurado, e mais uma vez o repreendeu e ensinou.

Nosso Deus sempre busca restaurar.

Muitos como esse meu irmão, pensam como ele e se juntam aos acusadores contra irmãos da mesma fé sem contudo, observar as orientações e critérios bíblicos para a correção e disciplina já revelados na Palavra.
Um texto que considero perfeito para este ponto é o de 2 Samuel 24: 13,14. Davi havia pecado e Deus manda que escolhesse o castigo que viria sobre ele e o povo. Em suma, Deus deu a ele duas opções: cair nas mãos dos homens (seus inimigos) ou nas mãos de Deus. E a resposta de Davi muito nos clareia a questão que estou abordando:

“Estou em grande angústia; porém caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas, nas mãos dos homens não caia eu.”

Davi sabia que os homens não são misericordiosos. E se você continuar a ler o restante do capítulo verá que Deus poupou Jerusalém, perdoou Davi e cessou a praga sobre Israel após o oferecimento de sacrifícios e holocaustos.

Deus é misericordioso com os arrependidos.

Outro texto que é interessante mencionar é o de Atos 9: 10-16. Lá encontramos a visita de Ananias, logo após o impactante encontro de Paulo com o Senhor na estrada que ia a Damasco. Paulo, aqui ainda Saulo, foi levado, totalmente dependente de outras pessoas (pois estava cego) a cidade e na casa de um homem chamado Judas (não o Iscariotes), orava. Certamente, uma oração de busca por entender o que acontecia e de reconhecimento dos erros e pecados que havia cometido em sua vida de fariseu zeloso pela lei.
O detalhe é o diálogo de Deus com Ananias. Deus ordena que ele vá até Paulo para orar por ele, impor as mãos e curá-lo. E ainda revelar-lhe o propósito de Deus para sua vida.
Mas, Ananias, assim como muitos (inclusive o próprio Paulo no episódio com Barnabé) somente enxerga os erros e pecados do fariseu Saulo e por um momento questiona a ordem de Deus (vs. 13,14). Era como se dissesse: - O Senhor não se enganou? É este mesmo o homem que tenho que abençoar em Teu nome? Este homem não “presta”. É um rebelde, só atrapalha a obra de Deus!

Deus então tem que repreendê-lo: - Vai... (vs. 15).
É como se Deus ordenasse: - Sou Eu que estou mandando.
Uma repreensão muito parecida com a que impôs a Josué:
“Não to mandei eu?...” (Josué 1: 9).

Em todas essas situações vemos a diferença da forma de Deus agir e a forma como na grande maioria das vezes os homens agem. A exceção fica com Barnabé.
O que podemos entender disso é que nosso Senhor tem um cuidado todo especial com a restauração e reconstrução da vida daqueles que erram, pecam, desfalecem na fé e caem.
A busca de Deus com relação à ovelha que se perdeu visa sempre em primeiro lugar trazer a pessoa ao entendimento de seus erros, reconhecimento dos seus pecados e por fim ao arrependimento. Nunca essa busca deve ser contaminada com a acusação, condenação ou exclusão. Ela não deixa de ser ovelha. As parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo revelam claramente essa situação.
Essa lição que nos é aplicada pela Bíblia deveria fazer-nos repensar e refletir sobre a forma como agimos com aqueles nossos irmãos que cometem erros e pecados. Mesmo aqueles que sem temor ou sabedoria disseminam em nosso meio ensinos estranhos e prejudicais ao Evangelho (heresias). Não podemos confundir a apologética (defesa da fé cristã) com ataques a pessoas. Devemos sim atacar os ensinos propagados por estes, isso é apologética. A ofensa pessoal, o constrangimento desnecessário e a falta de sabedoria na defesa da fé cristã cria e promove mais problemas e acrescenta mais dores a uma situação que já é, por si mesmo, sofrida e delicada. Nunca é demais lembrar que a Bíblia afirma que nossa luta não é contra a carne.
Vejo, inclusive pela internet, muitos irmãos que na justificativa de pregar o Evangelho acabam propagando pecados de outros irmãos, apenas com a intenção que fica evidente, de simplesmente apontar o erro, sem contudo, ter o cuidado da opção de restauração para estas pessoas. Alguns, deixam transparecer um prazer e uma alegria quase mórbida ao apontar os pecados de irmãos e grupos reconhecidamente evangélicos. Mesmo com relação às seitas, devemos saber usar com sabedoria nossas palavras, temperá-las, medi-las com nosso manual e regra de fé e prática, a Bíblia (Efésios 5:1-21).
É com tristeza que vejo muitas postagens e comentários trazendo palavras torpes (palavrões) e termos inconvenientes (ofensas), além de vídeos que menosprezam e ridicularizam o meio evangélico e o culto cristão. Não vejo graça nisso. Vejo muita falta de sabedoria e discernimento.
Um pastor amigo meu certa vez disse: “É como ridicularizar nossa própria família.”

Repito, isso não é apologética.

Uma leitura cuidadosa de Efésios 4: 25-32 é aconselhável a todos nós nesta questão.
Não há humor em apontar erros e distorções. Não há prazer em advertir um irmão. Não há alegria em repreender.
Estas atitudes são necessárias, porém, sempre levando em conta as orientações bíblicas para a correção e disciplina de um irmão em Cristo (Mateus 18: 15-17; 2 Tm. 3: 14,15; Gál. 2:11-14; Mc. 8:33). Não vou detalhar estes textos aqui, porém uma leitura cuidadosa é essencial e a prática fundamental (convido-o a fazer isso). E não encontro nestas orientações humor, alegria ou prazer. Vejo seriedade, responsabilidade e temor a Deus quando somos instrumentos do Senhor para fazer isso.
A Bíblia diz que quando um filho de Deus peca, entristece o Espírito Santo (Efésios 4:30). Então por que eu deveria ficar feliz ou sentir prazer em apontar seu erro?
Ao invés de restauração, vemos acusação. Ao invés do ensino do caminho do arrependimento, vemos a condenação. Ao invés da edificação vemos a destruição do caminho de volta.
Lembro aqui um alerta feito a minha turma quando cursava o bacharel em Teologia pelo meu professor de Teologia Sistemática: - Cuidado com a síndrome apologética!
Na época eu não concordei. Estava muito empolgado em apontar erros das seitas e grupos pseudo-cristãos. Hoje, entendo o que ele quis nos ensinar.
A apologética (a boa apologética) não deve estar desvinculada do amor e perdão de Deus.
A defesa da fé cristã não pode se transformar no ataque ao pecador perdido e muito menos ao irmão caído. A apologética deve fazer o papel de remédio, não de veneno.
Amorosamente advirto aos que assim procedem para que revejam suas posturas e retornem a essência do Evangelho de Cristo, o amor, e a missão prioritária da Igreja, pregar as boas novas de salvação.
Meu amigo leitor, menos precipitação e mais sabedoria e reflexão bíblica é o que devem guiar nossa vida.
Retornando ao caso de Paulo e Barnabé, podemos entender que o apóstolo aos gentios aprendeu a lição, pois já quase no final de seu ministério, manda chamar João Marcos afirmando que era útil ao seu ministério (2 Timóteo 4:11), mostrando que os dois cresceram em maturidade e o bom relacionamento entre os dois foi restaurado e as atitudes do passado perdoadas.

Penso humildemente, que em nossos dias não precisamos de menos “Paulos”, eles são extremamente necessários, mas certamente precisamos urgentemente de mais “Barnabés”.


Pr. Magdiel G Anselmo.








4 comentários:

  1. Amado pastor.Como é bom que Deus ainda tenha homens fiéis como o irmão.Homens que estão na trincheira da fé.Há,como o pastor falou,crentes que agem como os fariseus:Tiram o cisco do olho alheio ,mas se esquecem da trave que está nos seus.Gostam de ao errarem,serem tratados com misericórdia,de serem perdoados.E como a parábola do credor incompassivo,querem arrancar tudo daqueles que lhes devem.São os crentes justiça própria.santos,intocáveis.Os demais,coitados não passam de pecadores.É a síndrome do filho mais velho do pródigo.Não aceitam que o mais moço receba o perdão e que o Pai ainda festeje.Na visão deles os únicos merecedores são eles mesmos.Graça e Paz!

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  2. É verdade pastor, é verdade... precisamos de mais Barnabés, mais filhos da consolação. Como bem disse a pastora em seu comentário, são incompassivos, ou seja, sem compaixão.
    Gosto muito da apologética, mas com fins de defesa da fé e correção dos contradizentes. O alvo do apologeta é combater as doutrinas e práticas estranhas à Bíblia, à luz da Palavra e do Espírito. Afinal, como diz a Palavra de Deus, nossa luta não é contra carne ou sangue.
    É preciso lembrar que é dito sobre o Mestre que ele habitou entre nós e era "cheio de graça e de verdade". Precisamos ser como Ele: cheios de verdade, mas também cheios de graça!
    Graça e Paz!

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  3. Muito bom seu texto Pr.
    Realmente, "apostolos" temos muitos por ai, porém aqueles que estendem a mão sao poucos. Muitas vezes são até Samaritanos. hhee

    Triste. Temos que mudar esta história e fazer a diferença.

    Parabéns. Pra. Thaís Itaborahy
    www.palavradevidaaocoracao.blogspot.com

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  4. Infelizmente no nosso meio está cheio de pessoas maliciosas . Nao se preocupam com as pessoas menos favorecidas. principalmente os que igressam na politica se deixam levar pela ganancia e pelo dinheiro. Jesus disse que o dinheiro é a raiz de todo mal.nao tenho nada contra a politica, so me entristeço quando vejo um homem de Deus se corrompendo,vendo seu semelhante viver uma vida de privaçoes e nao se lembram se quer que sao escolhidos por Deus para ajudar e nao ajudam.mas esses tambem sao dignos de nossas oraçoes.

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