sábado, 18 de setembro de 2010

A Mentalidade de Clube

“Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e as boas obras. Não deixemos de congregar-nos.” Hebreus 10: 24,25.


Eu e minha família temos um bom costume nos dias merecidos de descanso e lazer. Nos arrumamos convenientemente para o lazer e diversão e seguimos a um clube onde somos associados.
Ao chegarmos, procuramos uma boa vaga no estacionamento e nos certificamos que tenha algum funcionário do clube responsável em cuidar de nosso carro. Após essa checagem, cada um se dirige para aquilo que mais se identifica.
Nosso menino no auge da adolescência e adepto dos esportes vai para a quadra coberta onde, todo aparamentado como goleiro e cheio de alegria e empolgação, permanece quase todo o tempo praticando seu esporte favorito, o futebol. Já nossa menina que possui um temperamento mais introspectivo e que se irrita quando a chamamos de criança (diz com firmeza que é uma pré-adolescente), agrada-se de conversar com sua mãe sobre assuntos de toda ordem ao mesmo tempo em que se bronzeia ao lado da piscina. Minha esposa prefere entre uma conversa e outra com nossa filha ler um bom livro e meditar sobre a vida, como ela afirma. Eu, depois de ficar um pouco com “as meninas” e observar meu menino jogar futebol (ai de mim se não o fizer por algum tempo), sigo para um local do clube que mais me agrada, a sauna. Ali, permaneço por algumas horas, e entre uma chuverada e momentos na sauna finlandesa e vapor, converso sobre diversos assuntos com outros associados do clube.
Certo dia em uma dessas conversas, mesmo que em minha opinião o clube esteja cumprindo com seus objetivos, outros associados reclamavam de alguns serviços oferecidos e entendiam ser um absurdo a falta de consideração com suas reclamações por parte da administração. Um deles em um momento afirmou que o clube deveria cumprir com suas obrigações de tratar bem e agradar seus associados em suas necessidades e desejos. Afinal, dizia ele, eu me associei para que isso ocorresse. Quero vir aqui para ter meus desejos satisfeitos e não para me estressar. E, por fim decretou: Se não mudarem isso, vou me transferir para outro clube que me agrade.
E foi nesse momento que como num estalo, me vi refletindo sobre essa mentalidade e entendendo porque tantos deixam de congregar e participar ativamente de uma congregação ou denominação evangélica regularmente. É a mentalidade de sócio de clube influenciando e orientando muitos crentes na Igreja.
Muitos pensam que Igreja é como um clube. Existe para satisfazer seus desejos e anseios. Existe para agradar aos associados (membros). Existe para proporcionar aquilo que quero. E mais, muitos líderes que pensam da mesma forma, entendem a Igreja como um clube à busca de novos sócios. E, então partindo dessa premissa usam as reuniões da Igreja para agradar, encantar, entreter ou atrair novos-cristãos ou “associados”.
O que não percebem é que esta idéia e mentalidade da Igreja ser agradável a todos não é bíblicamente fundamentada. Esse apelo em conceder liberdade total (faça o que quiser), tolerância (não se pode chamar a atenção pois magoa-se as pessoas) e anonimato (não existe compromisso ou envolvimento), além de ser sempre "positivo" e benevolente toda vez que alguém for pregar, ensinar ou se relacionar com um irmão (não se toca em questões que podem desagradar aos “irmãos”) também não encontra respaldo no texto bíblico.
A crítica contra a pregação longa e enfatica e a veemência em organizar atividades para entretenimento em reuniões e cultos levam a Igreja a se assemelhar a um clube, casa de espetáculos, circo ou outra forma de lazer e diversão e não a uma casa de oração, adoração ou de ensino e pregação da Palavra de Deus.
Esta filosofia de marketing que busca trazer às pessoas o que elas desejam tem destruído em muitas pessoas o real sentido e significado da vocação/missão e funções da Igreja.
A falta de entendimento e esta visão deturpada do que é Igreja faz com que muitas pessoas se decepcionem e se frustrem por não conseguirem ter aquilo que esperavam que teríam. Decepcionadas, frustradas e muitas vezes até feridas abandonam suas congregações. Algumas vão para outras mas depois de um tempo também as deixam, até que definitivamente e cheias de mágoas e feridas decidem não mais congregar em nenhuma. Juntam-se ao grupo, cada vez maior, dos “crentes sem igreja”.
Procuram então uma justificativa para tal atitude na falta de amor e de acolhimento das então chamadas “denominações evangélicas” e no argumento de que o importante é seguir e servir a Deus, não importando se fazendo parte de um grupo ou denominação evangélica ou isoladamente (em casa, pregando em praças, em trens, etc...).
Segundo eles, a Igreja como organismo (corpo de Cristo, Noiva do Cordeiro, a Igreja Invisível, etc...) não está vinculada diretamente a Igreja organizada em grupos ou denominações que gostam de chamar de “templo” e lhe dão uma injusta conotação negativa. Asseveram que é melhor servir a Deus isoladamente do que congregacionalmente (mesmo que intimamente não concordem realmente com isso). Não entendem que as denominações ou grupos evangélicos (sérios e fiéis a Palavra), são a expressão visível do organismo Igreja.
Penso que para que não deixemos a mentalidade de clube nos influenciar e nos fazer tomar decisões e atitudes precipitadas e equivocadas, vale lembrar quais são as funções da Igreja aqui neste mundo, funções essas que compõem a sua missão como embaixadora de Cristo:

1. A Evangelização: Em Mateus 28:19, Jesus nos instrui: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações”. Em Atos 1:8, Ele diz: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. O chamado para a evangelização é uma ordem para a Igreja.
Portanto para a Igreja ser fiel ao seu Senhor e lhe agradar o coração, deve se esforçar para levar o Evangelho a todas as pessoas.

2. A Edificação: A segunda função da Igreja é a edificação dos crentes. Em Efésios 4: 12, por exemplo Paulo afirma que Deus deu vários dons para a Igreja “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. Em 1 Coríntios 12, Paulo associa os dons espirituais à edificação. Estes dons não são para satisfação pessoal, como alguns podem imaginar, mas para a edificação do corpo como um todo. Por isso, a necessidade implícita de estar juntos, de congregar. Embora haja diversidade de dons, não deve haver divisões dentro do corpo.
Há vários meios pelos quais os membros da Igreja devem ser edificados. Um deles é a comunhão. Em Atos 5, vêmos um exemplo bíblico dessa comunhão. Paulo fala de um participar das experiências dos outros: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1 Coríntios 12:26). Penso que a dor se reduz e a alegria aumenta quando partilhada. Devemos então nos incentivar mutuamente e ser solidários uns com os outros.
A Igreja também edifica-se pela instrução ou ensino. Uma das ordens de Jesus na Grande Comissão foi de ensinar os convertidos a “guardar todas as cousas que vos tenho ordenado” (Mt. 28:20). Com esse objetivo, foi dado dons para as igrejas como os de “pastores e mestres” (Ef. 4:11) visando preparar e equipar o povo de Deus para o serviço e para a vida. É através do ensino que aprendemos como Deus deseja que ajamos e vivamos nesse mundo. O ensino e instrução com respeito a família, vida emocional, profissional, espiritual e em todas as áreas são abordados e aprofundados segundo o que a Bíblia nos revela.
Outro meio também usado para a instrução e ensino é a pregação. Ela é um meio utilizado pela Igreja desde o seu princípio, por orientação e exemplo diretos do próprio Senhor Jesus Cristo. Mas não uma pregação que busca satisfazer os ouvintes. A pregação que edifica é aquela que aborda e se aprofunda na revelação de Deus sobre todas as questões. Uma pregação cristocêntrica que busca ensinar todos os desígnios de Deus, entre eles: a ira de Deus, o pecado, o inferno, a responsabilidade humana, etc... e não somente sobre o amor, perdão, misericórdia, bêncãos, etc.

3. A Adoração: Enquanto a edificação centra-se no crente e o beneficia, a adoração centra-se no Senhor. A Igreja Primitiva se reunia para adorar regularmente, uma prática ordenada e recomendada pelo apóstolo Paulo que chega a advertir contra orações, músicas e ações de graças que não chegam a edificar porque não há ninguém presente para interpretar seu significado aos que não compreendem (1 Cor. 14: 15-17). Penso que a adoração individual e solitária é importante e faz parte da vida de um adorador do Senhor, porém a adoração congregacional é tão importante quanto e é orientada pelas Escrituras para a Igreja. Se assim não o fosse o autor de Hebreus não exortaria a seus leitores a não negligenciarem sua própria assembléia, como era costume de alguns (Hb. 10:25). Por isso devemos entender que nenhuma das duas formas de adoração deve ser negligenciada.

4. Preocupação Social: Dentre as várias funções da Igreja comentadas, existe a responsabilidade de praticar atos de amor e compaixão cristã tanto para crentes como para descrentes. É claro que Jesus se importava com os problemas dos necessitados e dos sofredores. Ele curou doentes e até ressuscitou mortos. Se a Igreja for dar continuidade ao ministério Dele, estará engajada em alguma forma de ministério aos necessitados e sofredores. Resumidamente, o que Jesus espera de nós está bem delineado em Lucas 10: 25-37 na parábola do bom samaritano e em Tiago 1: 27 quando menciona os órfãos e as viúvas, pessoas emblemáticas no que diz respeito a carência e necessidade humanas. Desta forma, a Igreja deve mostrar interesse e atuar sempre que vê necessidades, sofrimentos ou erros.

Para finalizar esse artigo, quero fazer algumas observações também com relação ao que não faz parte das funções da Igreja:

1. Não é função da Igreja proporcionar entretenimento, diversão, shows ou espetáculos aos seus integrantes ou membros. A Igreja não é o local adequado para estas atividades. É sim local adequado e preparado para a oração biblicamente ensinada, para a adoração Cristocêntrica, para a edificação dos crentes através do ensino, comunhão e pregação da Palavra de Deus e para o aperfeiçoamento dos santos para o desemplenho de seus ministérios no corpo de Cristo.

2. Não é função da Igreja testar novas formas ou metodologias para seu crescimento sem o respaldo e análise bíblicas criteriosas. Igreja não é laboratório de pesquisas. Crentes não são ratos de laboratório. Tudo que precisamos saber para nosso crescimento, seja individual ou como congregacão, se encontra nas Escrituras. Que ela nos guie.

3. Não é função da Igreja ser seguidora das novas tendências e ideías do Marketing e da Propaganda, da Psicologia, da Teologia Liberal ou Relacional e de demais formas de pensar que possam existir. Devemos seguir a Cristo. Todas as linhas de pensamento, argumentações, “teologias” ou filosofias devem passar pelo crivo das Escrituras. Ela é que nos mostrará se devemos ou não segui-las. Afinal de contas, a Bíblia é a nossa regra de fé e PRÁTICA. É a PALAVRA DE DEUS inerrante, orientadora, educadora, transformadora e poderosa.

4. Não é função da Igreja agradar aos seus integrantes ou visitantes. A função da Igreja é agradar seu Senhor e Deus. Os integrantes e membros dela devem se agradar disso. O conceito de igreja agradável é a contra-mão da revelação bíblica. O que a Bíblia ensina é buscar agradar a Deus, mesmo que para isso desagrademos ao Homem. Só para ilustrar biblicamente essa questão, não consigo enxergar esse conceito de “igreja agradável” em Atos 5, no epísódio com Ananias e Safira. Se tiver dúvidas leia o texto e verá que Deus se importa sobremaneira com a santidade e pureza na Igreja e abomina pecados ocultos e não tratados. Isso vai contra tudo aquilo que os pregadores e propagadores de uma igreja agradável a todos disseminam no meio evangélico.

5. Não é função da Igreja respaldar líderes e “obreiros” que não entendam a missão e função da Igreja de Cristo. Para os líderes sérios e honestos, chamados, vocacionados e capacitados pelo Senhor e que não iludem o povo com estas vãs filosofias e teologias, segue a orientação bíblica de Paulo a Timóteo:

“Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a Palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda loganimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina, pelo contrário, e se cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se as fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as cousas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. (2 Timóteo 4: 1-5)

Sendo assim, que vivamos segundo as orientações do Senhor para sermos felizes (bem-aventurados - Salmo 1) e ensinemos e alertemos a outros quanto aos desvios dessa conduta.
E se você está atualmente sem uma congregação para participar regularmente, se de alguma forma a mentalidade de clube lhe influenciou em algum momento, seja qual o motivo tiver o levado a estar e pensar assim, amorosamente lhe digo: Deixe isso para trás, perdoe e procure um local e um grupo e retorne ao bom convívio de seus irmãos. Junte-se a eles. Sei que sente falta disso. Congregar faz parte de sua natureza em Cristo. Entenda que nenhum problema, conflito, decepção ou frustração devem lhe afastar de congregar regularmente com seus irmãos. Lhe afirmo com segurança, que sem dúvida, estar congregando nos ajuda significativamente a cumprir aquelas que são as funções da Igreja.






Venha e traga sua família.




E nunca esqueça: Igreja não é clube.

Deus o abençoe.

Pr. Magdiel G Anselmo.

9 comentários:

  1. A paz de Cristo, gostei e queria que esta pregação estivesse na bocoa de todos os pastores,continue assim. E olha que o meu blog se chama CLUBE DA TEOLOGIA,parece que você fez de propósito, rsrsrsrs!!!!

    Marcos Andre - Professor
    CLUBE DA TEOLOGIA
    Para acessar o Clube: http://marcosandreclubdateologia.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. Olá meus irmãos, graça e paz.

    Estou passando para informar, que gostei demais deste espaço, pois é mais uma oportunidade de aprendizado. Como sempre falo: Aprendendo uns com os outros crescemos na graça e no conhecimento, do nosso Senhor Jesus Cristo.
    Gostaria também de divulgar o nosso Blog,
    Ficaremos felizes em vossa visita, mais ainda se seguir-nos.

    “ Mensagem Edificante para Alma”
    http://josiel-dias.blogspot.com/

    Josiel Dias
    Conselho Missionário
    Congregacional
    Rio de Janeiro

    ResponderExcluir
  3. Pr Mag.
    Sem erro, 10.
    Seu artigo diz a verdade simples e pura, Igreja não é clube, mas também não é laboratório, e, nem tão pouco divã de analista!

    ResponderExcluir
  4. Pois é irmão, muitos querem deste jeito, e outros já deixam de Congregar justamente porque a congregação virou um clube com espetáculos, alguns gostam e outros não. Pois muitos dizem que para ir ao clube eles se tornam sócios aqui fora e pagam até bem menos. A igreja tem que se colocar no lugar de igreja, e não de clube com lazer, praça de alimentação e por aí vai, todos esquecem de adorar a Deus,esquecendo do espírito e só satisfazem a carne. Paz querido!

    ResponderExcluir
  5. Pois é Pastor Magdiel,

    Além do que já mencionou a irmã Rô, ainda tem aqueles que quando chegam à Igreja e se deparam com essas verdades Bíblicas, ainda dizem que os tempos são outros, que isso é coisa do passado e que vamos perder povo.

    Já se ouve até: Deus é obrigado a fazer!

    Uma coisa eu sei "Quem é de Deus ouve a voz de Deus."
    Por isso não desanimamos, essa é a verdade e sempre se cumpre, sempre haverá verdadeiros adoradores.

    Deus abençoe sua vida, família e ministério.
    Shalom Querido!

    Pra. Jeane Mendonça (:

    ResponderExcluir
  6. Brilhante pastor! Fiquei tentado a me encaixar neste modelo de "igreja-clube" como o "funcionário do clube que cuida dos interesses dos associados enquanto eles se divertem", sic...

    Acho que preciso de uma sauna também, rs.

    Graça e Paz!

    ResponderExcluir
  7. Por favor me indique uma igreja que não esteja parecendo um clube social, pois procurei procurei e não encontrei.

    ResponderExcluir
  8. Excelente! Uma das frases que me emocionam no NT é aquela em que Jesus disse a Pedro que a igreja era sua (Mt. 16). Ou seja, não podemos fazer da igreja o que queremos, pois não somos seus donos. Postei um artigo sobre igreja primitiva e a contemporânea. Se desejar, veja em http://igrejabatistadoverbo.blogspot.com/2010/09/igreja-primitiva-e-igreja-de-hoje.html.
    Seguirei este canal de edificação.Um abraço.

    ResponderExcluir
  9. Muito bom o texto. Parabéns ! Grande é o desafio de ser uma Igreja relevante, que faz diferença onde ela está inserida. É preciso construir novas lideranças com visão de Reino, uma liderança relevante, apascentadora, desacomodada. Certamente a Igreja-clube perdeu a direção de sua missão como Igreja de Cristo.

    ResponderExcluir

Faça seus comentários. Sua opinião é importante. Participe.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...